Os cinco cristais coloridos brilharam quando Roger abriu o pequeno baú.

– O quê? Tanta coisa por cinco cristais? Que raio de brincadeira é esta? Tu tinhas dito que era uma arma contra os demónios! – protestou Colin.

– E é. Estes cristais permitem a quem os usar controlar os poderes primordiais. Existe um cristal para cada elemento.

– Cada elemento?

– Fogo, Água, Ar, Terra e Espírito. Com estes cristais conseguimos fazer frente aos demónios – explicou Roger.

– Então é isso que a Nova Ordem quer? Do que estamos à espera para os usar e sair desta alhada?

– Não é assim tão simples. Tenho de os estudar para perceber como funcionam. De acordo com uma profecia dos demónios, os cristais só podem ser usados pelos Escolhidos.

– Cá para mim é tudo treta. São pedras como outras quaisquer.

– Se fosse tudo treta, achas que tinhas a Leviatã e um contingente de demónios a proteger este baú? Ou que a Nova Ordem nos enviava? Agora, o que interessa é sair daqui com eles. Mais tarde temos tempo de perceber como activar o seu poder.

O som de algo a embater contra a porta da pequena sala interrompeu a conversa.

– Eu sei que estão aí – declarou alguém do exterior. – Vocês têm algo que me pertence, devolvam já o baú!

            Colin preparou-se para abrir a porta e enfrentar o adversário, mas Roger agarrou-o.

            – A prioridade é levar este baú à Nova Ordem. Podes ajustar contas com os Sombra Negra mais tarde.

            Resignado, Colin afastou-se da porta e dirigiu-se para a única janela na divisão. Era demasiado pequena para alguém passar por ela mas suficiente grande para iluminar o local. Espreitou para o exterior. Vários homens vestidos de negro aguardavam do lado de fora.

            – Estamos rodeados – declarou o mercenário.

            – Não lhes podemos simplesmente entregar os cristais. São a nossa única hipótese de algum dia derrotar os demónios.

            Colin manteve-se em silêncio até que avançou para a parede do lado oposto da divisão, mesmo ao lado da caldeira. Com as mãos, arrancou uma pequena grade que impedia a passagem para uma conduta de ar.

            – Por aqui.

            – O quê? Mas tu estás louco? Tu não cabes aí!

            – Mas cabes tu, Einstein.

            – E o que tencionas fazer? Ficar aqui?

            – Vou ganhar tempo. A missão é levar os cristais daqui e colocá-los em segurança.

            – Nem penses que te vou deixar para trás – contrapôs Roger.

            – É para isto que me pagam – recordou Colin. – Não vão ser meia dúzia de ladrõezecos que me vão parar. Agora mexe-me esse cú e sai daqui. Eu encontro-me contigo assim que puder.

            Sem resposta, Roger enfiou-se pela ventilação e começou a rastejar no apertado espaço. Atrás de si, Colin voltou a colocar a grade no lugar.

            O mercenário aguardou alguns instantes até abrir a porta da sala. Assim que o fez, vários homens de negro saltaram-lhe em cima, tentando imobilizá-lo. Aplicando golpes rápidos, afastou os atacantes. Um dos homens apanhou um ferro do chão e avançou na sua direcção. Colin esquivou-se para a direita e apanhou o braço do atacante pelo punho. Pressionou os tendões e obrigou o adversário a largar a arma. De seguida, contorceu-lhe o braço até ao deslocar, fazendo-o cair ao chão com as dores.

            – Chega! – ordenou o rapaz ruivo que os tinha perseguido até ali. – Onde está o baú? Responde-me!

            Colin sorriu e cuspiu para a cara do líder. Vários membros do gangue avançaram sobre o mercenário. Este debateu-se novamente, mas acabou por ceder quando foi atingido por uma arma de electrochoque, caindo de joelhos ao chão. Foi de imediato imobilizado pelos atacantes.

            O jovem ruivo retirou um machado das costas e aproximou a lâmina do pescoço de Colin.

            – Eu fiz-te uma pergunta.

            – Não te preocupes rapazinho, o baú já está bem longe daqui.

            Afastou o machado e olhou em redor, acabando por fixar o olhar na conduta de ar junto ao chão.

– Eles eram dois. O outro deve ter fugido pela conduta. Apanhem-no.

– Sim, Enlil – responderam alguns homens, colocando-se de imediato em movimento.

– Levem-no, o meu pai deve querer ter uma conversa com ele – ordenou, enquanto apontava para Colin.

***

            Roger avançou pela conduta o mais depressa que pôde. Começava a sentir-se claustrofóbico, como se o peso de todo o edifício estivesse prestes a cair-lhe em cima. Rastejou até alcançar uma saída que dava para o exterior do edifício. Empurrou a grade de protecção e saltou.

            Encontrava-se no jardim interior do condomínio, agora ocupado por matagal. Olhou em redor e não viu qualquer sinal de demónios ou dos Sombra Negra. Aparentemente, estava em segurança.

            Apertando o baú contra o peito, correu em direcção ao edifício do outro lado do jardim. Não fazia a mais pequena ideia de como ia sair daquela encrenca, especialmente sem a ajuda de Colin. Ele não era nenhum guerreiro treinado, estava ali única e exclusivamente pelos seus conhecimentos em demonologia.

            Ao alcançar o pequeno patamar abrandou. Espreitou o interior e entrou na carcaça do velho edifício. Não ouvia mais nenhum som a não ser os dos seus passos. Estava sozinho.

            Correu pelos corredores repletos de vegetação e humidade. Se queria sair dali com os cristais não se podia arriscar a ser visto, porém parte de si insistia que voltasse atrás em busca de Colin. Apesar de saber que se a situação fosse inversa seria deixado à mercê do gangue, a menos que o mercenário fosse pago para o salvar, Hawkins não conseguia tirar da cabeça a ideia de que estava ser desleal.

            O som de algo atrás de si fê-lo virar-se de repente. Não conseguiu ver o atacante, apenas o cabo da arma que lhe atingiu o rosto, atirando-o ao chão, sem sentidos.

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