Mesmo nas privilegiadas ruas da Ilha da Cidade o sol tinha dificuldade em penetrar as nuvens negras. O luxuoso bairro podia estar suficientemente longe das fábricas para não chover cinzas na calçada ou o fumo se misturar com o nevoeiro matinal, mas não escapava à sombra das fornalhas que alimentavam o Império. Nada o fazia…

Myr sentia saudades do seu país. Embora só se lembrasse dele mergulhado em guerra e fosse muito mais frio que a Nova Opida, tinha o mais vasto e límpido céu que alguma vez vira. Sob ele, mesmo nos momentos mais difíceis, sentira-se livre, aceite…

– Myr – ralhou Lyn, ajeitando o lenço na cabeça da criança de nove anos, para lhe esconder os cabelos vermelhos. Subitamente consciente, levou a mão ao rosto,  certificando-se que os óculos escuros escondiam os olhos. – Não é tempo para sonhar, temos trabalho a fazer. Olhos para baixo, gaiata.

Agarrando-lhe na mão, a serva de meia-idade atravessou a rua quando uma carroça a vapor saiu do caminho, assobiando e estalando por todos os lados, aterrorizando os cada vez mais raros cavalos.

A pequena sentia-se como uma meia velha de cada vez que ia à Ilha da Cidade. Mesmo de olho na calçada sentia os esgares de desprezo dos abastados transeuntes perante os seus trajes velhos e coçados de qualquer cor. Apenas a beleza das montras, como a da pastelaria onde iam, ajudavam a disfarçar o desconforto com um pequeno raio de puro deleite. Bolo e doces de todas as formas e feitios, com técnicas vindas de cada canto do Império, juntos numa explosão de cor, faziam-na abrir a boca de encanto e a barriga roncar como um porco.

O sino tilintou ao empurrarem a porta e imediatamente foi invadida pela onda quente e aconchegante do cheiro a bolos acabados de cozer. Por um momento, voltou a sentir-se livre, longe dos prédios opressivos e das nuvens de fumo, de volta ao céu azul de Nyllnem. Depois uma matriarca envergando um caro e elaborado vestido de padrão floral, afastou-se dela e de Lyn como se tivessem a peste e a pequena voltou a sentir o peso da cidade. Envergonhada e triste, cravou os olhos nos azulejos brancos do chão e apertou com mais força a mão da companheira, enquanto contornavam as mesas.

– Bom dia. O que vai ser? – perguntou, de trás do balcão, o bolachudo dono da pastelaria, de farfalhudo e revirado bigode negro, com um sorriso caloroso.

– Bom dia, viemos buscar a encomenda da Senhora Fernau – respondeu Lyn, esforçando-se ao máximo para disfarçar o sotaque enquanto mostrava a guia de trabalho com o brasão dos Fernau, prova que servia a casa.

– Ora com certeza. Só um momento, por favor – pediu, verificando o conteúdo de uma das caixas de cartão junto ao telefone, que de tão novo nem parecia fazer parte do resto da loja. – Só faltam os éclairs, que devem estar pronto em… ora… dez minutinhos. Quer tomar qualquer coisa enquanto espera?

– N-não, muito agradecida. A Senhora só deu o dinheiro para a encomenda – informou, surpreendida pela simpatia. A maioria dos lojistas nem olhava os servos nos olhos, quanto mais tratá-los como seres humanos.

– Ora, isso não é problema. Prefiro perder dois ou três tostões a deixar alguém sair a minha pastelaria sem um sorriso nos lábios. – A generosidade e genuína boa disposição do pasteleiro fez um operário, que bebia café ao balcão, fungar de desprezo.

– Obrigada, mas não. Não queremos abusar da sua bondade. – Nervosa voltou a ajeitar os óculos, como se temesse perdê-los a qualquer momento.

– Não abusam nada – garantiu, vendo o fascínio com que a mais nova das servas observava a vitrina do balcão. Se os doces que tinha na montra era impressionantes, as cores e formas dos do balcão faziam sonhar até os mais sisudos. – Que tal apenas um rebuçado para a pequenita? Que dizes, queres um?

Myr ficou tão entusiasmada que levantou o rosto de repente, antes que Lyn a pudesse impedir. O pasteleiro não conseguiu conter-se de tirar a mão do frasco dos rebuçados, como se o vidro tivesse dado choque, quando viu os olhos da criança. Amarelos, como milho tostado ao sol. Então compreendeu porque a mais velha estava tão preocupada com os óculos escuros. Não eram apenas servas, eram refugiadas flavences.

– Perdão – pediu Lyn, baixando a cara e colocando a mão nas costas da pequena para a confortar. – Esperaremos nas traseiras pela encomenda. Pedimos desculpa pelo incómodo. Se desejar já o dinheiro…

– Não! Não… deixe estar… pagará quando receber a encomenda.

Tentando recuperar a compostura, o pasteleiro escrutinou freneticamente cada canto da loja, para averiguar se alguém nas mesas vira o sucedido. A sua reacção fora mais de surpresa e desconforto do que qualquer outra coisa, porém, muitos não seriam tão tolerantes… Bastava ver o modo como mudaram as expressões dos dois jovens operários que bebiam ao balcão, os únicos que presenciaram a cena. A guerra entre os dois países fora longa e sangrenta. Muita gente ainda odiava os flavences.

– Lamento – pediu, embaraçado, ciente que se elas permanecessem poderia ter problemas com os restantes clientes. Verdade fosse dita, a lei permitia-lhe recusar serviço a flavences, todavia, não se sentia confortável a fazê-lo. Afinal, do Arquipélago Dourado ou não, continuavam a ser seres humanos… – Espera, esqueceste-te do teu rebuçado.

O mais novo dos dois operários quase gritou perante a atitude do pasteleiro, só que o mais velho conteve-o, não querendo provocar uma cena.

Apesar de uma parte de Myr temer tratar-se apenas de um truque para a humilhar e magoar ainda mais, ao ver a expressão constrangida do pasteleiro, esticou a mão para receber o rebuçado. Ao depositar a guloseima na palma da prótese metálica, o bolachudo e bondoso homem apenas foi capaz de soltar uma palavra, dita com o mais genuíno pesar:

– Lamento.

Sapatos castanhos pisaram a caixa dos bolos, manchando a calçada da ruela deserta com creme.

– Por favor, não queremos problemas – implorou Lyn, protegendo Myr com o próprio corpo.

O estalo deitou-a por terra, enlameando-lhe as roupas e estilhaçando os óculos. A visão dos olhos amarelos da serva enfureceu ainda mais o atacante, levando-o a espetar-lhe um pontapé na barriga.

Myr tentou intervir, mas o segundo rufia agarrava-a, puxando-a pelos cabelos vermelhos, libertos do lenço, e apertando-lhe o ombro. O toque frio na pele avisou-a que o captor também usava uma prótese metálica.

– Cala-te, puta flava! – gritou o mais novo dos operários, pisando-lhe a cara de encontro à lama, ainda furioso pelo que acabara de ver na pastelaria. – Atreves-te a andar entre nós? Como se fosses gente? O Chanceler, na sua imensa generosidade, permite que a tua maldita raça viva depois do que fizeram e tu abusas rastejando mais alto do que mereces? Vocês só servem para chafurdar na lama, limpando a nossa merda.

– Mesmo isso é demais. – A raiva do companheiro não era tão expansiva, mas no silêncio queimava com mais intensidade. Parecia prestes a matar ambas à menor provocação. A simples visão dos olhos amarelos, cabelos vermelhos e pele pálida enlouquecia-o. – Devíamos ter exterminado toda a maldita raça.

– Tens razão, mano – concordou, puxando Lyn pelo colarinho para a meter de joelhos. – O único bom flavo é o flavo morto.

– Por favor, perdoem-nos. Estamos aqui apenas em serviço à família Fernau.

Apesar dos fatos castanhos, provavelmente tão velhos quando os próprios rufias, ela sabia-os simples operários, a aproveitar a folga para se fingirem cavaleiros na Ilha da Cidade. Perante gente daquela, que pouco mais eram que servos, regra geral, a menção a uma casa rica era suficiente para os afastar. Quando pão e tecto dependiam das próprias mãos e da boa vontade dos patrões não compensava ofender, mesmo que ligeiramente, os donos das fábricas.

– Ouviste como ela se gaba. Nós temos de suar para meter comida na mesa, mas sua majestade trabalha para os Fernau. – A noção ainda o enfureceu mais, levando-o a cravar um estalo. – Inimigos do Império que fizeram sangrar bom sangue callaco e é este o “castigo” que recebem? Casa, comida e roupa lavada?

– P-por favor – pediu Lyn, nem se atrevendo a limpar o sangue no lábio, não fosse o jovem rufia ver isso como uma provocação. – Nunca combati contra o Império, já estava na Callacia há anos quando a guerra rebentou e a criança…

– Criança?! – explodiu o mais velho, a sua pêra loura a tremer de fúria e os olhos castanhos quase a saírem das órbitas. Apertou o ombro de Myr com mais força, fazendo-a gemer de dor. Mesmo assim, ela não chorou e isso apenas aumentou a fúria do captor. – Os flavos não têm crianças! São todos animais sanguinários. Foi uma “criança” como esta que me custou o braço.

– O meu mano perdeu um braço e mais três irmãos por vossa causa. O que ganhou com isso? Uma prótese tão barata que mal dá para trabalhar. Ele tem de viver com um pedaço de sucata enquanto os ricaços dão próteses de última geração a fedelhas flavas como esta, apenas para as exibirem às amigas. Generosos burgueses e os seus exóticos bichos de estimação, não sei o que mete mais nojo. Alguém tem de pagar, não achas?

– Podemos começar por isto – sugeriu, derrubando a criança e agarrando-lhe o braço artificial com ambas as mãos. – Acho que renderá o suficiente para uma asa nova.

– Isso, mano, e depois arranjaremos outras maneiras de lhes tirar do corpo aquilo que nos devem. Ah! Ah!

– Senhores, já chega.

A voz nas suas costas mais do que confiante e autoritária era arrogante e impaciente, como um adulto farto das tropelias de crianças.

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