Tiraram-me a venda. Estava num armazém abandonado. O homem à minha frente tirou óculos escuros. Contorci-me, mas as cordas estavam bem apertadas. Ele pousou os óculos numa mesinha ao meu lado direito. Ergui o olhar e apercebi-me que algo estava errado com os olhos do meu captor. Demasiado vítreos, demasiado parados, demasiado…falsos? Porém, não eram só os olhos que me causavam arrepios na espinha. Toda a cara era da mais profunda inexpressão. Perguntei-lhe o que queria de mim. O homem fincou as mãos dos dois lados da sua cabeça e rodou-a. Gritei. Uma cabeça repousava agora na mesinha, ao lado dos óculos escuros. Fitei-a com horror. Agora de perto, e fora do local esperado, notava-se que era falsa. Um ovo de colombo feito de pesadelo.

– Que raio és tu? – perguntei, sem pensar nas consequências.

O corpo sem cabeça começou por tirar o casaco de corte italiano, depois a gravata e, por fim, a desabotoar a camisa. Os mais mórbidos dos pensamentos assaltaram-me a memória. Diante de mim corria o título do jornal do dia seguinte a letras gordas “jovem rapariga violada por homem sem cabeça”. Nunca antes sentira tanto medo na vida. Mentalmente, gritava comigo própria, repreendendo-me. Como fora estúpida! Mas também, depois de tantas horas de conversa on-line, fotos partilhadas, perfis de Facebook trocados, quem diria que o primeiro encontro iria terminar num rapto? Ou talvez tudo aquilo fosse apenas um jogo erótico. Há homens que gostam desse tipo de coisas. No entanto, isso não explicava a falta de cabeça… Sem cabeça estava eu! Como podia estar tão calma naquela situação? Rebobinei os factos que tinha ao meu dispor e meti-os por ordem. Não consegui controlar as lágrimas e muito menos os berros de ajuda. Contorci-me ainda mais, quase atirando a cadeira ao chão. O homem parou de desabotoar a camisa, mas não fez nada para me parar. Exausta, aceitei que não havia nada a fazer, que estava para além de qualquer ajuda. Baixei a cabeça e deixei as lágrimas escorrerem. O homem falou pela primeira vez, naquela voz que me dissera tantas coisas doces:

– Olha para mim.

Abanei a cabeça negativamente, sem tirar os olhos do chão. Ele agarrou-me pelos cabelos e puxou o meu olhar para cima. Um novo grito saiu da minha boca, rouco e exausto. No lugar do pescoço, pele lisa, nem um coto sequer, como se uma cabeça nunca tivesse tido lá lugar. No peito, dois enormes olhos fitavam os meus, acompanhados de uma boca de dentes tortos e partidos que abria e fechava, formando palavras.

– Olá, nem sabes o bom que é poder mostrar o meu verdadeiro eu.

– Oh, céus! – gemi, desejando desmaiar.

No entanto, o corpo não me queria poupar do horror que presenciava e uma descarga de adrenalina percorreu os meus músculos. Havia algo dentro de mim, uma força primitiva, que esbracejava para sair dali, para sobreviver. Uma emergência de autoconservação como nunca tinha sentido. O que fiz de seguida até a mim me espantou:

– O que és tu? – voltei a perguntar.

– Sou um blémio, descendente dos primeiros que vocês portugueses encontraram em África, na época dos Descobrimentos. Diz-se que os portugueses deram “mundos ao Mundo”, mas a maior dádiva foi ter-nos dado o Mundo a nós. – Riu, exalando um hálito a carne podre que me puxou o reflexo do vómito. – Quando os teus antepassados chegaram e nos contaram sobre as cidades da Europa, mal conseguimos acreditar. Um novo terreno de caça, atulhado de gente, muitos deles fracos e solitários. Até parecia mentira! Se ao menos tivessem lido as obras de Heródoto ou Plíneo, nunca teriam aceitado trazer-nos ao velho continente a troco de ouro e pedras preciosas. Essa é talvez a maior lição que aprendemos convosco. O dinheiro compra tudo: posições de poder, decisões, disfarces, silêncios, cooperações… E vocês não são esquisitos, ouro, diamantes, escravos, cobre, recentemente petróleo…Tudo serve – riu de novo.

Engoli o medo e disparei a pergunta, mesclada de súplica.

– O que queres de mim? Não sou rica. Não sou influente. Eu prometo que não conto o teu segredo a ninguém. Deixa-me ir embora, por favor.

– Não preciso do teu secretismo para nada, humana. Há séculos que nós nos movimentamos por entre vós. Umas vezes são uns bebés que desaparecem do orfanato, outras vezes adolescentes que fogem de casa, ou até mesmo, quando estamos muito desesperados, um mendigo ou uma prostituta.

– O que vão fazer comigo? – perguntei uma última vez.

O blémio deu meia volta à cadeira e mostrou-me o resto do armazém. Uma dezena de criaturas acéfalas nuas reunia-se em torno de uma caixa metálica preta onde metiam lenha a arder. O meu captor, ainda atrás de mim, respondeu:

– O que vamos fazer contigo? Ora, espetadas!

Ainda antes que pudesse aperceber-me do meu destino, uma lâmina abriu-me a garganta. A família de blémios lambeu os beiços. A carne aterrorizada sabia sempre melhor. A minha cabeça foi separada do corpo e esmagada contra o chão. Não fiquei para aprender que, para além de acéfalos, os blémios são também conhecidos de anthropophagi, os devoradores de homens.

blemios

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