Garra Longa era uma fada. Quando quieta, assemelhava-se a um galho acastanhado, pernas e braços compridos, sem pêlo pelo corpo, ou sexo que a definisse. Um par de asas semelhantes a uma libelinha nasciam-lhe das costas com o dobro do seu diminuto tamanho, e ansiosas de trabalhar, zuuuum, para um lado, ziiiiim, para o outro. Em nada parecia ter humanidade, mas as feições eram-no. Muito escondidinhas, não eram fáceis de ver, e Garra Longa não ajudava: nunca estava quieta. Mas eram-no. Olhos arregalados, nariz arrebitado, lábios que curvavam para baixo, quase que como numa eterna insatisfação. Orelhas também lá estavam, pequeninas, redondinhas, em pleno e total funcionamento. Tudo isso lá estava, e tudo isso ela usava, nas suas funções que todos conhecem, e nas suas funções que todos no fundo lá sabem: expressão de sentimentos, pensamentos, estados de espírito. Vez ou outra, que não se quer tudo espalhado aos olhos de outros a toda a hora e momento.

Garra Longa também brilhava. A luz pertencia-lhe do mesmo modo que lhe pertenciam os olhos, as asas, o arrebitado nariz e as orelhinhas redondinhas. Seguia-a quando ele esvoaçava, zum e zim, envolvia-a quando ela parava – nos raros momentos em que parava. Não eram muitos, já foi dito e repetido.

Jacinto Torres apanhou-a com uma panela. Viu-a, com aqueles olhos sem personalidade, rasar o balcão da cozinha e PIMBA, panela em cima. Ela esvoaçou no espaço pequeno, apertado, só não escuro porque ela brilhava. Teria gritado se falasse, e, de facto, gritou, mas Jacinto Torres não ouviu porque ver não era nem é o mesmo que ouvir, e os sons das fadas eram e são diferentes dos sons de um Jacinto Torres ou de um Graciliano Torres.

“Olha, avô, está aqui,” ofereceu Jacinto Torres, na monocromia que lhe bafejara toda a acção. O acendedor de candeeiros agradeceu. Depois, com cuidadinho, não fosse a coisa fugir-lhe nas barbas – figurativas, que ele nada tinha que não fosse o bigode –, virou a panela e cerrou-a com a tampa. Garra Longa atirou-se contra o metal, que a panela era dessas, mas nada feito. Estava presa, raptada, encarcerada.

Condenada a uma utilização humana. Prática e útil, que é para isso que as coisas se querem.

O acendedor de candeeiros levou-a naquela mesma noite. Subiu o escadote, trocou-lhe a prisão, desceu o escadote, afastou-se, e observou a obra-prima. Ela brilhava, brilhava e brilhava. Brilhava ainda mais um bocadinho, alumiava como nunca antes. Aquilo sim, duraria a noite toda. Pela madrugada, estivesse o galo ainda a cantar, que alguns ainda o fazem, trataria de a ir buscar, não fosse o brilho do dia matar o brilho da noite. Que ideia, que ideia a sua!

Era um orgulho, o acendedor de candeeiros.

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