O primeiro motivo porque a Biblioteca de Valter Hollar não era limpa todos os dias devia-se ao seu tamanho. Enfiada num canto distantes da propriedade, devido a parte dela, originalmente, ter servido como oficina para os protótipos da empresa, mais parecia uma catedral com estantes, guardando livros de todos os cantos do Império. Era tão espaçosa que não havia modo economicamente eficaz de a aquecer e o simples facto de ter recebido instalação eléctrica aquando do resto da propriedade era um pequeno milagre.

O segundo motivo era porque já ninguém a utilizava. O avô e bisavô de Cristiana tinha sido inventores, mas o seu pai era um homem de negócio puro e duro. Entendia o suficiente de mecânica e engenharia para avaliar um novo produto, só que não tinha qualquer interesse em gastar tempo numa oficina. Nos dias que corriam todas as invenções da marca eram feitas na empresa, bem longe da mansão. Algo que poderia vir a mudar…

– Menina, isto é o que penso? – perguntou James, erguendo um dos planos espalhados pela gigantesca mesa de mogno. – Se estou a ler bem, é um revólver que aproveita a força de um disparo para encaixar o cartucho seguinte, certo?

– Sim, deixaria de ser necessário puxar o cão manualmente – confirmou, meia envergonhada, incapaz de evitar sentir uma pontinha de orgulho. – É apenas uma das ideias com que tenho andado a brincar. Por enquanto não passam de rabiscos.

– São mais que rabiscos. Não sou engenheiro, mas pelo que vejo, alguns destes poderão vir a ser as maiores inovações bélicas desde a pólvora sem fumo.

– Apenas provam que não consigo escapar ao legado da minha família – confessou, o orgulho sufocado pela tristeza.

– Como é que…

– … uma fedelha mimada pensou nisto? – atirou, rindo-se da própria frontalidade. – Quando o Vovô ainda era vivo, costumava vir brincar para aqui. Praticamente aprendi a ler com os velhos manuais e diários dele. O Papá odiava, claro. Dizia que não era sítio para uma menina do meu estatuto. Só que o Vovô adorava ter-me aqui e o Papá não era capaz de lhe fazer frente. Quando ele morreu proibiu-me de vir aqui, mas eu continuei a escapar sempre que podia.

– Começou a trabalhar nisto quando era pequena?

– Não, isso foi mais recente. Quando cheguei à adolescência fiquei ocupada com… bem… outros… afazeres – confessou, fazendo de conta que pendurava o cabo da sombrinha na borda da mesa, para esconder o facto que corava. – Só voltei quando começou a dar-me aulas.

– Como? Não entendo.

– Bem, disse-me para praticar nos tempos livres e a maioria dos livros estrangeiros estão aqui, não no escritório. Lembro-me de quando era pequena não poder ler muitos deles precisamente por estarem escritos em línguas que não conhecia.

– Nunca pensei que andasse a praticar com algo tão…

– … pouco feminino?

– …técnico.

– Pois, bem, fi-lo e quando dei por mim as ideias começaram a surgir. Fiquei radiante… e ao mesmo tempo deprimida. O que me contou sobre os flavences acentuou a segunda. Acredite, preferia ter ideias sobre como fazer uma lâmpada mais durável, um sistema de rega melhor ou até uma caldeira mais eficaz, todavia, só me ocorrem coisas destas. Acho que não há maneira de escapar ao que somos…

– Há sempre uma maneira, Cristiana, acredita. – Não entendia porque a tratara com tal intimidade, porém, vendo-a tão vulnerável pareceu a atitude certa. – Existe um homem chamado o Relojoeiro…

– Até eu sei quem é o Relojoeiro, James – retribuiu, com um sorriso cúmplice, encostando-se à mesa. – É o criador de centenas de armas escondidas e, supostamente, mestre no uso de todas elas. Ele é os Hollar do mercado de armas não convencionais.

– Em todo o caso – retomou, encostando-se também à mesa, mais próximo dela do que seria apropriado – ninguém sabe ao certo quem é, mas segundo reza a lenda, ele defende que cria armas para preservar a vida, não roubá-la.

– Ah! Ah! Depois a ingénua sou eu? Isso não faz sentido. As armas tiram vidas, é para isso que são feitas.

– São ferramentas, apenas isso. Uma faca pode matar, isso é motivo para começarmos a comer bife com uma colher?

– Isso soa a algo que o Papá diria.

– O patrão é um homem inteligente. – “Um fuinha avarento que venderia a própria filha por um bom negócio, mas, não obstante, um homem inteligente.” – Acho que ele ficaria orgulhoso de ti.

– Oh, não, nem pensar. A sua filhinha, uma inventora? Jamais! Não, o meu futuro é parecer bonitinha e inteligente para gerir a empresa ou casar com alguém que o faça. Adolfo Hollar nunca deixaria a sua filha sujar as mãos numa oficina. Algo bom o suficiente para o seu pai e avô, mas não para ele e certamente não para mim.

– O que entendi desse discurso é que queres fazê-lo – indicou, com um sorriso travesso, enquanto ela rodava uma madeixa com o indicador.

– É um homem muito astuto, Senhor Vallens.

– Obrigado, Menina Hollar.

– Sabes, já que falamos em algo que o meu pai não quereria… – O coração parecia explodir-lhe do peito quanto se inclinou para ele, incapaz de resistir mais um segundo que fosse. Sabia que era errado e só traria problemas, mas ali, sozinhos, longe de tudo, não queria saber.

Ele inclinou-se, porém, antes que os lábios se tocassem, empurrou-a, com tanta força que ela tropeçou e caiu. Ter-se-ia sentido rejeitada, se uma cadeira não tivesse voado entre eles. James tentou voltar a aproximar-se, só que a pesada mesa foi empurrada, barrando-lhe o caminho.

Cristiana apercebeu-se que havia mais alguém na biblioteca, pelo som de pesadas botas de borracha e o guinchar das engrenagens de próteses mal oleadas. Assustada levantou-se, sendo logo agarrada por mãos fortes e grossas, puxada contra um peito largo que cheirava a óleo e suor.

James quase que voou por cima da mesa, lançando-se sobre o calmeirão careca e musculado, de trajes andrajosos, que segurava a jovem, disposto a arrancar-lhe os olhos. Um tiro ecoou na biblioteca, rasgando o ar diante do tutor e arrancando uma lasca à mesa, fazendo-o saltar para trás.

– Aconselho um pouco menos de sede a ir a esse pote. Oh, não se preocupe com o tiro, não vamos ser interrompidos. Tratámos disso.

 Além do calmeirão com as pernas mecânicas, havia mais dois. O que falara, que caminhava sobre as grossas estantes de madeira, espingarda-revólver pendurada nos braços, com uma aparente preguiça que escondia a sua rapidez e precisão. Não fosse pela queimadura que deformava o lado direito do rosto seria considerado um homem muito atraente, com sedosos cabelos negros e profundos olhos azuis. Através do longo casaco preto espreitavam vários cintos com munições e a mão esquerda era uma prótese mecânica.

Acompanhando no solo, o terceiro parecia uma cópia de James. Mesma roupa, mesmo cabelo, mesmo corpo franzino e um esforço aparente para maquilhar todas as diferenças nas feições. Não fosse por ser louro e usar uma pala no lugar do olho direito, poder-se-iam confundir. Rodava uma bengala entre os dedos e apesar da aparente leveza no andar, via-se que estava ansioso por usá-la.

– Bem, bem, bem, quem diria… Dois passarinhos contaram-nos que os Hollar tinham um veterano na trela, mas não esperávamos que fosse o senhor. A seduzir uma jovem sozinha e indefesa? – judiou o atirador, rasgando um sorriso de deleite. – A matar saudades de guerra, estou a ver. Se bem que esta parece um pouco velha demais para o seu gosto, Tenente.

– Não querem fazer isto, rapazes – advertiu, pegando na bengala e aninhando-a na palma enluvada, fazendo de conta que não os reconhecia. – Senhor Hollar é um homem muito poderoso, se fizerem mal à sua filha…

– Não viemos cá por ela – garantiu o louro, fixando os olhos de James com uma fúria ardente.

– Se tivéssemos vindo acha mesmo que isso nos intimidaria? Vamos lá, Tenente! Somos a Brigada Azul! Toda a Callacia é nossa inimiga. Acho que conseguimos aguentar um armeirozeco.

– Os Lobos de Nyllnem não temem ovelhas – atirou o grandalhão, cujas mãos deslizavam pelo corpo de Cristiana muito mais do que precisava para a segurar. – Ei, malta, parece que ela ouviu falar de nós. A nossa fama chega até às torres de marfim.

– Pára já com isso, Mueller – advertiu James, incapaz de se conter. Antes que pudesse agir, ouviu um cão ser puxado atrás e uma lâmina desembainhada da bengala.

– Vamos lá, Tenente, não seja mal-educado – disse o atirador, dedo ansioso para disparar. – Vamos ouvir o que a jovem tem a dizer sobre a Brigada Azul.

– Fala! – exigiu Mueller, apertando-a com mais força.

– São monstros! – gritou, à beira de lágrimas apenas com o hálito rançoso a cebola podre do captor. – Traidores que desonraram a Callacia, cometendo atrocidades de guerra contra os flavences.

As gargalhadas do trio ecoaram pela gigantesca biblioteca, como o rugido de uma besta pré-diluviana.

– Cometemos não cometemos? – disse o atirador, com orgulho. – Nós queimámos…

– … matámos…

– …violámos… – acrescentou Mueller lambendo o pescoço da jovem fidalga, que se contorcia inutilmente para tentar escapar.

– … e tanto mais. Alguém nos agradeceu? Nada! – cuspiu, ofendido, rodando a espingarda-revólver. – Nós quebramos o espírito dos flavences, obrigámo-los a revelar todos os seus segredos, porra, nós ganhámos a merda da guerra, e nem um obrigado.

– Vergonhoso – acusou o louro aproximando-se de James, com a lâmina desembainha e a bengala em guarda.

– Fizemos o trabalho sujo, tudo aquilo que o governo gosta de manter longe dos jornais. No final, nem tiveram a dignidade de mandar um pelotão de fuzilamento para nos silenciar. Em vez disso, contaram com…

– Cala-te, Clarigan!

James perdeu o controlo e tentou bater com a bengala nas pernas do rufia empoleirado na estante. Apesar de apanhado de surpresa, o atirador desviou-se e retaliou com um tiro no pé direito. Cerrando os dentes de dor, o tutor mal conseguiu defender-se da sucessão de ataques do louro, coxeando desajeitadamente.

– … o próprio líder da Brigada Azul para eliminar os Lobos de Nyllnem – completou Claringan, aliviando a pressão sobre a espingarda-revólver. Podia matá-lo ali mesmo, mas Ulm nunca o perdoaria. Ansiara durante 3 anos por aquela desforra. – Tenentes James Vallens, o Demónio de Bylnin.

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