Roger sentiu o ar a fugir-lhe do peito quando embateu violentamente de costas contra a parede. Ainda não tinha recuperado da dor, já o demónio se lançava na sua direcção, pronto a esventrá-lo com as garras afiadas. Esquivou-se para a esquerda e começou a correr. A grotesca criatura iniciou a perseguição por entre as ruínas do prédio.

Avançando por entre paredes cobertas de vegetação e humidade, tentou escapar ao predador. Quase que conseguia sentir-lhe o bafo à medida que ela se aproximava. O demónio baixou-se e começou a correr nas quatro patas. A distância que os separava era cada vez menor. Virou à direita, saindo do corredor principal para um mais pequeno. Continuou a fugir. Estava ofegante e o suor escorria-lhe pelo rosto.

Por que raio é que tinha de perder a arma?! Sou mesmo otário! Amaldiçoou-se ao virar em mais um corredor, entrando numa pequena sala cujo mobiliário desfeito era agora casa de inúmeras espécies vegetais.

Um beco sem saída. Virou-se mas era tarde demais, o demónio barrava a porta. Recuou até bater com as costas na parede. O ghoul voltou a erguer-se nas patas traseiras e abriu as mandíbulas soltando um rugido ameaçador. Ansiava por carne humana.

Saboreando o momento, o demónio avançou lentamente para a presa encurralada. A espessa baba amarela escorria-lhe das mandíbulas pela pele cinzenta. Os seus largos olhos negros fitavam Roger num misto de diversão e desejo.

Com a mão, Roger apalpou algo deixado em cima do que restava na mobília. Um velho cadeeiro? Sem pensar duas vezes, atirou-o à cabeça da criatura.

Os reflexos do ghoul eram demasiado rápidos. Com um movimento fluido desviou-se do velho relógio, que se desfez contra a parede. Irritado, rugiu para a presa e atirou-se sobre ela.

Roger caiu de costas quando o peso da criatura lhe atingiu o peito. Com o tamanho de um homem pequeno, a besta possuía uma força atroz, apenas comparável com o seu apetite voraz. Sentiu as garras cravarem-se-lhe nos ombros, imobilizando-o. Com a presa em posição, o ghoul abriu as mandíbulas e preparou-se para lhe rasgar o pescoço.

A cabeça do demónio voou para o outro lado da sala quando a lâmina de uma espada a separou dos ombros. O denso sangue arroxeado esguichou o rosto de Roger ao mesmo tempo que o cadáver da criatura lhe caía sobre o peito. Com algum esforço, empurrou-o para o lado libertando-se do peso. Levantou o rosto e olhou para o seu salvador.

– Mesmo a tempo.

– Mas que porra, Hawkins! Contigo é sempre a mesma merda! – respondeu Colin, atirando-lhe a arma perdida para o colo. – Quantas vezes já te disse para teres cuidado com a arma?!

Roger passou com a manga do casaco tweed no rosto para limpar o sangue e guardou a arma. O mercenário musculado e de dois metros de altura olhava-o furioso. Algo a que já se tinha habituado ao longo dos últimos quinze anos.

– Perdia-a na fuga…

– Isso vi eu! Agora mexe-te. Livrámo-nos deste grupo mas pode haver mais à espreita. Já demos demasiado nas vistas.

Roger levantou-se e seguiu Colin para fora da sala. Passou com a mão no ombro direito, deixando a camisa branca manchada de sangue vermelho.

– Estás ferido?

– Nada de especial. Apenas um arranhão.

– Tu lá sabes… Agora mexe-me esse cú. Sabes bem a importância desta missão.

Colin guardou a espada na bainha que trazia presa às costas e pegou na caçadeira de canos cerrados. Imitando-o, Roger preparou o revólver.

Seguiram pelos corredores do prédio em silêncio. Podia haver mais ghilan na zona e a última coisa que precisavam era que fosse dado o alerta. Não que Colin não fosse capaz de dar conta do recado. O mercenário de trinta e nove anos e cabelo loiro cortado à escovilha continuava tão ameaçador e mortífero como no dia em que Roger o conhecera. De calças com padrão camuflado, botas de tropa, camisola caqui de manga cavada e tatuagem de dragão no braço direito, Colin Taylor parecia o companheiro de casa do Rambo.

Alcançaram uma ampla sala onde uma das paredes tinha sido derrubada, permitindo ver a avenida no exterior. Restava saber se a fachada dera de si ou fora o resultado de um ataque de demónios.

Com as mãos, Colin fez sinal a Roger para se esconder atrás de um pilar e olhar para a rua. Hawkins refugiou-se de imediato e lançou um olhar rápido para a avenida.

Um grupo de ghilan e demónios alados avançavam pela rua de forma ordenada, numa espécie de cortejo. Como se o comportamento das criaturas não fosse estranho o suficiente, mulher caminhava por entre os demónios. Era magra, de estatura mediana e possuía longos cabelos roxos. Vestia um fato de cabedal que lhe que se ajustava perfeitamente ao corpo, revelado as suas formas curvas. Transportava um pequeno baú de metal escuro nas mãos. Então sempre era verdade…

– Os anormais têm o baú. Vou avançar – declarou Colin.

– Quieto! – protestou Roger, agarrando o braço do mercenário. – Aquela ali no meio deles, quem é que tu pensas que é?

Colin parou e fixou o olhar na figura feminina.

– Sei lá… Uma tipa qualquer que se aliou aos demónios ou que está a ser controlada por eles. Nada que não tenha visto – cuspiu no chão. – Esta escumalha que se junta aos demónios mete-me nojo. Como é possível traírem a própria espécie?!

– Olha outra vez – respondeu Roger. – Repara nos olhos.

O mercenário pegou nos pequenos binóculos que trazia à cintura e focou no rosto da mulher. Os seus olhos eram de um violeta cristalino e não possuíam pupila.

– Mas que merda…

– Ela não é humana. Aquela, meu caro amigo, é nem mais nem menos que a Leviatã em pessoa. Entras ali de qualquer maneira e és morto antes de conseguires fazer o que quer que seja.

– Leviatã? Um dos generais?

– Essa mesma – confirmou Roger.

Os seis generais eram os líderes do exército das Trevas e os mais poderosos entre os demónios. Roger ouvira relatos de exércitos inteiros massacrados no momento em que um dos demónios generais entrara no campo de batalha.

– Precisamos de um plano – declarou Hawkins. – Talvez se os contorn…

Todo o edifício tremeu e ouviu-se um enorme estrondo. Roger foi projectado para trás pela onda de impacto. Havia fumo por todo o lado.

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