O escrivão fixou o pergaminho em branco – melhor dizendo, em bege amarelado –, dilatando as narinas face à crescente sensação de que este lhe devolvia o olhar com uma centelha de desafio. Não era uma batalha justa. Por três vezes tentara iniciar o que lhe fora pedido. Por três vezes havia falhado. Por que teria a sua Musa de o ter abandonado naquele momento? “Só uns minutinhos” dissera-lhe ela, escapulindo-se sorrateiramente pela porta, a gordura greco-clássica enfiada no traje de bobo. Os minutinhos haviam-se tornado horas, as horas dias… Não haviam chegado às semanas porque entretanto ele saíra do quarto que lhe fora destinado para o trabalho, perguntando pela sua presença.

– Saiu do castelo faz alguns dias, meu senhor – respondera-lhe o aprendiz, um rapaz esquelético e sarnento que mais se assemelhava a um ajudante de cozinha que a um escrivão. – Foi jantar com o dragão das montanhas e nunca mais apareceu.

Filha da mãe!, vociferara, batendo a porta na cara do rapaz e regressando ao quarto. Tantas vezes a alertara para que não confiasse nas falinhas mansas daquele bicho, que tudo o que ele queria era deitar o dente ao corpo avantajado que ela cuidava com refeições do melhor, que as promessas de casamento não eram mais do que o isco para a atrair a si de boa vontade… Não sabia ela que assim feitas as coisas nenhum cavaleiro do reino poderia acusar o dragão de raptar jovens donzelas contra sua vontade? Não conhecia já do passado desventuroso do animal com outras mulheres pouco afortunadas que haviam caído no seu par-la-pie? Ou do divórcio draconiano que lhe marcara o início da vida adulta e o deixara com uma repugnância lendária a demais experiências similares? E agora, como faria o que a Rainha lhe incumbira? Ah, a vontade de a agarrar por aqueles colarinhos coloridos e…

As batidas apressadas na porta, seguidas pela entrada tempestuosa do aprendiz, interromperam-lhe as doces fantasias de morte e vingança.

– Que é isto, rapaz? – repreendeu o escrivão, os punhos ainda no ar, mais lentos a regredir as suas acções que os pensamentos. – Já não se respeita a privacidade de ninguém?

– Não, meu senhor, digo, desculpe, meu senhor!

– Que me queres?

– É a Rainha, meu senhor.

O escrivão suspirou. Era a última noite antes do prazo final para a pequena história de comédia contemporânea que a Rainha Oh-Nortse lhe pedira. Ou talvez devesse dizer “demandara” – duvidava que mantivesse o emprego caso não cumprisse os seus desejos.

– Pretende saber do adiantado dos trabalhos?

– Sim, meu senhor.

O desespero atingiu o escrivão, o sangue fugindo-lhe do rosto. Que diabos! Não lhe bastava a pressão da data limite e do jantar em que se tornara a sua Musa, ainda teria de mentir à sua soberana para conforto de ambos?

– Diz-lhe que amanhã terá o que deseja – declarou o escrivão, procurando não deixar transparecer o facto de que não tinha a menor ideia se no dia seguinte a Rainha teria ou não o que desejava. Porquê que não poderia ser como todas as outras e preocupar-se com um herdeiro que mantivesse a sua linhagem e posição? Aquela mania que algumas pessoas tinham de gostar de literatura por prazer…

O aprendiz disparou para fora do quarto, com certeza preparado para lambuzar as notícias dúbias à soberana e envenenar um pouco a posição do escrivão. Uma vez este despachado para o olho da rua, deixaria o seu posto livre ao que se lhe seguiria na hierarquia… Bom, o escrivão não tinha intenções de permitir tal, ou não tivesse ele uma costela de Adão! Embora, tecnicamente, essa fosse Eva, mas enfim, compreendia-se a mensagem.

Pergaminho, pena, tinta… A decisão do escrivão estava tomada. Envolto na capa de viagem que, esperava, lhe emprestaria alguma discrição, surripiou-se do castelo em direcção às montanhas, determinado a vencer a fera qual herói romanesco, e recuperar a Musa que o abandonara, por mais que naquele momento a sua vontade fosse a de lhe aplicar um bom par de tabefes pela estupidez demonstrada.

O caminho era desagradável de realizar à noite, quando apenas levava uma tocha que o iluminasse. Não era, no entanto, demasiado longo e rapidamente se viu em frente à caverna do famigerado dragão.

– Ó da casa! – gritou, esperando com isso evitar entrar no local. Triste esperança: “Entre, entre!” foi a resposta roufenha, seguida por um atrasado “Quem vem lá? Batem leve, levemente, como quem chama por mim…”

O escrivão enrugou a testa face a tão lírica pergunta, ainda para mais com a sensação de o receberem com uma citação e não palavras originais.

– Sou o escrivão – anunciou, fazendo o seu caminho pelo túnel frio e largo da caverna. – Vim em busca da minha Musa.

Terminava de se explicar quando desembocou num local circular, bem mais espaçoso que a entrada, e decorado com vários luxos de fazer inveja a muitas monarquias, cuidadosamente adequados ao uso do seu actual detentor, o dragão de oito metros – considerado anão entre os seus – e bastante corpanzil castanho-esverdeado a compensar. A criatura – ou o bicho, como era da preferência do escrivão – encarava-o com o mais adorável olhar causador de piedade.

O escrivão ficou sem fôlego. Por momentos, esqueceu o que ali tinha ido fazer. O cérebro, mais pragmático, teve, no entanto, a gentileza de lhe recordar as consequências de uma história por escrever até ao anoitecer do dia seguinte. A custo, forçou um clarear de garganta.

– Procuro a minha Musa – repetiu. – Sei que saiu contigo para jantar…

– Oh, a infame criatura! – interrompeu dramaticamente o dragão, com um trejeito do focinho a acompanhar. – Soubesse eu do tormento que me perseguiria… Das águas nunca dantes navegadas por onde correriam as minhas lágrimas e nunca!, jamais!, com ela me encontraria! Perco-me entre o verdejar dos belos pastos, esquecendo a curva encantadora das manadas que apenas há algumas alvoradas me alimentavam! Ignoro como queimar os campos, tal o bafejar de sensações que com eles desperto! Nenhum cidadão me temerá, pois que da minha boca nada mais sairá que não sonetos, melodias ou…

– Tornaste-te nela!? – interrompeu, descrente, o escrivão. Gansos o mordessem! Estava, com certeza, a ser vítima de alguma partida de mau gosto. Quase que esperava que a Musa saltasse detrás de uma rocha gritando “SURPRESA!”, caindo em seguida numa gargalhada colectiva com o dragão.

Mas isso não aconteceu.

– Assim lho posso afirmar – confirmou o dragão. – Digeri-a, como sempre foi meu hábito, e os seus fluídos criativos espalharam-se pelas veias do meu sangue, levando as asas do seu talento a tudo o que de meu ser se pode considerar.

– Não foi uma atitude muito simpática – comentou o escrivão, torcendo o nariz face ao que desconfiava ter sido uma última vingança da Musa sobre o dragão. – Uma grande falta de consideração por qualquer um de nós, se queres que te diga.

– De facto, assim é.

Fixaram-se por uns segundos, os olhos de um mergulhados nos olhos de outro, dando inadvertidamente azo a qualquer entendimento romântico inter-espécies.

O escrivão, no entanto, não se encontrava inclinado para tais perdas de tempo.

– Continuo a precisar de entregar a história, escrita e editada, até amanhã – fungou. – Não me vou ficar por menos. Se me comeste a Musa, é tua obrigação assumir as responsabilidades dela.

Pareceu que o dragão iria recusar da melhor maneira que o sabia fazer: abocanhando o adversário. Todavia, quer fosse pela veia lírica que o inflamava, quer por uma súbita esperança de que assim se libertasse do jugo que em muito lhe importunava a vida prática, assentiu.

– Poderei tomar conhecimento do que conseguiste em teu próprio mérito? – perguntou, no mais perfeito tom de voluntário atencioso.

– Ãhn, sim, claro. Comecei por organizar a estrutura de um julgamento a S. Jorge, acusado por um lagarto gigante de tentativa de homicídio…

  O dragão resfolegou, originando uma baforada de fumo acinzentado que o escrivão se viu obrigado a tossir.

– S. Jorge não é o matador de dragões? – censurou.

– É, sim, bastante conhe…

– Não servirá. O mau gosto de tão desrespeitoso evento e personagem é meramente ultrapassado pelo ridículo da ideia em si.

– Mas…

– Escrivão! Não me invocaste como tua musa? Obedece, então, aos meus caprichos, pois o que te sussurro será o doce nos teus lábios, e o que não me oiças será o fel na tua boca!

O escrivão assentiu, cabisbaixo.

– A que mais ponderaste soprar a vida que carregas na ponta da tua pena?

– Na…nada de concreto – gaguejou o escrivão, profundamente envergonhado da incompetência em que caía quando era deixado sozinho com o seu ofício. – Dois começos abstractos, não sabia realmente como os desenvolver…

– Prepara a tua pena, escrivão, e alisa o teu pergaminho, porque eu tenho o que te contar. Senta-te, aceita o conforto do meu lar, e ouve, ouve os sussurros a que te vou abandonar. Dar-te-ei a conhecer um velho conde e um novo conde. Um velho conde cuja alma vagueia por alas femininas e um novo conde que se aprofunda pelas mesmas, um causando rumores, outro deles se aproveitando…

O escrivão escreveu. Escreveu toda a noite, riscando, reescrevendo e recomeçando, seguindo sempre o fluxo com que o dragão, sua musa, o alimentava, erguia e rejuvenescia. A história moldava-se às suas mãos, ao sabor da sua pena e à materialização no pergaminho. Tornara-se numa criança, numa cria, numa criação! Pelo nascer do novo dia, encontrava-se em plena concretização, o texto que lhe dava corpo revisto e editado até os olhos do escrivão, raiados em vermelho e escurecidos por violentas olheiras, lhe doessem de exaustão.

– É tudo o que precisas? – perguntou o dragão, acordando com os roçagares que o escrivão inadvertidamente fazia ao arrumar os seus papéis. Não houvera necessidade para que ele, a inspiração, se mantivesse desperto após o ímpeto de um primeiro rascunho.

– Por enquanto – respondeu cuidadosamente o escrivão. Não sabia ao certo qual a posição do dragão. De momento, acedera em o ajudar, contudo, outros trabalhos se seguiriam, mais histórias o esperavam… E que seria dele sem o amparo da sua musa?

O dragão não teve dificuldades em compreender o que não fora dito. Tal como não as tivera ao perceber o quão abrangente se tornara a punição que a Musa lhe lançara durante o processo da sua morte.

– Por enquanto – confirmou, cerrando novamente as pálpebras. Não se preocupou em observar o escrivão enquanto este abandonava a caverna, dirigindo-se de volta ao castelo. Sabia que era isso que ele faria, sem desvios no caminho, assim como sabia da audiência que pediria à Rainha, da história que lhe entregaria e do sucesso que faria. Tudo isso o dragão sabia – ele era, afinal, a Musa do escrivão.

Diabos levem a musa

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