“Foda-se, ele não parece assim tão duro” pensou Jules ao largar o colarinho da flava e erguer-se, para avaliar o recém-chegado. Camisa branca, colete, gravata, calças e sapatos pretos, num corpo magro, de altura mediana. Cabelo castanho liso e curto, olhos cor-de-avelã e feições delicadas, quase femininas. Um menino bonito, o que em conjunto com a qualidade do tecido tornava difícil achá-lo intimidante.

– Põe-te a mexer ricaço, isto não te diz respeito – aconselhou o rufia, ajeitando o laço castanho ao pescoço, enquanto reparava que havia alguém atrás do metediço.

Encolhida, como se quisesse ser invisível, estava uma jovem petit de feições redondas, olhos verdes e longos cabelos castanhos-claros parcialmente escondidos por um grande chapéu azul-turquesa. Gira e não devendo ter mais de vinte anos, estava aterrorizada. A qualidade e natureza pouco prática do vestido sugeriam que seria ainda mais rica que o abelhudo.

– Peço desculpa pela rudeza do meu irmão, cavaleiro – interveio Helbert, voltando a agarrar a criança pelo ombro com a prótese metálica, ao mesmo tempo que levava a outra mão ao chapéu, em sinal de respeito. – Não temos qualquer desejo de arranjar problemas com cidadãos, à conta de duas flavas. Por isso, porque é que não continua o seu passeio com a jovem fidalga?

– Um bom conselho, devíamos todos afastar-nos e ir às nossas vidas – ameaçou subtilmente, sempre com um sorriso nos lábios, colocando ambas as mãos sobre o castão prateado da bengala diante de si. Atrás dele, a jovem encolheu-se ainda mais e apertou a sombrinha.

Até Jules, tão jovem e cheio de bazófia, ficou tenso. Não era proibido a cidadãos privados possuírem armas, mas o facto de ser considerado rude usá-las publicamente levava a que fossem transportadas do modo mais dissimulado possível. Nem mesmo os grunhos dos cantos mais sombrios da Colmeia, o gigantesco e caótico bairro operário, cometiam a descortesia de usar armas às claras. Isto fazia toda a gente pensar duas vezes antes de atacar um alvo aparentemente indefeso. Afinal, nunca se sabia que tipo de mecanismo podia estar escondido…

– São apenas flavas – argumentou Helbert, olhos fixos na bengala.

– Só vejo dois burgessos a agredirem uma senhora e uma criança. Digam-me, rapazes, que homem seria se me limitasse a virar costas? – Calmamente, passou a bengala à jovem companheira e ajeitou as luvas desprovidas de dedos. – Peço desculpa pelo inconveniente, Menina Hollar. Não se preocupe, durará apenas um momento.

– Pense bem, quer mesmo arriscar uma luta onde a jovem pode ser ferida por causa de duas…

– Não te atrevas a ameaçá-la, verme da Colmeia. – A voz era gelada, mas os olhos queimaram fundo nas retinas de Helbert.

– Finório de merda! – gritou Jules, fazendo uma faca deslizar da manga.

O mais novo dos rufias nem entendeu o que se passou. Num momento, estava prestes a espetar a faca no peito do ricaço, no outro, sentiu o braço ser torcido, o chão fugir e a cara amortecer a queda contra a parede de tijolo. Atordoado, vendo apenas o adversário como um vulto na névoa, fez uma lâmina saltar da ponta do sapato e, ainda agarrado à parede, apontou-lhe um pontapé às virilhas. Antes que pudesse atingi-lo uma mão metálica agarrou-lhe a perna.

– Mano… Porquê?

– Pedimos imensa desculpa por ter perturbado a tarde de Suas Excelências – disse Helbert, puxando o irmão e fazendo-o acompanhá-lo numa vénia, enquanto se começavam a afastar.

– Aprecio a atenção, mas não é a mim que têm de pedir desculpa – advertiu, ajeitando a gravata e indicando com o olhar as duas flavas.

– C-claro, com certeza, tem toda a razão. Peço…

– Mano!

– Cala-te e pede desculpa! – exigiu Helbert entre dentes, esforçando-se para conter toda a bílis. – Peço desculpa, senhoras.

Apesar de parecer prestes a rebentar uma artéria, lá fez o pedido e apressou-se a afastar-se, arrastando o irmão. Não era possível dizer quem estava mais admirado com o sucedido, Jules ou Lyn. Esta última, levantou-se a custo e, ainda com a cara enlameada, abraçou Myr, que não tirava os olhos esbugalhados de espanto do salvador.

– Muito obrigada. Não precisava de…

– Ora essa, minha senhora. Que género de homem seria se não ajudasse?

Num gesto de conforto, James colocou a mão sobre a cabeça ruiva da criança, porém assim que o fez, esta, que aguentara todos os abusos sem uma única lágrima, começou a chorar aterrorizada, gritando com toda a força dos pulmões.

– Perdoe-me, ela está assustada – tentou justificar Lyn, entre a vergonha e a surpresa. – Peço imensa desculpa, eu…

– Não há problema, é natural – compreendeu, endireitando a gravata e escondendo um esgar nervoso, começando-se a afastar-se, altura em que sentiu a companheira aproximar-se. – Menina Hollar, peço desculpa pelo imprevisto. Compreendo se quiser dizer ao Patrão que…

– Não… não há problema, Sr. Vallens. Fez o que achou melhor. Papá não precisa de saber nada disto – garantiu, disfarçando com o sorriso quão perturbada estava. Angustiada com o sofrimento da criança e embaraçada com a situação, tirou um maço de notas da carteira. – Tome. Os bolos estão estragados, precisará de comprar novos.

– M-muito obrigada, mas não posso…

– Por favor, insisto. Tenho a certeza que a sua patroa preferirá assim.

Atrapalhada com Myr a chorar de rosto escondido no seu ventre e temendo a perspectiva de enfrentar a fúria da Senhora Fernau se, além de chegar atrasada, voltasse sem os bolos, acabou por engolir o orgulho e aceitar o dinheiro.

– Abençoada seja, Menina, muito obrigada.

James não conseguiu esconder um esgar de orgulho perante a atitude da jovem patroa. E só, para aí metade, era por concluir que não iria perder o trabalho à conta do pequeno incidente.

– O que se passa, solinho? – perguntou Lyn, na língua nativa, quando o casal desaparecera para outra rua. – Por que choraste quando…

– É ele! – acusou, entre as fungadelas, ensombrando o rosto da companheira. – É ele! O Demónio!

A flavence largou o maço de notas na lama ao afastar-se, apenas desejando ter um isqueiro para as queimar. Antes o castigo que aceitar o quer que fosse daquele homem. Preferia que não as tivesse salvo…

– Mano, que foi aquilo? Podíamos tê-lo…

– Cala-te, caralho – exigiu Helbert, empurrando-o contra a parede. – Tens noção quão perto estiveste de morrer?

– Quê?

– Não estiveste na guerra, puto, não sabes! Aquele tipo não é como os rufias com que lutas nos tascos, é um veterano da velha guarda. Gajos como ele não aprenderam a lutar num ringue, mas no campo de batalha, à conta de uns quantos corpos. – Jules nunca vira o irmão tão assustado, nem mesmo quando acordava a meia da noite, assombrado por pesadelos daquilo que vivera durante a guerra. – Nunca pensei voltar a ver olhos daqueles em Nova Opida… Reza para nunca mais te cruzares com ele.

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