O Jacinto Torres era o neto do acendedor de candeeiros, quer os outros soubessem, quer os outros não soubessem. O Jacinto Torres era um puto calado, magrela, metido de si para si. Apanhava lambada nos recreios e levava com bolinhas de papel envoltas em cuspo na sala de aula. Não havia almoço que levasse para a escola, nem dinheiro que lhe ficasse nos bolsos. O Jacinto Torres não era anti-social, que nenhum mal queria à dita, mas não deixava por isso de ser um pária.

O Jacinto Torres não sabia bem como reagir à sua vida. Parecia um pote vazio, quietinho quando faziam dele o que bem aprouvesse, sem reacções ou sequer um trejeito medroso de lábios. Ninguém sabia o que o neto do acendedor de candeeiros passava, excepto aqueles que o faziam passar por elas. É difícil falar-lhe dos sentimentos, dos pensamentos ou das acções. O Jacinto Torres não parecia manter grande interesse numa personalidade: talvez ainda a esperasse, convicto das vantagens da espera quando contraposta com o trabalho e as agruras e de efectivamente desenvolver uma por sua iniciativa, ou quiçá iniciativa dos demais, que isto de personalidades não se faz nem num dia nem sozinho.

O Jacinto Torres também via fadas. Não era maluco, mas via fadas. Ficava mudo e quedo, observando-as a esvoaçar, zzzzuuuum, zzzziiiiimmmm, as asas batendo freneticamente, um rasto de luz seguindo-as para onde fossem. Era no quarto, era na sala, era no jardim, era na escola, era onde calhasse. Nunca estavam quietas, não se atreviam: se ficavam quietas, logo outro as poderia ver. Se esvoaçassem, só o neto do acendedor de candeeiros as conseguia ver. Por vezes alguém tinha uma impressão pelo canto do olho, a sensação de uma súbita iluminação do espaço, uma clareza que ganhou forma e se esvaiu. Mas ver-ver, ninguém mais via.

Um dia ganhou um traço de curiosidade. Talvez a personalidade sempre estivesse a querer visitá-lo: tentou apanhar uma. Espalmou-a feito um insecto, ZÁS, foi-se a fada, esborrachada contra a parede da sala. Olhou a fada contra o caiado branco, um amarelado desinforme, e olhou a palma da mão culpada, quase esperando uma qualquer mancha acusadora. Mas não. A palma da mão nada tinha, exceptuando a ligeira comichão de ter sido atirada contra uma parede. Olhou outra vez para o que fora uma fada. A luz desaparecia, morria, levou o amarelo, até deixar na parede uma coisa acastanhada.

“Agora é que parece mesmo um insecto,” pensou. E a curiosidade, outra vez, resolveu convidar-se à entrada, a abusada.

As fadas foram-se, uma, duas, três. Não massivamente, não todos os dias, não em todos os locais. Mas de vez em quando, assim como um passatempo. O Jacinto Torres queria saber quanto tempo brilhavam as fadas depois de esborrachadas. Nunca era muito, soubesse lá ele porquê.

Um dia, outra vez um dia, fê-lo à frente do avô. “Oh Jacinto, ora repete lá isso!” E o Jacinto repetiu. O avô perguntou, e perguntou, e voltou a perguntar. Pareceu gostar muito de saber sobre as fadas, o Graciliano, ainda que nada soubesse sobre elas antes. Mas era um homem prático e, pior de tudo, era um homem prático com um problema: o candeeiro não alumiava durante toda a noite. Eram outros tempos, aqueles. E Graciliano não recusava recursos.

“Oh Jacinto!” chamou. “Apanha-me aí uma não esborrachada!”

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