Na aldeia onde vivo, não se celebra a tradição do Halloween. O mais parecido que temos realiza-se no dia seguinte, quando as crianças vão de porta em porta, pedir o pão-por-Deus.

No entanto, desde que na escola passaram uma cassete de vídeo no qual as crianças do filme saíam de porta em porta nos seus fatos mais assustadores para pedirem doces, tanto eu como os meus amigos ficámos fascinados.

Pouco depois, o Miguel encontrou um livro na biblioteca que falava sobre portais de outras dimensões que se abriam na noite de 31 de Outubro, pelos quais os espíritos se escapavam para habitar casas velhas e abandonadas. Desde esse dia, com apenas dez anos, começámos o nosso próprio ritual do Dia das Bruxas: todos os anos, nessa noite, íamos em grupo dormir para o velho casarão abandonado, que outrora pertencera a um senhor dono da maior parte das terras envolventes, e que se tinha mudado para Lisboa, deixando a sua enorme casa à mercê do tempo.

Sei que isto é incrivelmente cliché, aliás, o Miguel, conhecido por passar mais tempo na biblioteca que em qualquer outro local, encontrou pelo menos mais cinco livros com histórias de grupos de amigos que faziam exactamente o mesmo. No entanto, éramos os únicos a efectuar esta actividade na aldeia. Os adultos tentaram demover-nos contando lendas sobre a casa, cada uma mais assustadora que a outra. A maior parte do grupo desistiu após ouvir as histórias, mas nós os cinco não nos deixámos amedrontar e, sete anos depois, preparávamos as nossas malas para mais uma excursão à Casa do Terror, como a Maria lhe chamava.

A caminho, trocávamos sorrisos comprometedores. Cada um de nós gostava de pegar nas lendas sobre a casa e tentar assustar o resto do grupo, recorrendo a lençóis, tinta vermelha, lanternas ou até mesmo música. Na minha mala, este ano, seguia apenas uma luva manchada de vermelho, pois a minha mãe contara-me que um dia surgira na parede do quarto do bebé a mão do Diabo, oculta por uma luva manchada de sangue. Aliás, o quarto do bebé era a divisão mais fascinante da casa, pois era a única que conservava os móveis intactos, incluindo as bonecas de porcelana que tanto aterrorizavam a Alice.

Contavam-se muitas histórias na aldeia para ver se nos assustavam. Mas nós não nos importávamos – quanto mais assustador, melhor! Mas, como todas as histórias têm um fundo de verdade, aos poucos fomos assimilando a informação e construindo a nossa própria versão. O antigo dono da casa tinha-se casado com uma mulher com problemas mentais, e que, após ter morto a sua filha bebé com uma facada, se tinha suicidado.

Já tinha anoitecido quando abrimos a porta da casa que conhecíamos tão bem. Afastei as teias de aranha para que Marco não embatesse nelas e ficasse assustado ainda antes da noite começar. Do grupo todo, era ele o mais medricas – penso que apenas nos seguia todos os anos para não se sentir excluído, porque a sua palidez demonstrava bem o seu medo, que se agravou quando começou a chover. Ao ver o seu ar assustado, recordámos com um sorriso quando no ano anterior o nosso amigo tinha fugido a correr a meio da noite ao ver um lençol pendurado no topo das escadas.

Montámos os sacos-de-cama no chão da antiga sala, que tinha uns vitrais maravilhosos com representações da morte de Cristo, bastante sangrentas. Conversávamos alegremente, enquanto petiscávamos as sandes preparadas pelas nossas mães, e até o Marco parecia ter recuperado a cor nas faces.

Com a desculpa de que precisava usar a casa de banho (também conhecida como o jardim das traseiras), saí para procurar o quarto do bebé e colocar a minha armadilha. Atravessei os corredores escuros, os meus pés fazendo as tábuas do chão de madeira rangerem, até alcançar o quarto. No entanto, detive-me à porta quando ouvi uma voz feminina que cantava:

Dorme dorme, pequenina

Pequenina do meu coração

Que Deus te acompanhe sempre

E te livre desta maldição.

Sorri, sentindo-me eufórica e invejosa ao mesmo tempo. Um deles tinha conseguido esgueirar-se antes de mim e preparar uma partida ainda melhor. Pois bem, ninguém me ia derrotar na capacidade de assustar os meus amigos, e decidi que ia descobrir de onde vinha a gravação.

Assim que abri a porta do quarto, a música parou. A janela encontrava-se aberta, o vento forte do temporal fazendo oscilar as cortinas rasgadas e abanando suavemente a cadeira de baloiço. Eu adorava aquela cadeira. Balouçava à mínima aragem, com aquele som delicioso de madeira a queixar-se. Tinha prometido a mim própria que um dia a levaria para casa.

Com um batom, pintei uma mancha vermelha na parede e esborratei-a com os dedos, deixando a luva caída ali perto. Sorri, pensando em como iria atrair o resto do grupo até ao piso de cima.

– Sara! – Chamou uma voz alarmada vinda do piso de baixo.

– Estou aqui! – Repliquei, enquanto limpava as mãos sujas e corria para a saída, chateada por não ter tido tempo para procurar o gravador.

Desci as escadas, apoiando-me no corrimão que abanava ao mínimo toque, e encontrei o grupo todo diante do corpo do Marco esticado de barriga para baixo no chão, envolto no que parecia ser uma mancha de sangue. Ri-me alto. O Marco conseguira fazer uma partida ainda melhor que a minha, apesar do constante ar assustado. Talvez estes anos todos o seu medo não passasse de uma máscara.

– De que te ris? – Guinchou a Maria, branca como a cal.

– Bela partida, Marco! – Continuei a rir e, vendo que o rapaz não se movia, aproximei-me – Já te podes levantar!

Com esforço, virei o corpo para cima. Em vez do esperado esgar de troça, a cara de Marco estava rígida, ostentando uma expressão de terror. Fiquei em choque.

Ao mesmo tempo, todos gritámos. Pela primeira vez na minha vida senti medo, quase acreditando nas histórias da casa, enquanto as lágrimas escapavam dos meus olhos.

– Vou chamar a polícia! – Gritou Alice.

– Eu vou contigo! – Respondeu Maria.

– E eu também! – Apoiou o Miguel.

Todos olharam para mim, expectantes. Encolhi os ombros enquanto limpava as lágrimas à manga da camisola.

– Vão! Eu fico aqui a guardar o corpo. – Sussurrei.

– Estás doida? Tu vens connosco!

Vendo que eu não reagia, e demasiado assustados para esperarem por mim, os meus amigos fugiram e bateram com a porta. Olhei para o corpo inerte do meu amigo, o silêncio da casa tornando o ambiente ainda mais pesado. Como tinha acontecido aquilo? Como poderia ele ter morrido assim, de um momento para o outro? Tinha parte do crânio estilhaçado, o que só poderia significar que ou alguém lhe tinha batido com força ou então tinha caído de uma altura considerável. Olhei para cima e vi o estrado no topo das escadas, mas este encontrava-se protegido e só se alguém o empurrasse, o que eu duvidava.

Subi de novo as escadas, sentindo a obrigação de descobrir o que se tinha passado. Mal pisei o último degrau, senti um calafrio. Sabia que era apenas do estado de choque em que me encontrava e obriguei-me a avançar.

Quanto atingi o local de onde alegadamente o Marco tinha caído, senti ainda mais frio. Respirei fundo e da minha boca saiu uma nuvem de vapor.

– Viste o meu marido? – Perguntou uma voz suave atrás de mim.

Olhei para trás e gritei ao deparar-me com uma figura de uma mulher desgrenhada vestida de branco, com as mãos e o rosto manchados de sangue.

Só podia ser uma projecção. Sim, o pai do Miguel tinha-lhe oferecido um projector nos anos para podermos ver filmes no Verão no terraço. Era isso!

A figura começou a cambalear na minha direcção tomando formas demasiado reais. Estava tão assustada que me petrifiquei, não me atrevendo a respirar, até ela se encontrar na minha frente, os seus olhos raiados de sangue a fixarem os meus.

– Viste… o meu marido?

Mais depressa do que consegui perceber, as suas mãos agarram-me e os seus lábios apossaram-se dos meus, impedindo-me de gritar. Senti todo o meu interior tremer, como se a minha alma, essência ou lá o que estivesse dentro de mim estivesse a ser sugado. Aos poucos, a minha visão foi-se turvando até perder os sentidos.

Todos os anos, no dia 31 de Outubro, um grupo de jovens vem visitar a minha casa, pregando partidas assustadoras uns aos outros e contando histórias ainda mais assustadoras. Ouço a porta da entrada ranger e percebo que chegaram, tal como eu um dia tinha chegado, há tantos anos atrás, com as mesmas ideias tolas na minha cabeça ingénua.

Continuo o movimento ritmado, sentada na cadeira de baloiço. Os meus olhos fixam um corpo de um bebé morto, sangrando as minhas mãos e manchando-me o vestido. Beijo com carinho a testa do bebé, enquanto a minha voz ressoa pela casa:

Dorme dorme, pequenina

Pequenina do meu coração

Que Deus te acompanhe sempre

E te livre desta maldição.

imagem conto

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