– Não sabias, pois não? – sussurrou Mueller ao ouvido de Cristiana, enchendo-lhe as narinas com o hálito fétido. – Que ele era um dos odiados Lobos de Nyllnem?

As mãos sapudas apalpavam-lhe os seios e pernas, com a força de um torno, imparável perante os esforços de as afastar. Pressionada contra a virilha dele sentiu algo crescer e mexer-se. Sentia-se prestes a vomitar. Mas nem mesmo aquele tratamento e a ameaça do que seguiria se comparava ao nojo de imaginar James, o atencioso, simpático e generoso, James, o Demónio de Bylnin.

– É mentira… Não pode ser verdade! – recusou-se a acreditar, enquanto o vi-a esforçar-se para se defender contra duas armas, apenas com a bengala. Quanto melhor via a perícia e rapidez com que ele se movia, apesar da ferida, menor se tornou a sua certeza.

– Tem razão, Menina Hollar. Ele não foi “apenas” o líder dos Lobo de Nyllnem, ele fundou a Brigada. Devia tê-lo visto – disse Claringan, com um tom quase sonhador, observando o combate enquanto passarinhava no topo da estante. – Entre todos, ninguém era mais hábil ou sádico que o Tenente.

Defendendo com a bengala e atacando com a lâmina, o louro fazia James recuar, sem no entanto, para sua grande frustração, conseguir feri-lo.

Clarigan lembrava-se bem do dia em que James, na altura pouco mais velho que a fedelha dos Hollar, convenceu o General a autorizar a Brigada. O velho bode achou-o doido, contudo, após dois anos nas ilhas sem conseguir demover os cabrões dos flavos, não se importou de apostar em métodos menos convencionais. No início as coisas pioraram. As mutilações e violações enfureceram os nativos ainda mais, mas esse fogo depressa esmoreceu à medida que os Lobos de Nyllnem se tornavam verdadeiros artistas do terror. Afinal, é difícil sentirmo-nos motivados para combater quando a nossa filha nos é devolvida sem braços e pernas, violada por uma baioneta, ou quando acordamos num sítio onde julgávamos seguro encharcados no sangue da nossa mulher. É impossível não temer homens que começamos a acreditar serem demónios, que aparecem e desaparecem, deixando atrás de si apenas o cheiro a fogo e sangue, e os gritos horripilantes de homens, mulheres e crianças mutiladas.

– Ele é um assassino…

– Ah! Ah! Ah! Não, essa é a melhor parte! – atirou Mueller, sentindo-a parar de lutar, perdendo o fogo perante a aceitação da verdade. Ficou desiludido. Preferia quando elas estrebuchavam. – Ele nunca os matava. Tivessem eles essa sorte. Não, o que as suas lâminas faziam, mutilando, amputando e torturando, era roubar a vontade de lutar, de viver, às vítimas e toda a sua família. Já assei bebés vivos diante dos pais e nem mesmo eu tenho estômago para algumas das coisas que ele fez.

– Até os outros Lobos de Nyllnem o temiam. Excepto, Ulm – confessou, apontando para o louro, que investia com cada vez mais violência – ele simplesmente idolatrava-o. Todos fomos mutilados quando o mandaram matar-nos, foi um milagre termos escapado com vida. Para Ulm, o golpe foi muito mais fundo.

– Está a ficar sentimental, Clary. Ah! Ah!

– Cala-te, Mueller. E, por amor da Entidade, pára de brincar, se vais violar a puta, despacha-te.

– Desembainhe a lâmina! – exigiu Ulm, sentindo-se frustrado por estar a ser subestimado e, mesmo assim, não seguir ultrapassar as defesas do ídolo. – É um lobo, mostre-me as suas presas!

– Não!

– Qual é o problema? Tem medo que a sua perfeita bonequinha veja como é realmente?

– Ciúmes, paneleiro?

 A provocação funcionou. Ulm perdeu o controlo e investiu com muita força e pouco controlo. James deflectiu a lâmina e deixou-se atingir no ombro pela ponta de metálica da bengala para criar uma aberta. Um único golpe e meteria o rival a dormir. Infelizmente não contara que a lâmina de uma faca saltasse de dita ponta, ferindo-o no ombro e golpeando-lhe a cara.

“Merda!” pensou, criticando-se por não ter percebido mais cedo que a espada era mais curta que o habitual porque a bengala escondia outra lâmina no resto do espaço. Uma fracção de segundo mais tarde e teria ficado sem o olho.

– Estava enganado, não é um lobo. Perdeu as presas – acusou, enojado por após todos aqueles anos ver o ídolo naquele estado. – Um lobo com uma trela não passa de um cão. Permita-me acabar com a sua vergonha.

– A obrigação de um cão é proteger o mestre, só então tem o direito a morrer.

A ideia que ele estava disposto a dar a vida por aquela fedelha cegou Ulm de ciúme e raiva.

– Puta! Mordeste-me! – gritou Mueller, deixando-a escapar por um segundo antes de a voltar a agarrar por um braço. – Afinal, ainda tens alguma genica.

Cristiana apenas queria fugir. Ir para longe dos Lobos, em especial de James. Mueller podia salivar de antecipação perante o desejo de profanar-lhe o corpo, mas Vallens era ainda pior. Ele violara-lhe a mente e a confiança. Fizera-a vê-lo como um amigo e acreditar em si mesma, quando na verdade era um mal maior do que qualquer coisa que os Hollar tivessem criado.

Cada músculo do seu corpo ardia com a urgência de afastar-se de James, pegou na sombrinha caída no chão e espetou-a na direcção do olho de Mueller.

– Ah! Ah! – gargalhou ele, agarrando a arma improvisada, divertido com a tentativa. – Achaste mesmo que…

Quando Cristiana rodou o punho da sombrinha activou um mecanismo que soltou da extremidade um apito extremamente agudo. Ela estava longe o suficiente para não ser afectada pela vibração, mas os tímpanos de Mueller rebentaram, lançando-o num mundo de dor durante o tempo que levava o mecanismo a ficar sem corda.

– Puta! – Mesmo atordoado, o brutamontes puxou-a para si e espetou-lhe um estalo que a fez cair dura no chão.

– Mataste-a? – perguntou Clarigan, surpreso e furioso, pois tinham acordado que precisavam dela viva para ganhar uns cobres.

– Hã? – retaliou, surdo como uma porta. – A cabra está só a dormir.

– Obrigado, cavalheiros.

Surpreendido com um gelo na voz de James, que não ouvia desde a guerra, Clarigan virou-se a tempo de ver o corpo de Ulm cair para trás, cara rasgada a meio, num repuxo de sangue e miolos, pela própria lâmina. Antes que pudesse disparar a espingarda-revólver sentiu uma bala no peito e tombou para a frente, caindo do topo da estante.

A pistola-bengala ainda estava quente do disparo quando se lançou sobre Mueller com uma velocidade surpreendente apesar do pé ferido. Impediu os dois revólveres Hollar-pimenteiros, que deslizaram das mangas do latagão, de disparar, partindo-lhe o pulso com o castão da bengala-pistola e espetando a lâmina de Ulm na outra mão, cortando-lhe o dedo do gatilho.

Por instinto assentou um pontapé com a prótese mecânica, atirando o ex-líder para trás. Mesmo ferido, o facto de ainda estar vivo encheu-o de confiança, pois provava que o Tenente não estava tão rápido como era habitual. Esse positivismo durou cinco segundos, altura em que o relógio de bolso que James lhe enfiara habilmente no cinto explodira. A detonação não fora muito forte, apenas o suficiente para o grandalhão ficar a gemer de dores, no soalho, enquanto tentava voltar a meter as entranhas carbonizadas no ventre.

– Não é possível – queixou-se Clarigan, ainda vivo por o tiro de baixo calibre o ter atingido abaixo do coração. Sem parecer muito preocupado com esse facto, James largou as bengalas e agarrou a espingarda-revólver, acabando com o sofrimento de Mueller. Fê-lo mais por achar a sua choraminguice irritante do que por clemência. – Uma bengala-pistola? Mas o Tenente não usa armas de fogo, nem explosivos, só a lâminas.

– O que posso dizer, Clary? Um homem tem de evoluir. Muito pode acontecer em três anos. – Sem a menor pausa no discurso, partiu os dedos do ex-camarada com a coronha. – Por exemplo, em três anos eu arranjei uma boa vidinha. Pacífica, confortável, rentável e com boa companhia. Estava orientado. Só que vocês tinham de vir estragar tudo! – Enfiou-lhe duas coronhadas nos rins. – Desde que vim para aqui, nunca mais senti uma pontinha de luxúria sanguinária, mas vocês tinham de vir provocar a fera, não era? Agora, como é que achas que vou voltar a enjaular o bicho?

– T-traiu-nos… Tentou matar-nos.

– Meu burro de merda, por acaso pareço-te alguém que “tenta” o quer que seja? Só vos dei umas pancadinhas de amor para convencer os chefões que tinha feito o serviço – informou, agachando-se e levantando-lhe a cara pelos cabelos. – Idiota, podias ter vivido. Se não tivessem vindo aqui, teríamos todos sido felizes.

– Ainda podemos. Por favor, Tenente, deixe-me ir…

– Ai, ai… Lamento, Clary. Infelizmente todos temos problemas. Eu tenho de arranjar um patrão novo e tu vais ajudar-me a saciar três anos de impulsos reprimidos.

Por mais água que escorresse do chuveiro, o sangue seco recusava-se a sair do cabelo. Pela primeira vez desde a guerra, acendera um cigarro. Odiou-se, muito mais que aos três idiotas que lhe arruinaram a vida. Eles só tinham tocado a música, não o obrigaram a dançar. Não conseguira resistir e agora pagava o preço.

O Patrão não se importava com o seu passado, pois sempre o conhecera. Até lhe agradecera por salvar a vida da filha. Mas sabia que não podia ficar. A ilusão estilhaçara-se e não havia como a recriar. Cristiana nunca lhe perdoaria. Mesmo tendo-se contido de mostrá-lo diante dela, ela sabia que o vivia dentro dele. Assim que o Demónio de Bylnin era revelado, James Vallens deixa de existir.

Desligou o chuveiro. Talvez na próxima casa fosse diferente…

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