– Está na hora de acordar, bela adormecida!

Roger despertou com um safanão de Colin. Estava escuro, mas mesmo assim, conseguiu ver que o mercenário estava sentado à sua frente, amarrado com cordas nos pulsos e tornozelos. Por instinto, tentou levar a mão ao rosto, ainda lhe doía da pancada que levara, mas tal como Colin, os seus pulsos estavam presos atrás das costas.

– Onde estamos?

– Enfiados num contentor de carga – respondeu Colin, cuspindo de seguida para o lado. – Deixa-me adivinhar, eles ficaram com os cristais.

– Apanharam-me de surpresa. Não tive tempo de reagir…

– Sim, eu calculei mal te fecharam aqui dentro comigo. Mas isso agora também não interessa, temos é que sair daqui.

Antes que Roger pudesse responder, a porta do contentor abriu-se, iluminando o interior com a luz do sol. O mesmo rapaz ruivo a quem tinham roubado o baú entrou.

– Tenho de vos dar os parabéns, por pouco conseguiam fugir com os cristais. Roubar os Sombra Negra não é algo de que muitos se possam orgulhar, e vocês estiveram bem perto de o conseguir.

– Vocês têm de devolver os cristais – pediu Roger.

– Temos?! Por acaso sabem quanto tempo nos levou a preparar esta pequena operação? E já agora, o que é que estes cristais têm de tão importante para os demónios?

– Tu não fazes a mais pequena ideia daquilo com que estás a lidar, pois não? – questionou Roger.

– Para os demónios terem tanto interesse neles é porque devem ser bem importantes. E isso significa bom dinheiro. Mas já que parece ser tão esclarecido na matéria, que tal elucidar-me?

Hawkins olhou para os verdes olhos do jovem e manteve-se em silêncio.

– Muito bem, parece que vou ter de descobrir por mim mesmo.

– Ouve-me bem ó fedelho, é melhor libertares-nos se não queres saber o que é bom para a tosse – ameaçou Colin.

– Não me parece que vocês estejam em posição de fazer ameaças. Se fosse a ti tinha mais tento na língua. Ainda estou a tempo de vos deixar amarrados na rua à mercê dos demónios.

– Eu já matava demónios ainda tu andavas de fraldas!

– Não duvido. Espero que apreciem a estadia, até decidir o que fazer com vocês – dito isto, deu meia volta e voltou a fechar a porta do contentor, deixando-os envoltos de novo em escuridão.

Aguardaram até não ouvirem sons vindos do exterior para falar.

– Como é que vamos sair desta? – questionou Roger.

– Enquanto tu estavas a passar pelas brasas, eu tive o cuidado de pensar no assunto. Estes idiotas estavam tão preocupados em não serem apanhados pelos demónios que nem me fizeram uma revista em condições.

– Do que é que estás para aí a falar?

– Na minha bota direita está uma pequena navalha para situações de emergência. Tens que ser tu a tirá-la, eu não consigo lá chegar.

Roger acenou com a cabeça e aproximou-se de Colin. Colocando-se de costas para o mercenário e, com as mãos presas atrás das costas, puxou a bota com força. Com algum esforço, acabou por descalçar o companheiro.

– Dentro do cano da bota há um pequeno bolso onde está a navalha.

Hawkins apalpou a bota até sentir a reentrância e o pequeno objecto metálico.

– Encontrei!

– Óptimo! Agora puxa-a cá para fora.

As mãos presas atrás das costas não facilitavam os movimentos, mas ao fim de algumas tentativas, a pequena lâmina metálica caiu ao chão.

– Apanha-a e corta-me estas malditas cordas – ordenou Colin colocando-se de costas para Roger. – Assim que tiver as mãos livres liberto-nos.

Roger pegou na navalha e aproximou-a das cordas que prendiam os pulsos do companheiro. Apertando o cabo com força, fez a lâmina mover-se para cima e para baixo, cortando o sisal. O processo era moroso, dada a grossura das cordas e a pouca amplitude de movimentos que Hawkins era capaz de fazer. Porém, ao fim de alguns minutos, Colin conseguiu libertar os pulsos, desatando as cordas que lhe prendiam os tornozelos bem como as que imobilizavam Roger.

– E agora? – questionou Hawkins, já de pé, passando as mãos nos pulsos doridos.

Gritos de alerta vindos do exterior inundaram o interior do contentor. Um misto de rugidos e disparos de armas de fogo tomou conta do ambiente.

– Os demónios…

– Aqui temos a nossa oportunidade – declarou Colin, colocando-se de imediato atrás da porta.

Antes que Roger lhe pudesse perguntar o que estava a fazer, um dos membros do Sombras Negras abriu o contentor e entrou, sendo logo atingido no sobrolho pelo cotovelo de Colin. Agarrou-o de seguida pelos ombros da camisola, e atirou-o de cabeça contra a parede do contentor, fazendo-o cair ao chão sem sentidos.

– Por aqui, depressa – ordenou o mercenário roubando a arma ao bandido inconsciente.

Roger avançou atrás de Taylor, este progredia por entre as ruínas dos edifícios que ladeavam a rua, não se preocupando nem com os Sombra Negra nem com os demónios. A avenida tinha-se tornado num autêntico campo de batalha. Por todo o lado viam-se membros dos Sombra Negra a enfrentar grupos de demónios alados, abrindo fogo, tentando manter as criaturas afastadas. Acabaram por encontrar uma pequena cova por baixo dos escombros por onde Colin se enfiou, puxando Hawkins atrás de si.

– Agora fica calado e não te mexas. Não faças nada até eu te dizer – ordenou.

Permaneceram naquele local por quase quinze minutos. Dezenas de demónios surgiam dos céus e das ruínas dos edifícios para atacar os Sombra Negra, que tinham já um razoável número de baixas. Escondidos, observaram o confronto. O gangue de ladrões tentou manter a posição, afastando as criaturas o mais que podia. Homens e mulheres vestidos de negro abriam fogo contra o adversário numa tentativa de ganhar o controlo da área, mas o número de opositores era avassalador.

Montado numa moto de motocross, o rapaz ruivo surgiu por entre as fileiras de demónios, empunhando o machado de guerra. Com a afiada lâmina da arma espalhou a morte por entre as criaturas, decepando cabeças e membros.

– Retirar! Retirar!

Os humanos começaram a recuar. Dirigiram-se para veículos ou para os sistemas de esgotos da cidade, abandonado da área com uma rapidez que surpreendeu Roger. Compreendia agora porque se dizia que os Sombra Negra eram mais rápidos a desaparecer que a própria sombra.

Já não se via um único Sombra Negra quando ela surgiu de entre as ruínas de um dos edifícios. Movimentando-se de forma sensual por entre os corpos no campo de batalha, Leviatã observava a rua em busca de algo. Um demónio alado aterrou em frente dela e ajoelhou-se no chão. Estavam perto o suficiente para que Roger e Colin pudessem ouvir a conversa.

– Onde está ele? – questionou numa voz fria.

– Os humanos, eles levaram-no…

Por breves instantes o olhar de Leviatã tornou-se duro. Roger julgou que ela iria ceder à fúria, mas depressa recuperou o olhar esbatido de emoção, calmo e inabalável.

– Sigam-nos e descubram o esconderijo dos humanos. Eu quero esses cristais.

O demónio fez uma vénia e levantou voo, espalhando as ordens da líder pelo grupo. Leviatã continuou a sua caminhada lenta pela rua, apreciando a chacina que os seus súbditos tinham causado.

Aguardaram escondidos na pequena cova até já não se ver, ou ouvir, um único demónio em toda a rua. Por fim, Colin acabou por dar a indicação de que era seguro sair.

– Temos de encontrar o esconderijo dos Sombra Negra antes dos demónios – declarou Roger.

Colin sorriu.

– Felizmente para ti, sei exactamente onde devemos procurar – respondeu o mercenário. – Vamos, temos de nos preparar se queremos roubar o maior bando de ladrões de Londres e arredores.

Roger suspirou. Pelo menos os cristais não tinham caído nas mãos dos demónios. Nem tudo estava perdido. Se a profecia fosse verdadeira, aqueles cristais seriam a salvação da humanidade e a derradeira arma contra o exército das Trevas. Restava-lhe agora esperar que, desta vez, tudo corresse como planeado.

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