– Está a sentir-se bem, minha senhora?

A pergunta chamou a velhota à razão, que se apressou a recompor-se e baixou o olhar.

– Faz amanhã sessenta anos que o Nikolai morreu. Era meu irmão – esclareceu, enquanto a mão se crispava no cajado. – Presumo que sejas a nova dona da mansão, já que ontem não se falou de outra coisa. Entra para falarmos um pouco. Não posso estar muito tempo de pé.

A idosa afastou-se, a manquejar, deixando Selena estacada à porta. Ponderou se devia de facto entrar na pequena casa, antes de o pé dar um passo em frente. Com o avançar dos anos, talvez a senhora tivesse perdido a lucidez e confundisse o neto com algum irmão perdido.

Fechou a porta atrás de si, impedindo que mais frio entrasse, e seguiu-a até uma sala de estar que servia de cozinha e quarto. A velhota sentou-se numa poltrona velha e, com a ponta do cajado, indicou-lhe um banco de três pernas. Selena obedeceu, quase caindo pelo caminho quando o banco manquejou quase tanto como a dona. Tentou disfarçar, enquanto dois olhos argutos a examinavam, e obrigou-se a sorrir de forma tímida.

– O meu nome é…

– Toda a gente sabe o teu nome. Ou sabia, a maioria já foi levada pela velhice. Chamas-te Violetta – declarou a velha, com todas as certezas do mundo. Recostou-se melhor na poltrona.

– Ah… não. O meu nome é Selena, deve estar a confundir-me com…

– Não estou a confundir-te com coisíssima nenhuma! – A senhora bateu com o punho fechado no braço do cómodo. – Foste morta, pouco antes do Nikolai. Mas voltaste para seres morta uma terceira vez.

Incrédula, a jovem abanou a cabeça, não conseguindo conceber sequer o que a senhora estava a dizer. Pior era assistir à crença depositada naquelas palavras e a estranha força que levava o seu coração a comprimir-se.

– Isso não é possível – notou. – A senhora com certeza está a confundir-me com alguém e essa história não faz sentido.

A idosa arqueou uma sobrancelha e esboçou um sorriso de quem escondia um trunfo.

– Ai é? Então abre aquela gaveta e traz-me o que está lá dentro. – Ergueu um dedo que não conseguiu esticar por completo e apontou um guarda-fatos alto, com uma enorme gaveta junto aos pés com calços de madeira para o manter direito.

Voltou a hesitar, mas acabou por obedecer. O interior da gaveta estava quase vazio, exceptuando um dos cantos, onde fora arrumado um livro. Retirou-o com cuidado, apercebendo-se pela capa, outrora branca, que deveria ser tão velho quanto a idosa. Regressou para junto da senhora e estendeu-lhe o livro, mas ela abanou cabeça.

– Não, minha querida, é para tu própria o veres. São fotografias – disse, cobrindo as pernas com a manta em xadrez que estivera nas costas da poltrona.

Com medo do que poderia vir a descobrir, Selena voltou a sentar-se e abriu o álbum. Por alguma razão, o rosto pálido que vira a meio da noite veio-lhe à mente, como se fosse possível gravá-lo em fotografia. Tentou afastar a imagem da cabeça, ao contemplar o retrato a preto e branco de três crianças de mãos dadas. A do meio era uma menina de cabelo cacheado e nas pontas aprumavam-se dois rapazes, a cara chapada um do outro. Olhou a senhora só por um momento antes de passar a página. Viu uma fotografia de família, com as mesmas três crianças presentes, e no rosto daquele que deveria ser o pai reconheceu alguns traços do homem que a visitara: nariz aquilino, expressão prazenteira apesar de o sorriso ser muito leve… lembrava Nikolai, mas alguns anos mais velho.

– Esse é o meu pai – indicou a velha, adivinhando o alvo da sua atenção. – Não é isso que tens de ver, avança.

Selena engoliu em seco e continuou a percorrer o álbum com o olhar. Quase lhe faltou o ar, quando se deparou com uma foto de Nikolai, o mesmo que vira no seu alpendre e o mesmo que fora ali procurar.

– É impossível… deve ser alguém muito parecido… mesmo muito – murmurou a jovem.

– Claro, e eu sou uma matrioshka – ironizou a idosa, revirando os olhos. – Continua, vais encontrar uma foto ainda mais interessante.

Não tinha de todo a certeza de querer continuar, mas parar agora seria vacilar na sua convicção de que aquilo não passava de uma tolice criada por uma mente confusa. Três páginas depois, Selena petrificou com o álbum nas mãos. A velha limitou-se a sorrir, apesar de aquele trejeito estar longe de ser alegre.

– Agora já acreditas, Violetta? – A jovem abanou a cabeça. – Mas devias. E devias também sair daquela casa. Por alguma razão reencarnaste sete anos depois de teres morrido a primeira vez, só para voltares ao caixão vinte e três anos depois. E agora aqui estás. Deixa-me adivinhar… vais fazer vinte e três anos amanhã, não é?

Selena deu um salto do banco e fechou o álbum com um estalido seco, sem se atrever a responder. Pousou-o na beira do banco e tentou articular meia dúzia de palavras.

– Ainda tenho muito que fazer, senhora…

– Lidiya – acrescentou a velhota. – Parece que viste um fantasma. Se voltares a encontrar-te com o Nikolai, não lhe digas mais nada. O espírito dele ficou preso naquela mansão, enquanto o teu reencarna sucessivamente. Se fugires, ele talvez se liberte do fado de te tentar proteger em vão. Se não fugires, ele volta a matar-te.

– Ele quem, por deus?! – Aquele diálogo era de doidos, contudo Selena não conseguiu evitar. – Nikolai?

– O Aristarkh.

A conversa atingira um nível de loucura impossível de contestar. Selena virou costas à velhota e correu dali, sem nada mais dizer. Quando fechou a porta atrás de si, ainda conseguiu ouvi-la: sai daquela casa, Violetta. É um aviso de amiga.

Inspirou o ar frio e desceu a rua em direcção à aldeia, tentando ignorar os olhares assustados que lhe lançavam.

Quando regressou à mansão, mirou a fachada, perguntando-se o que haveria nos andares de cima. Era hora de o descobrir. Foi buscar a lanterna que encontrara na dispensa da cozinha e atestou-a com duas pilhas. Acendeu-a e apontou a luz a si mesma por um instante, semicerrando os olhos. Funcionava, porém a luz não era suficiente. Da gaveta dos talheres tirou a maior faca que lá estava: todo o cuidado era pouco.

Quando pousou o pé no primeiro degrau das escadas, a madeira rangeu uma ameaça. Selena inspirou fundo e incitou-se a avançar, de olhos fixos na quase escuridão do piso superior. Tentou ver o que havia além dos dois lados do corredor, antes de os degraus findarem. A tensão no seu peito era tão apertada que, se ouvisse outro ruído para além daquele que os seus passos provocavam, não pensaria sequer uma vez antes de fugir.

Varreu os dois lados do corredor com a lanterna, assustando-se com as próprias sombras que cresciam e minguavam à passagem da luz. Parou quando pisou o último degrau, e focou a lanterna na moldura à sua frente. Talvez não reconhecesse a vila ilustrada na pintura, se não a tivesse já visto em fotografia, quando procurara a localização da mansão. O estremecer da luz criou a ilusão de que a vegetação ondulava, de que o rebanho de ovelhas num dos cantos se remexia, e de que os habitantes davam um passo em frente no caminho de terra batida. Piscou os olhos e acabou por desviar a lanterna, deixando que a luz corresse as paredes. À distância de um braço havia outro retrato, agora o de uma menina de sorriso tímido que olhava em frente, para o pintor invisível. Franziu as sobrancelhas e aproximou-se do retrato, levando dois dedos até à tela e tocando o rosto da figura. Os olhos tinham o mesmo formato e cor que os seus. No seu peito remexeu-se uma estranha sensação de nostalgia.

Fugiu à abstracção da imagem e procurou o interruptor da luz. Quando o levantou, as lâmpadas tremeluziram e acabaram por se acender com um estalido. Baixou a lanterna e sorriu, aliviada, até voltar a relancear o retrato. A expressão da menina mudara. Já não sorria, e os olhos tinham-se alagado de lágrimas.

Selena petrificou, fitando o retrato sem testemunhar sequer o movimento de um fio de cabelo. Talvez tivesse visto mal, talvez a luz da lanterna tivesse causado alguma ilusão. Mirou o resto do corredor, onde os demais quadros se intercalavam com a parede vazia e de tinta lascada.

A porta mais próxima estava entreaberta. Empurrou-a com a lanterna, mantendo a faca empunhada. Uma luz fraca entrava no quarto através das persianas partidas, iluminando a pequena cama de criança, a boneca recostada na almofada, o dossel corrido para trás. O pó vagueava pelo ar, empurrado pela ténue corrente de vento que entrava por sob a janela. Olhou o chão, certificando-se de que não havia pegadas sobre o pó.

Percorreu todos os compartimentos daquele lado do corredor, encontrando pouco mais que um rato que lhe arrancou um guincho de terror. Chamou a si própria de idiota, tentando mentalizar-se do ridículo da situação e saiu da casa-de-banho.

Caminhou a extensão do corredor até passar a escadaria, e foi investigar o outro lado. Os retratos pareciam segui-la, mesmo os que careciam de olhos. Quando pousou a mão na maçaneta do último compartimento por descobrir, uma subtil corrente de ar envolveu-a.

– Precisas de ajuda?

Pintado a Sangue

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