Não havia modernização que não chamasse tanto apoiantes como protestantes. Aquela era, naturalmente, uma modernização, e quando os candeeiros a petróleo da cidade de Gomela sofreram uma substituição pelos candeeiros eléctricos, cabeças acenaram em concordância lado a lado com vozes que se exaltaram em discordância. Nem uma nem outra foram perdidas ou achadas. A troca estava feita, e não voltaria atrás por uns, ou se manteria por outros.

Um candeeiro, no entanto, permanecia. Por ensejo de recordar, por esquecimento, porque até que ficava bem na esquina daquela rua. Qualquer coisa. O que interessa é que ficara: e luzia. Iluminava durante toda a noite, com a eficácia que nenhum candeeiro a petróleo parecia ter tido alguma vez em vida. Quem era de fora estranhava, quem era de dentro entranhara. A pessoa reage assim, habitua-se, insere no dia-a-dia e não volta a pensar sobre o assunto.

Como, por exemplo, quem acenderia o candeeiro. Talvez o soubessem caso pensassem, mas não pensavam sobre o quem. Outras coisas se intrometiam: quem não puxara o autoclismo, quem riscara o carro do vizinho, quem andava a mandar chocolates à mulher. O quem acenderia o candeeiro esbatia-se de importância tão grande quantidade de “quems” bem mais prementes. Mas tinha um nome, e atendia por Graciliano Torres. Tinha também um corpo: mediano, barriguinha de cerveja, careca circulada por uma linha de cabelos cinzento, bidoginho de igual cor. Vestia, usualmente, fato preto sem gravata, de casaco aberto sobre a camisa branca. Família não lhe era conhecida muita, um neto apenas, franzino e esquivo, que frequentemente parecia não estar ali. O tipo de pessoa cuja presença se esquece, o coitadito.

Graciliano Torres era um acendedor de candeeiros, quer os outros soubessem, quer não. O escadote mantinha-se encostado à entrada da casa, só dali saindo quando o patrão se lançava a fazer o serviço, e, miraculosamente, nunca roubado. Porque quereria alguém roubar um escadote não se saberá bem, mas a cavalo dado não se olha o dente, e Graciliano pecava por falta de precauções. Era sortudo, apenas.

Mas o mistério que permanecia e, esse sim, ninguém sabia, era o alumiar do candeeiro. Chuva ou sol, neve ou nevoeiro, a luz ali se mantinha, brilhante e amarelinha, sem ofuscar que se intrometesse pela sua função adentro.

Talvez não fosse petróleo. Diz quem o sabe que, acabando este, chapéu com a iluminação, nem para rico nem para pobre, tudo igual, na noite de gatos pardos. Diz quem sabe também que não há serviço público em funcionamento conforme ao projecto: se petróleo havia, petróleo acabaria, e preferencialmente bem antes da madrugada, que é para o inconveniente ser maior e melhor.

Mas tal não acontecia com o candeeiro de Gomela. Era certo, certinho: o candeeiro não falhava, para honra e orgulho de Graciliano Torres, quer os outros soubessem, quer não. Talvez não fosse petróleo. Talvez fossem fadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Anúncios