Enquanto a viúva amargava no seu desgosto, a menina aproximou-se. Em trajes cinzentos e face pesarosa, ninguém a considerou como exterior aos amigos e familiares que tinham vindo distribuir condolências ao morto, prestes a ser encarcerado na terra sagrada do cemitério. Um dos presentes chegou a pousar-lhe uma mão reconfortante sobre o ombro. “Não fiques triste” dissera. “Está num mundo melhor.” Maria olhara-o, o rostinho sério e impecável, até o desconforto tomar o bom samaritano e o levar a largá-la.

Ficou quando já mais ninguém permanecia. Aproximou-se da terra remexida que resguardava o caixão, afogada em coroas e ramos. Sentou-se, as pernas cruzadas à chinesa, com o recipiente de plástico que retirara do saco pousado à sua frente.

E paciente, esperou.

Não demorou mais de meia hora depois de a viúva, reticente em deixar o bem-amado, ter sido levada quase à força pelos filhos, noras e genros. Primeiro mal se viu. Um vapor aqui, outro ali. Maria deixou que se escapasse, não seria de grande falta. De seguida levantou-se, o recipiente de plástico pronto nas suas mãos. A névoa acinzentada, elevando-se em baforadas de vapor da terra recém-mexida, engrossava, erguendo-se em redemoinhos até embater no fundo de plástico que a menina, diligentemente, segurava sobre a campa.

Novamente esperou.

Num rompante, quando já nada se erguia, virou-o, prendendo-lhe a tampa. Da campa nada se via, liberta de névoas e vapores, vazia da alma do falecido, agora presa entre as mãos de Maria. Não estava feliz, e ela sentia-o, ignorando-o: a mãe precisava da alma. E se a mãe precisava, Maria dava-lha, fazendo uso daquele conhecimento tão dela. A mãe tinha, também e afinal, os seus próprios conhecimentos.

– Trouxeste-a? – perguntou a figura materna, alta e esguia, pele como que coiro, numa feição sem sorrisos. Maria confirmou, esticando o recipiente aquecido pela alma. Augusta pareceu feliz. Ou agradada. Talvez nenhuma das coisas, a menina não se sabia ainda capaz de identificar os estados de espírito da mãe.

– Óptimo, e amanhã precisas de lá voltar, estamos a ficar sem reservas.

– Sim, mamã – anuiu a criança, embora Augusta já não a ouvisse, desaparecendo na sala de trabalho onde Maria sabia não poder entrar. “É para tua segurança”, explicara a mãe. “Nunca se sabe o que pode correr mal.” O processo de conversão da alma em líquido era irrequieto. Quem garantiria que uma outra presença no quarto não levaria a que fosse a alma da menina viva, e não a do homem morto, a sofrer as alterações?

Já estava a ter problemas que bastassem…

A alma debateu-se, mas pouco podia fazer. Desperdiçara a sua vontade em vida, vergando-se ao julgamento de outros, e agora era à vontade da mulher que voltaria a vergar. Era essencialmente um duelo de teimosias – e ferver a alma numa panela tapada. Quarenta minutos depois abandonara o vaporoso pelo líquido. Augusta suspirou, satisfeita, passando as costas da mão pela testa suada. O mais difícil estava feito.

– Mamã? – Maria olhou-a interrogativamente quando regressou à cozinha, ávida por um copo de água.

– Está tudo bem, filha – sossegou-a. – Correu tudo bem.

À filha não passavam despercebidas as suas preocupações. Tão sensitiva, a sua menina. Tão útil. Uma galinha de ovos d’oiro… Contudo, errava na fonte dos seus receios. Não era o processo o que começava a apresentar sinais de desgaste. Eram os noticiários, as leituras nas entrelinhas que ela vislumbrava sem que outros o soubessem.

– Amanhã; não te que esqueças que amanhã terás de lá voltar – relembrou. – Precisamos de mais, ou não teremos o suficiente para as encomendas.

Maria acenou. Sabia que disso dependia o saldar das dívidas da mãe.

***

Quando Conceição abriu a porta a Augusta, não gastou mais palavras do que um educado “Bom dia”, afastando-se em seguida para o quarto, com a explicação de que se encontrava com uma violenta dor de cabeça, e que ela sabia já o que tinha a fazer.

E Augusta sabia-o. Era uma das empregadas domésticas mais requisitas da região, ainda que num regime sem facturas, recibos ou contractos que a poderia colocar em faltas legais. Primava pela eficiência, essencialmente fruto do detergente caseiro cujos componentes não revelava a ninguém, fossem patroas ou concorrência.

Sabia ainda que se tornara premente a necessidade de usar luvas quando a pele lidava com o pano húmido do dito produto. Talvez devesse também proteger boca e nariz, pensou, esfregando a banheira da senhora Conceição. Poderia correr o risco de o estar a respirar. Mas aí começariam as perguntas, suspirou, pondo a ideia de lado.

Quando ao final da manhã bateu ao de leve na porta do quarto da senhora Conceição, anunciando-lhe que terminara e esperando o pagamento, esta não melhorara de aspecto. Apresentava-se, inclusive, com um ligeiro tom acinzentado que nada agoirava de bom.

– Estamos então certas para a próxima semana, Augusta?

Augusta levantou os olhos da carteira, onde guardava as notas, e estremeceu. Apercebera-se, no olhar da patroa, da zanga que não era dela. A senhora Conceição poderia não o saber ainda, mas já não se encontrava sozinha naquele corpo.

– Sim, senhora – mentiu, sabendo perfeitamente que na próxima semana a mulher já teria saído nos noticiários como mais uma das misteriosas mortes sem causa aparente. Consequências de duas almas a digladiar pelo mesmo receptáculo, nada havia que Augusta pudesse ou quisesse fazer. Quem poderia prever que mesmo tornada em detergente, a alma mantinha vontade própria e desejo de possessão? Ela não, com certeza, e ainda que agora já o soubesse, seria inumano e até de mau tom exigir-lhe que deixasse a sua fonte de rendimentos por um punhado de mortes prematuras. A morte era, afinal, algo que sempre acabava por chegar, fosse cedo ou fosse tarde.

E as almas eram eficientes. Talvez pela sensação de oportunidade e vivacidade que deixavam atrás de si.

A filha esperava-a em casa, o contentor pousado sobre a mesa, novamente cheio e anormalmente quieto. Óptimo. Aquela não lhe daria tanta estafa quanto a anterior, com certeza detendo uma maior resignação.

– Um dia ensino-te a minha arte – prometeu, afagando os cabelos de Maria.

– Não hoje?

– Não hoje.

Não é necessário, pensou, que saiba já de tudo.

No fundo, queria-a inocente. Incapaz de remorsos pelo mal que Augusta negava fazer.

O negócio de Dona Augusta

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