Pensar bem do sistema eléctrico da casa não abonara a favor de Selena. Enquanto lia um livro, já semi-deitada no sofá e bem tapada com três cobertores espessos, a luz da sala vacilou e acabou por perecer. Insuflou as bochechas e levantou-se, contrariada. Viera preparada para a casualidade de a casa não ter luz, contudo esperançara-se de que não haveria necessidade de usar velas.

Acedeu uma sobre a mesinha, perto de si, voltando depois aos cobertores aconchegantes. Meia hora depois, jazia adormecida com o livro sobre a barriga.

Lá fora, as entranhas do vento sopravam uivos de ameaça que entravam pelas frestas da casa e agitavam as cortinas. A vela apagou-se com um sopro invisível. Talvez tivesse sido o vento, talvez não, contudo Selena acordou de um salto e, por instinto, pousou uma mão no rosto. Quase que poderia jurar que sentira um toque frio na face, leve como uma carícia.

Olhou por entre a escuridão sem ver o menor raio de luz. Deveria ter sonhado, não havia outra explicação. Antes de se deitar verificara todas as janelas e ambas as portas, pelo menos as do piso térreo. Olhou para cima, sem ver realmente o tecto, e perguntou-se o que haveria escondido nos quartos. De repente pareceu-lhe má ideia não ter verificado durante o dia.

Um ranger arrastado ecoou na casa. Vinha do andar superior, mesmo por cima da sua cabeça. Convenceu-se de que não poderia ficar ali quieta, havia a possibilidade de algum animal selvagem andar a vaguear na mansão. Sentou-se e tacteou a mesinha, procurando a caixa de fósforos. Quando a encontrou, atreveu-se a riscar um fósforo. A chama alaranjada revelou um rosto translúcido e de olhos vazios, bem perto do seu.

Um grito apavorado rasgou-lhe a garganta enquanto o fósforo caía ao chão, apagando-se no momento a seguir. Encostou-se ao sofá como se quisesse passar através dele. A escuridão engolira aquela coisa, no entanto ela continuava ali, tão próxima… queria convencer-se de que era uma ilusão, mas era incapaz.

Sentiu uma festa leve no cabelo e não conseguiu evitar um guincho, precipitando-se do sofá para onde pensava ser a porta. Tropeçou na mala que, por descuido, deixara no meio da sala e caiu desamparada. Ficou no chão, muito quieta, esperando que qualquer coisa horrível se precipitasse sobre si. Sem que se conseguisse controlar, um soluço estremeceu-lhe o corpo.

Durante algum tempo ficou ali deitada a ouvir rangidos, os sussurros da casa, os gritos do vento. Por fim, sentou-se com cuidado, tentando enfiar um pouco de juízo na cabeça. Se alguém lhe quisesse fazer mal, já teria tido tempo mais que suficiente.

Cautelosamente, içou-se até ao sofá e voltou a pegar na caixa de fósforos com as mãos trémulas. Riscou outro fósforo. Não havia ali mais ninguém para além dela, pelo menos até às fronteiras erguidas pelo perímetro da luz. Nada impedia que um qualquer ser encoberto nas sombras aguardasse o momento certo para a atacar.

Voltou a acender a vela e manteve-se acordada durante o resto da noite, abraçada a si mesma, esperando ver novamente aquele rosto fantasmagórico. Não tivera sequer tempo para assimilar realmente como era, antes de a chama se apagar, mas aqueles olhos vazios não seriam esquecidos, muito menos os poucos centímetros que os separavam do seu próprio rosto, como se a quisessem ver melhor.

Selena adormeceu quando o Sol já se erguia no horizonte, infiltrando-se pelas frestas das persianas. E só o fez forçada pela exaustão.

Já passava do meio-dia quando acordou com um estremecimento. Da vela sobrara apenas a cera derretida.

Passou as mãos pelo rosto e olhou a vaga luminosidade, recordando-se aos poucos da noite que deixara para trás. Gostaria de acreditar que fora tudo um pesadelo.

Empurrou os cobertores para o lado e estremeceu de frio ao sentir a diferença de temperatura. Talvez não fosse má ideia acender a lareira quando voltasse a escurecer. Teria mais luz, mais calor, e talvez nenhuma coisa a espreitasse enquanto dormia.

Antes de trocar de roupa, puxou as persianas para cima, deixando-se banhar na tão bem vinda luz solar. Quando já estava pronta, saiu para comprar pão e perguntar se haveria alguém que lhe quisesse limpar a chaminé. Com tantos anos de solidão, por ventura estaria entupida com ninhos de pássaro. Se fosse acender a lareira sem o verificar, não só fazia ovos cozidos, como ainda morreria intoxicada com o fumo.

A velha mansão desdenhou do seu medo, enquanto a via afastar-se rua abaixo.

Com atenção, contemplou as habitações que ladeavam a estrada e deu por si a pensar em Nikolai. Ele dissera que vivia a duas casas de distância de si, por isso devia ser uma das casinhas pequenas em madeira por onde passava. Sentiu uma estranha vontade de voltar a ver o único sorriso que lhe fora oferecido, desde que chegara à aldeia.

Estacou em frente a um pequeno portão de madeira, atrás do qual fora plantado um bonito canteiro de flores azuis. Reconheceu nelas a mesma que fora deixada sobre a sua mesa, na noite anterior. Teria sido Nikolai? Era impossível, ele não tivera tempo, nem forma, de chegar à cozinha.

Passou uma mão pela nuca, tentando ganhar um pouco de coragem, e só depois empurrou o portão. Seguiu por um caminho de pedras até à porta principal e bateu. Lá dentro escutou um resmungo irritado, seguido de pancadas secas, no soalho, que se aproximaram da porta. Quando esta se abriu, Selena enfrentou o olhar duro de uma velhota recurvada pelo tempo, que se apoiava num cajado torto.

– Bom dia. Não quero comprar nada – disse logo a senhora, antes que a jovem abrisse a boca.

– Ah… não sou vendedora. Sou a sua nova vizinha, na verdade – explicou, um pouco hesitante. – Peço desculpa por incomodá-la, minha senhora. Vinha à procura de Nikolai. Ele ontem foi muito atencioso e…

De um momento para o outro, a expressão da velhota roubou-lhe as palavras. Ficara lívida, como se lhe tivessem roubado o pouco sangue que possuía.

Pintado a Sangue

Anúncios