Rafael saiu do abrigo e seguiu Rita por entre as ruínas. Acabou por dar com a jovem numa zona mais ampla. A rapariga e a besta davam voltas em torno uma da outra, avaliando-se mutuamente. Escondeu-se atrás de uma parede de granito e aguardou, observando o impasse com curiosidade. A primeira reacção que teve perante a cena foi correr ao encontro de Rita para salvar a jovem, mas esta claramente sabia o que fazia.

                – Sabes uma coisa? Eu tinha tudo preparado para te apanhar sem stresses. Passei todo o santo dia a estudar a zona e a preparar armadilhas para te apanhar, mas tinham de vir aqueles três cromos para me estragarem os planos. O que uma rapariga sofre…

                A criatura lançou um rugido ameaçador em resposta que fez Rafael encolher-se. Porém, Rita continuava a olhar para o ser como se fosse a coisa mais banal deste mundo.

                – Ok, sabes que mais? Eu não queria ser inconveniente, mas tens mesmo que começar a tomar pastilhas para o hálito…

                O enorme corpo da criatura lançou-se no ar em direcção à jovem. Rita esquivou-se rebolando no chão, colocando-se de pé com a mesma rapidez com que se desviou do ataque.

                – Este é um dos problemas da sociedade hoje em dia, já ninguém sabe ouvir críticas.

                A jovem correu em direcção à besta que por sua vez abriu as mandíbulas, preparando-se para apanhar a presa em pleno voo. Por momentos Rafael jurou que aquele seria o fim trágico de Rita, mas quando o focinho da criatura se aproximou ainda durante o salto, esta pontapeou a criatura com uma força sobre-humana. Caiu no chão com uma graciosidade tal que fez lembrar ginastas olímpicos. De seguida, movendo-se em círculos como se de uma dança de tratasse, executou uma série de golpes rápidos e precisos com a espada, atingindo a criatura em pontos estratégicos.

                A besta abriu a boca e cuspiu um mar de chamas. Mais uma vez, Rita esquivou-se sem qualquer dificuldade.

                – Agradecia que não repetisses isso.

                A criatura lançou-se em corrida em direcção de Rita, mas os golpes desferidos nos membros tornavam-lhe os movimentos difíceis. Aproveitando a oportunidade, a rapariga deslizou por cima da criatura e cravou-se a espada no crânio, atravessando-o de uma ponta à outra. A besta caiu no chão sem vida.

                – Já podes sair – declarou Rita. – Pensei que te tinha dito para ficares escondido.

                Rafael saiu detrás da parede de granito e aproximou-se.

                – Que coisa era esta? – perguntou, apontando para o cadáver.

                – Uma quimera. Não é habitual encontrá-las por estas bandas, normalmente preferem a costa mediterrânica.

                Em meros segundos, o corpo da criatura começou a mudar de forma, voltando a assumir a identidade humana. No chão jazia agora o corpo da dona Olga, a simpática dona do café.

                – Mas o que é que…?

                – Uma coisa curiosa sobre os seres do oculto, quando morrem voltam a assumir a forma humana.

                – Eu estive com ela de manhã. Foi ela que nos disse que podíamos acampar, que era seguro…

                – Mas é claro que sim. Vocês eram a próxima refeição. Nos últimos meses alimentava-se exclusivamente de gado. Uma Quimera não consegue resistir por muito tempo sem carne humana. Tu e os teus amigos estavam no local errado à hora errada.

                – Os meus amigos, eles morreram.

                – Sim, lamento. Quando te disse onde acampar tinha preparado tudo para que vocês estivessem em segurança. Iam ser o meu isco e a Quimera ia cair nas minhas armadilhas antes de vos alcançar. Mas vocês tinham de se armar em valentes e investigar o que se estava a passar… Se tivessem ficado na tenda nada disto tinha acontecido.

                Rafael olhou novamente para o corpo da assassina dos seus companheiros enquanto tentava absorver toda aquela informação. Quimeras, criaturas do oculto, uma simpática senhora que afinal era um monstro, e uma loirinha que o tinha salvo da morte certa.

                – Mas afinal o quem ou o que és tu? Como é que tens toda essa força e como é que sabias do monstro?

                – Eu sou uma caçadora de demónios – respondeu ao mesmo tempo que lhe agarrava na mão. – E agora tu também és.

                Rafael sentiu um ardor na mão, como se o estivessem a queimar. Puxou o braço para se libertar e olhou para o local da queimadura. Nas costas da mão tinha agora tatuado um estranho símbolo, o mesmo que Rita.

                – Bem-vindo à ordem. Lamento mas não tinha outra escolha depois do que viste esta noite. Quem toma conhecimento da nossa existência e dos seres ocultos só tem duas opções. Agora és um de nós.

                – Duas opções? Qual é a outra?

                O olhar de Rita foi mais que suficiente para perceber que a outra opção estava longe de ser agradável.

                – E agora? – perguntou Rafael.

                – Deixas amigos e família e vens comigo. Na prática estás morto. A tua vida como caçador começa agora.

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