O corvo espreitou-a do cimo do portão. Foi o primeiro a dar-lhe as boas-vindas com um crocitar rouco. Diante de si, erguia-se a sua nova casa. Ao telhado faltava meia dúzia de telhas, algumas das persianas estavam tortas, havia vidros partidos… na verdade, de nova pouco tinha, sem ser a inquilina. Junto à porta principal, mas demasiado longe para perceber o que era, qualquer coisa agitava-se ao vento. Inspirou fundo, enquanto os dedos tamborilavam no topo da mala. Desviou o olhar para a tabuleta que estava mesmo ao seu lado, na qual estavam escritas em cirílico, numa letra infantil, as seguintes palavras:

 

Assombrada!

Se entrar, não volta a sair.

Aquilo era patético. Irritada com os muitos olhos da vizinhança que a seguiam, Selena limitou-se a empurrar o portão enferrujado para trás, arrastando depois a mala ao longo do caminho tomado pelas ervas daninhas. Ninguém se atrevera a ajudá-la, ninguém abrira sequer a boca para cumprimentar a nova vizinha. Só sussurravam entredentes.

Parou junto ao alpendre e levantou os olhos azuis, para quase ter um ataque cardíaco. Uma mão mirrada fora pendurada no preciso local onde deveria estar algum candeeiro. O achado macabro, preso por uma faixa de tecido no encaixe do casquilho de uma lâmpada, balouçava-se indolentemente ao sabor do vento, como que a fazer troça de si.

Contou até três e voltou a inspirar fundo antes de subir os primeiros degraus. Observou melhor a recepção que a esperava. A maioria dos dedos estava retraída, e só o indicador se esticava levemente, com uma unha muito comprida, a apontar em direcção ao portão. A mensagem era muito clara.

– Que brincadeira mais infantil… – resmungou, com uma careta. Ainda por cima parecia realmente uma mão verdadeira. Com certeza fora roubada ao cemitério da vila por algum adolescente idiota.

Não se atreveu a tocar-lhe, segurando nela pela faixa de tecido, a qual puxou com força. Felizmente, desprendeu-se com facilidade, só faltando saber o que iria fazer com ela. Atirá-la para o suposto jardim de ervas altas não era opção. Precisava de um caixote de lixo, bem longe dali.

Pousou-a no chão, fora do caminho para não a pisar, e foi buscar a mala ao fundo do alpendre. Içada a bagagem até à porta, Selena tirou as chaves do bolso do casaco. A fechadura não ofereceu resistência quando a destrancou. Com cuidado, não fossem os gonzos ceder, empurrou a porta para trás. As dobradiças rangeram de modo arrastado e doloroso, revelando o quão intocada estivera a casa. Há quantos anos não receberia um único visitante? Em resposta, um bafo morno de mofo e humidade rodeou-a antes de se precipitar para o exterior.

Procurou o interruptor meio às apalpadelas, encontrando várias teias pelo caminho. Quando o pressionou, a lâmpada no tecto piscou várias vezes em modo de ameaça, antes de a luz se fixar e revelar um corredor repleto de uma espessa e intocada camada de pó. A lâmpada voltou a piscar um pouco mais, mas não se fundiu.

– Parece que vou ter muito que limpar – suspirou, dando alguns passos para o interior e não se preocupando em fechar a porta. Não havia ninguém que se atrevesse a atravessar o portão principal, quanto mais a entrada da casa. E assim sempre arejava aquele cheiro a bafio que se entranhara nas paredes e na mobília.

Deixou a mala por ali e foi explorar a casa, aproveitando para abrir de par em par as janelas que não estavam estragadas. Mais do que ar, o casarão precisava de sol.

Como fantasmas silenciosos, lençóis, outrora brancos e já com alguns buracos feitos pelas traças, cobriam a mobília. Com cuidado para não levantar muito pó, puxou um deles descobrindo um sofá de veludo. Tendo em conta o que haveria para arrumar, nessa noite aquela seria a cama perfeita.

 

Quase ao final da tarde, Selena limpara a sala de estar, a cozinha, o escritório e uma das casas de banho; espreitara a biblioteca de estantes cheias e tocara somente num livro cujas páginas se desprenderam da lombada, espalhando-se pelo chão.

Quando encostava o ouvido às ombreiras das portas, conseguia escutar as térmitas que devoravam vorazmente a madeira, como que conspirando para que a casa lhe caísse em cima. Por essa razão, não se atrevera ainda a subir ao piso superior, com medo que as escadas a tentassem matar. Para além disso, lá em cima a escuridão parecia mais densa e, agora que o sol se punha, a falta de luz intimidava-a.

Preparava-se para levar um saco até ao lixo quando desembocou no hall da entrada e olhou para além da porta. Oscilando um pouco, a mão mirrada ali estava, reposta. Contudo, desta vez apontava para o interior de casa, para si, como alguém que a acusava.

Um arrepio percorreu-lhe as costas e cobriu-lhe os braços de pele de galinha. No segundo a seguir já estava a tirar a mão dali, juntando-a ao restante lixo e fechando o saco com um nó forte.

– Esta gente maluca… – sussurrou para si.

Ao portão, um rapazinho com uns seis anos enfiava a cabeça por entre as grades para a ver melhor. Selena franziu as sobrancelhas e avançou para lá, o que só serviu para ele fugir tão depressa quanto conseguiu.

– Não te ia meter dentro do saco – comentou a jovem, com um encolher de ombros. Não que a criança fosse capaz de a ouvir à distância a que já ia, como que perseguida pelo diabo.

Livrou-se do lixo no contentor mais próximo e voltou para a mansão. Lançou uma nova mirada à placa e concluiu que também tinha que tirar aquilo dali, mais cedo ou mais tarde. E iria precisar de arranjar o jardim bravio onde só havia uma flor ou outra entre todas as ervas altas.

Ao chegar ao alpendre ainda pensou que voltaria a ver a mão ali pendurada, como se por magia. Mas esta não estava lá.

Selena jantava na cozinha ao som de um velho rádio, um achado surpreendente. Mais espantoso fora descobrir que ainda funcionava, apesar das interferências que por vezes sofria. Estivera fechado num armário da cozinha durante anos, comprovados pelas teias e pelas duas aranhas enormes que tivera de matar à vassourada.

Quando começara a passar uma das músicas da sua banda favorita, as interferências tornaram-se mais persistentes. Tentou redireccionar a antena, no entanto só piorava o barulho, por isso acabou por desligar o rádio, com um suspiro. Foi só ao fazê-lo que se apercebeu que alguém batia à porta.

Comeu mais uma garfada de massa e correu até lá.

– Quem é? – quis saber, antes de abrir a porta. Acendeu a lâmpada que instalara no alpendre, no local onde estivera a mão, e espreitou pelo óculo.

– Chamo-me Nikolai. Moro a duas casas de distância daqui. Vim saber se precisava de alguma coisa, porque duvido que alguém tenha sido suficientemente amável para perguntar – informou o homem, do outro lado.

O argumento pareceu-lhe suficientemente verosímil, pelo que abriu a porta. Examinou-o com um olhar rápido. Não muito mais velho que ela, deveria rondar os 28 anos. O cabelo exibia um tom loiro claro, a pele era pálida e quase sem rugas, e os olhos cinzentos e profundos. Não obstante isso, o sorriso era até muito simpático.

– Boa noite, Sr. Nikolai. Não precisava de se ter dado ao trabalho de vir até aqui, mas agradeço a preocupação. Foi o único, de facto – garantiu, retribuindo o sorriso.

Em resposta ao frio que se fazia sentir, Selena ajeitou a gola alta da camisola. O vento deveria soprar da Sibéria.

– Não precisa de me agradecer. Ainda por cima é uma vizinha simpática e bonita – notou, mirando-lhe primeiro o comprido cabelo negro e o rosto, e depois o restante corpo. – Não há razão para não ajudar.

Selena corou um pouco e recuou um passo para o interior de casa. O olhar do homem não parecia o de um tarado, mas por vezes as aparências enganavam.

– Mais uma vez, obrigada. Agora tenho de voltar para dentro. Convidava-o a entrar, mas ainda está tudo muito desarrumado e sujo – disse, em modo de desculpa, começando a fechar a porta.

– Posso só saber o seu nome? Não chegou a dizer-mo.

Apesar de Nikolai estar no exterior, a voz dele pareceu soar-lhe perto do ouvido, como se estivesse a segredar atrás de si. Abanou a cabeça, afastando a ideia sem sentido.

– Selena Yelizarov. Tenha uma boa noite. – Fechou-lhe a porta na cara e soltou um suspiro. As pessoas demasiado amáveis assustavam-na.

Quando regressou à cozinha, ao lado do prato de massa com carne estava uma bonita flor acabada de colher. Ficou a olhar para ela, à distância, tentando perceber de onde surgira. Verificara, antes de jantar, que as janelas estavam fechadas com o trinco e a porta da cozinha trancada por dentro. Com cautela, aproximou-se da mesa velha. Percebeu de imediato que a flor não fora a única coisa que surgira, porque, sob ela, fora posto um pequeno bilhete escrito a vermelho que dizia somente:

 

Inspira-me, minha musa.

A tinta estava fresca e esborratou-se quando o polegar lhe tocou, manchando a caligrafia. O tom de vermelho escureceu um pouco, revelando oxidação ao ar. Sabia o suficiente de bioquímica para suspeitar que aquilo poderia ser sangue. Contudo, mais uma vez, a ideia parecia não ter cabimento. Talvez fosse alguém que insistia nas partidas de mau gosto e que aproveitara a distracção que Nikolai causara para se infiltrar. Era uma teoria bastante plausível. Se continuassem a fazê-lo, chamaria a polícia.

Pintado a Sangue

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