O candeeiro de Gomela, relíquia de tempos idos, iluminava ainda a sua esquina noite após noite, hora após hora, sem que “comos”, “quems” ou “porquês” fossem por sua conta levantados. O que se estranha logo se entranha, bem se diz.

Mas o seu alumiar começava a escurecer, e a sua luz a desfalecer. Uma fada, ainda que coisificada, não deixava de ser uma fada. E uma fada era uma criatura, a bem ou a mal, dependente de hábitos e necessidades que lhe mantivessem a mortalidade afastada. Também aqui não haveria quais a serem levantados, as carências simplesmente existiam e importavam. Ninguém lhas saciaria, quer se soubessem, quer não: Gomela desconhecia-lhe a existência, o acendedor de cadeeiros não lhe via humanidade na existência, e o neto do acendedor de candeeiros, que de todos era o que mais via, ainda menos via em tal matéria, que para Jacinto Torres nem humanidade, nem existência. Via apenas um esborrachar, e aquela que tinha de se manter não esborrachada.

Uma noite, já não dia, ela foi-se. Brilhava, brilhava, e deixou de brilhar, num lento apagar que ninguém viu. Graciliano Torres foi dar com um amarelo desaparecido, trocado por um acastanhado de torcer o nariz.

“Oh Jacinto, vê lá se me apanhas outra, que está já se foi,” pediu ao neto, com jeitinho e carinho, que amor pela criança era coisa que não lhe faltava.

Mas o Jacinto Torres há duas semanas que não esborrachava coisa nenhuma, e fada muito menos. As notícias corriam, afinal, as coisas que ali eram as fadas não perdiam a inteligência, ainda que própria, apenas porque um outro alguém a determinava tirar. E fugiam, afastavam-se, recuavam do olhar monocrómico do Jacinto Torres. Era raro, agora, o neto do acendedor de candeeiros ver o que antes via. Não voltou a esborrachar, ou a usar a panela numa não esborrachada: elas não lho permitiram.

E Graciliano Torres, o último acendedor de candeeiros, sem fada e sem petróleo, morreu enquanto acendedor de candeeiros. Sem honra e sem virtude, como bem gostaria de o ter feito, direito e erguido até ao final da aposentaria.

O candeeiro lá está, bonito serviço decorativo. O escadote também. Algumas ervas cresceram-lhe pelos degraus. Por vezes, pousam-lhe fadas.

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