De lanternas na mão, os três jovens avançaram pela vegetação rumo às ruínas do mosteiro. A lua cheia que brilhava no céu tornava o uso das lanternas quase dispensável, permitindo ver o caminho sem grandes dificuldades. Estavam quase a alcançar as ruínas quando voltaram a ouvir o estranho uivo.

– Está perto – comentou Miguel.

– Muito perto – concordou Rafael.

A vegetação junto a dois carvalhos agitou-se, denunciando o movimento de alguma criatura. Os jovens apontaram de imediato as lanternas para o local. Nada.

– Que foi isto?! Vá lá pessoal, chega de brincadeiras.

– Miguel, nós estamos aqui contigo. Não fomos nós – respondeu Filipe.

O ruído da vegetação a agitar-se fez-se novamente ouvir, desta vez na retaguarda do grupo.

– Ok, começo a achar que esta pequena excursão não foi lá muito boa ideia – comentou Rafael. – Há definitivamente alguma coisa aqui.

– Acalmem-se os dois – ordenou Filipe. – Devem ser só ratos do campo ou algo parecido.

Nisto, os ramos dos dois carvalhos estremeceram. Algo estava nas árvores. Apontaram as lanternas para a copa.

Uma criatura do tamanho de um tigre saltou na direcção do grupo. Os jovens correram em pânico pela escuridão da noite, mas a besta alcançou Filipe antes que se conseguisse colocar a salvo.

Rafael e Miguel correram às cegas pelo meio do mato enquanto ouviam os gritos de dor de Filipe por entre os rugidos da criatura. Os gritos cessaram. Esconderam-se atrás de uns arbustos mais altos e aguardaram em silêncio. As mãos de Rafael tremiam e o seu coração parecia que ia explodir a qualquer momento.

– O que era aquela coisa?! – inquiriu Miguel aterrado.

– Não faço ideia – respondeu Rafael. – Nunca tinha visto nada assim.

Apesar de estar escuro e ter tudo acontecido muito depressa, Rafael ainda conseguira ter um vislumbre rápido da criatura, o que só o deixara mais assustado. A besta possuía um corpo musculado, a cabeça de um felino de longas orelhas pontiagudas e uma farta juba negra. Porém Rafael era capaz de jurar que havia espigões ao longo do dorso, que as patas traseiras possuíam cascos e que a cauda terminava numa serpente.

– Viste a cauda? – perguntou Miguel timidamente. – A cauda acabava com a cabeça de uma cobra…

Afinal não tinha imaginado.

– Temos de voltar atrás – declarou Rafael. – Temos de procurar o Filipe.

– Mas tu estás doido?! Aquela coisa apanhou-o! Tu ouviste os gritos, a esta hora já está morto de certeza.

– Temos de ter a certeza. Não o podemos deixar assim para trás.

– Isto não é altura para te aramares em herói, Rafael! Temos é de sair daqui e ir à aldeia pedir ajuda. Vamos ter de contorn…

O rugido da criatura interrompeu Miguel.

– Corre!

Os dois jovens iniciaram uma corrida desenfreada pela colina abaixo. Atrás deles, um possante vulto negro avançava por entre a vegetação. O som das passadas da criatura sobrepunha-se às de Rafael, sentia o coração a pulsar no peito com tal força que era capaz de jurar que lhe iria saltar pela garganta. A respiração da criatura era agora audível, deixando escapar o seu bafo fétido. A cada segundo que passava aproximava-se mais.

Miguel enfiou o pé num galho e caiu. Rafael preparou-se para voltar atrás e ajudar o amigo, mas antes que o pudesse fazer, a besta lançou-se sobre o jovem caído e com as poderosas mandíbulas, arrancou-lhe a cabeça.

Aos tropeções, Rafael continuou a fuga. Tinha a pele arranhada e repleta de cortes provocados pelo mato. O suor que escorria-lhe para as feridas abertas fazendo-as arder. Continuou em corrida até dar por si no meio das ruínas do antigo mosteiro. Recordando-se do caminho que percorrera com Rita naquela manhã, sabia que ainda estava longe da aldeia, pelo menos demasiado longe para que conseguisse escapar da besta e pedir ajuda. A sua melhor opção era tentar refugiar-se nas ruínas ou na capela.

Avançou por entre as paredes de granito rumo à porta da capela. Estava fechada. Em desespero tentou arrombar a porta, forçando a entrada, mas sem sucesso. O rosnar da criatura atrás de si fez com que parasse. Virou-se a tempo de ver os penetrantes olhos vermelhos a fitá-lo. Encostado à parede, foi deslizando cuidadosamente enquanto a criatura avançava na sua direcção. Qualquer movimento brusco da sua parte podia levar ao ataque.

A besta observava pacientemente a sua presa, tentando prever o seu próximo movimento. Seguiu Rafael até ao extremo oposto da capela, acabando por encurralar o jovem entre as ruínas do velho mosteiro.

Rafael engoliu em seco. Estava tudo terminado. Tinha-se deixado encurralar e agora não tinha fuga possível. A criatura lançou-se no ar na sua direcção numa fracção de segundo que pareceu interminável. Preparou-se para aceitar a morte quando algo o puxou detrás, elevando-o acima das ruínas, para longe do seu carrasco.

Rita apertou o braço de Rafael e puxou-o para uma pequena reentrância nas ruínas.

– Tu?! O que é que aqui estás a fazer?

– Fica aí e não te mexas – ordenou a rapariga.

– O quê?! Não! Temos de sair daqui! – protestou enquanto tentava sair do abrigo.

– Eu disse quieto! – contrapôs Rita, atingindo-o no peito com a palma da mão, atirando-o de novo para a reentrância. – Eu trato disto.

Espantado com a força da rapariga, Rafael ficou a vê-la afastar-se em direcção às ruínas. Só então reparou que levava uma espada prateada numa das mãos. Mas que raio se estava ali a passar?

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