Ninguém lucra mais com guerra que a família Hollar. Em três gerações o imperialismo callaco tornou uma empresa começada por um inventor brilhante, que sozinho revolucionou as armas de fogo, numa multinacional que monopolizava o comércio de armas e munições. Desde pequenas pistolas feitas para disparar à queima-roupa, a gigantescas peças de artilharia capazes de bombardear uma cidade a quilómetros, dominavam o mercado aquém e além fronteiras. Cada vez que uma bala entrava em alguém, uma moeda entrava no bolso dos Hollar.

Tendo mais capital que muitas pequenas nações, a sua mansão era uma bisarma, com um jardim tão grande que quase fazia esquecer que viviam no centro da cidade. Até as nuvens das fábricas pareciam menos opressivas à medida que eram cortadas pelo dirigível pessoal de Adolfo Hollar.

Lançando um olhar de fugida à partida do pai, Cristiana atravessou o jardim, levantando ligeiramente a bainha da saia para a manter longe da relva molhada. Na garagem dos servos, com as mangas arregaçadas, Vallens mexia nas entranhas da carroça a vapor do cozinheiro. Adorava ver-lhe nus os dedos delgados e antebraços fortes, mais do que ousava admitir. Facilmente os imaginava percorrerem-lhe o pescoço, descendo lentamente até ao…

Tentando silenciar a fantasia e chamar à atenção, tossiu delicadamente.

– Sabe que temos um mecânico para isso, não sabe?

– Ah! Ah! Sei, sim, Menina Hollar, mas ajuda-me a descontrair – confessou, endireitando-se e limpando as mãos num pano antes de puxar do relógio de bolso. – Peço desculpa, não me tinha apercebido que já estava na altura das lições…

– Não, não está. Precisava de sair de casa por uns momentos. A Senhora Beaumont fica um pouco hiperactiva cada vez que o Papá viaja.

James podia ter comentado que o facto do patrão andar a comer a governanta há mais de trinta anos, tendo com ela uma relação mais sólida que com a mãe de Cristiana, poderia ter algo a ver com toda essa hiperactividade, porém, mordeu a língua. Verdade fosse dita, nervosa como a jovem estava, vagueando diante da entrada, como se quisesse dizer algo e não soubesse como, ele nem teve de se esforçar para esconder o sorriso travesso.

– Menina, passa-se algo?

– Sim, não… Hã, estava a pensar nas flavences com que nos cruzamos há dias.

– A culpa foi minha, devia ter evitado o triste espectáculo.

– Não, não é isso. Na verdade é precisamente o oposto – confessou, com o coração pesado, apertando ansiosa a sombrinha com as mãos enluvadas. – Sou demasiado escudada do mundo.

– Menina?

– É só que… O Papá insiste tanto em preparar o meu futuro. Paga-lhe para me ensinar todas estas línguas estrangeiras e costumes, mas depois faz tudo para me esconder da realidade.

– Não creio que o faça com essa intenção. É apenas o resultado do vosso estatuto e dele a querer proteger. Compreensível que não a queira a vaguear pelos guetos flavences ou nos bairros operários. São sítios perigosos.

– Não estou a dizer que quero enfrentar perigos, só gostava de perceber a realidade que me rodeia. A questão flavence é um tópico muito quente neste momento, todos os dias os jornais falam dela de modo tão inflamado e cada político usa-a como plataforma, sem que no fundo nada se diga que ajude a compreender o porquê. Lembro-me da guerra, de quando era adolescente, mas sempre me pareceu algo tão distante.

James nunca tinha pensado na questão desse prisma. Três anos volvidos desde o fim da guerra, ainda ninguém ousava escrever livros sobre ela e os jornais, que em tempos nada mais faziam além de cuspir cada pormenor sancionado pelo governo sobre o conflito, agora concentravam-se apenas nas consequências dela. Para aqueles que viveram essa realidade, nenhuma explicação era necessária, só que no caso de Cristiana Hollar isso não era possível.

– O que quer, Menina?

– Compreender. Porque é que Nova Opida, na verdade toda a Callacia, odeia os flavences?

– Receio que isso seja complicado… Os habitantes do Arquipélago Dourado, ou Nyllnem com eles lhe chamam, sempre foram vistos com estranheza por causa do seu aspecto e costumes, causados pelo isolamento. Mais nenhuma outra raça no mundo tem pele pálida em combinação com cabelos vermelhos e olhos amarelos. Alguns naturalistas argumentam mesmo que, apesar das semelhanças, eles não são exactamente humanos, mas uma variante. Tudo isto teria sido insignificante se há quase trinta anos a Federação Buljaze não tivesse invadido o arquipélago…

– … pela sua posição estratégica no Mar do Norte – concluiu Cristiana, impaciente. – Se conquistadas as ilhas dariam uma base perfeita para lançarem ataques aéreos a colónias callacas. Além disso, têm o maior depósito de carvão conhecido do mundo. Intervimos e, temendo que o conflito alarga-se às suas colónias, os buljazes recuaram numa questão de meses. Para evitar futuras invasões, convencemos os locais a aceitarem tornarem-se um protectorado. Ao longo dos anos as tensões provocadas pela ocupação aumentaram, até rebentar a Revolta do Carvão e pouco depois a guerra. Sr. Vallens, por favor, poupe-me. Aprendi tudo isso nas lições de geografia e História. Não passam de factos frios e secos, sem nada que explique como chegámos a toda esta agitação social. Só vejo motivos para eles nos odiarem, não nós a eles.

Se Patrão visse a filhinha agora ficaria escandalizado. Afinal, uma senhora nunca podia perder a compostura e muito menos falar de igual para com um empregado, mesmo um com uma posição tão elevada quanto ele. Havia quase três anos que era seu tutor e nunca a vira tão directa e emotiva, quase rude. Agradava-lhe. Gostava de ver cair a fria e hipócrita capa de civilidade elitista que condicionava todos os indivíduos do estatuto dos Hollar. Sem ela parecia uma pessoa e não apenas uma empregadora.

– Simplificando, eles ousaram resistir – explicou, encostando-se à carruagem. – Após a nação ter ficado inflamada pelas nossas baixas durante a Revolta do Carvão, todos pensaram que o conflito se resumiria a uma campanha punitiva rápida e decisiva. Na realidade, tornou-se numa guerra longa, dispendiosa e dolorosa, que criou cicatrizes económicas e sociais que tão cedo Callacia não esquecerá. Os flavences são teimosos e orgulhosos, capazes de aguentar uma dose assombrosa de sofrimento. Mesmo com tecnologia superior, providenciada maioritariamente pela sua casa, Menina Hollar, e mais efectivos, os métodos de guerra convencionais tiveram dificuldade em fazer frente à dureza e engenho flavences. Os próprios túneis criados pela exploração do carvão tornaram-se num dos nossos principais inimigos. Nivelámos cidades inteiras com bombas e mesmo assim eles continuavam a lutar. Para piorar a situação, várias nações inimigas apoiaram-nos, fornecendo secretamente armas, de modo a atacar Callacia indirectamente e testar os seus protótipos mais recentes. Claro que no final ganhámos, mas não sem o orgulho incólume. A poderosa Callacia engasgou ao tentar devorar meia-dúzia de calhaus perdidos nos confins do mundo. O pequeno mosquito que quase vazara a vista ao elefante. Os flavences foram expulsos das ilhas e dispersos por todo o Império. Exilados, mas vivos. – James esteve quase para não continuar, mas apercebeu-se que era exactamente isso que Cristiana queria, a verdade, alguém que falasse sem tentar esconder ou dourá-la. – Sei que soa a clemência, o gabinete do Chanceler certamente o publicitou como tal, contudo, não é. Foi apenas uma maneira de os humilhar e usar como bode expiatório. Uma pequena prenda do governo, para ajudar o povinho a esquecer que ao longo de cinco anos o sangrara apenas para baixar o preço do carvão. Ficámos com aquilo que queríamos, as suas preciosas minas e ainda os castigámos por terem ousado resistir. Entre nós, eles pouco mais são que escravos, se não em nome, pelo menos na prática. Quando a vida não é um mar de rosas é muito mais fácil culpar este inimigo visceral, estes seres que consideramos menos que humanos, do que pensar como melhorá-la. O que viu naquela ruela, e pior, acontece todos os dias no Império.

Após uma dieta regular de meias verdade servidas em colher de prata, Cristiana precisou de um momento para digerir a realidade. Certa que mesmo assim só entendera uma fracção da situação, tanto quanto podia sem a experienciar na pele, sentiu-se aliviada por ser tratada como uma adulta e não apenas como uma fedelha mimada numa redoma.

– Sabe, muitas das minhas amigas têm crianças flavences como aquela que conhecemos. Passeiam-nas nas festas como… Eu… vi-as tantas vezes, mas nunca entendi o verdadeiro peso do que significam até… É este o legado da minha família, não é, Sr. Vallens?

– Não entendo, Menina.

– Crianças mutiladas e veteranos amputados. Os enjeitados e pobres que não tiveram a sorte de serem ricos ou privilegiados o suficiente para escapar aos horrores da guerra. Mais de metade, provavelmente muito mais, foram feridos por uma bomba ou munição das nossas fábricas.

– Menina, não criaram o conflito…

– Certamente que lucramos com ele e muito – acusou, rasgando um sorriso triste para disfarçar que se sentia prestes a explodir em lágrimas. – Morte e sofrimento, as nossas divisas. Sabes qual é a melhor parte, Sr. Vallens?

– Receio que não, Menina. – Uma fracção dele queria abraçá-la e retirar toda a verdade que revelara.

– Por mais que não queira, sou como eles.

– Não entendo.

– Eu mostro – afirmou, com uma firmeza que James nunca lhe vira. – Não agora. Teremos lições em breve e o Senhor Beaumont notará se nos ausentarmos. Depois de jantar, na velha biblioteca do Vovô.

– Porque não no escritório?

– Não trabalhei lá. O escritório é limpo todos os dias, a biblioteca não. Não posso correr o risco que vejam o que fiz. Ainda não…

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