O Sol do meio-dia brilhava sobre as ruas da aldeia tornado o ar cada vez mais quente. Rafael pegou no cantil que trazia consigo e bebeu um pouco de água para aliviar o calor que sentia. Tal como combinado, Miguel e Filipe tinham ido tratar de reforçar os mantimentos do grupo enquanto ele ficara responsável por encontrar um bom sítio para acampar. Deambulando pelas ruas de Pitões das Júnias, procurou um bom local na orla da aldeia. Infelizmente estava com dificuldades em encontrar uma sombra ou um local resguardado do vento. Preparava-se para atravessar o povoamento até ao extremo oposto quando viu a rapariga loira do café. Ignorou o nervoso miudinho e avançou. Podia não ter uma segunda oportunidade para meter conversa. Talvez ela soubesse de algum local. Chamou-a.

– Olá!

Ignorando-o, a jovem continuou o seu caminho. Decidido a não desistir tão facilmente, Rafael seguiu-a.

Carregado com a mochila às costas, perseguiu a loira pelas ruas da aldeia o mais depressa que conseguiu, mas sem nunca a alcançar. A jovem andava depressa e parecia não ter dado pela sua presença. Rafael não pôde deixar de notar o estranho comportamento da rapariga: cada vez que entrava numa nova rua parecia verificar se esta estava deserta, como se não quisesse ser vista. Mantendo-se atrás e longe da vista, seguiu-a com curiosidade.

A rapariga avançou até sair da aldeia, seguindo por um caminho de terra batida. Onde raio é que ela ia sozinha? Já longe das casas e rodeada de vegetação, começou a correr pelo estreito caminho.

Ao vê-la sumir por entre a vegetação, Rafael passou para passo de corrida. Os galhos dos arbustos batiam-lhe nas pernas e braços à medida que avançava, prendendo-lhe os calções e a t-shirt. Com um esforço extra acelerou um pouco mais. Já conseguia ter um vislumbre dela por entre o verde. O peso da mochila nas costas acabou-se por se revelar demasiado, impedindo-o de manter aquele rimo frenético. Abrandou quando o cansaço se apoderou do corpo e recomeçou a andar. Era escusado, tinha perdido a rapariga, mais valia aproveitar a ocasião para procurar um bom local para acampar. Seguiu pelo estreito caminho de terra batida e continuou a avançar. Talvez encontrasse algum local com sombra e relativamente plano para montar a tenda.

O que encontrou no final do caminho de terra batida deixou Rafael boquiaberto. À sua frente encontravam-se as ruínas de um antigo mosteiro, esquecidas no meio da vegetação. Entusiasmado com a descoberta, avançou enquanto estudava a paisagem. Havia bastante sombra e as ruínas de pedra ofereciam protecção contra o vento. Era o local ideal para montar a tenda.

– Posso saber por que é que me vens a seguir há este tempo todo?

Rafael virou-se para trás. A rapariga de cabelos loiros estava mesmo à sua frente, de braços cruzados sobre o peito e com ar de poucos amigos.

– Desculpa. Tentei falar contigo na aldeia, mas como não me ouviste…

– Resolveste armar-te em stalker e vir atrás de mim até aqui – concluiu. – Se há coisa que eu não gosto é pessoal que mete o nariz onde não é chamado. Afinal o que é que querias?

– Nada. Ia só perguntar-te se sabias de algum local bom para montar a tenda perto da aldeia, mas este parece-me ideal.

– Tencionas montar tenda aqui? No meio das ruínas do Mosteiro de Santa Maria das Júnias? Deves querer que os populares te dêem uma sova, não? Há um local bem melhor mais acima com uns carvalhos que dão uma óptima sombra e mais perto da aldeia.

– Ok, obrigado. Podes mostrar-me o sítio? Já agora, o meu nome é Rafael – declarou estendendo a mão à jovem.

– Rita – respondeu a rapariga enquanto apertavam as mãos. Rafael não pôde deixar de notar na estranha tatuagem que a jovem tinha nas costas da mão.

– Prazer. Então e tu, que andas aqui a fazer?

– Já te disse que não gosto de bisbilhoteiros.

– Desculpa. Estava só a meter conversa.

– Anda daí, vou-te mostrar o sítio de que te falei.

Rafael seguiu Rita pelo caminho de terra batida até chegarem ao destino, um pequeno largo com três carvalhos centenários cujos ramos forneciam a sombra que o jovem tanto procurava.

***

Reunidos em torno da pequena fogueira, os três jovens conversavam animadamente sobre os locais que iriam visitar no dia seguinte.

– Acho que devíamos ver a cascata, o pessoal da aldeia fartou-se de falar nela – disse Miguel. – E pode ser que com sorte faças um amigo, Rafa.

– Do que é que estás para aí a falar?

– Há lá duendes!

– Não ligues – declarou Filipe. – Há uma lenda qualquer que diz que há um duende a viver num velho carvalho junto à cascata. Mais interessante que isso foi o teu encontro de hoje com a loiraça.

– Há gajos com sorte – comentou Miguel.

– Sabem como é, este meu charme…

Os três amigos riram com gosto enquanto terminavam o jantar. Nisto um uivo agonizante preencheu o silêncio da noite.

– Mas que raio foi isto?! – questionou Miguel. – A mulherzinha do café não disse que não havia lobos por estas bandas?!

O uivo ouviu-se novamente.

– Uma coisa te garanto, isto não é nenhum lobo – disse Filipe.

– O som parece vir lá debaixo, da zona das ruínas – comentou Rafael.

– Apaguem a fogueira e tragam lanternas. Vamos investigar.

– Estás doido pá?! Sei lá eu que bicho é que por aí anda!

– Não sejas medricas, Miguel. Já não tens idade para isso – protestou Filipe. – Se quiseres ficas aqui na tenda que eu e o Rafael vamos ver o que é.

– Não. Eu vou com vocês – respondeu rapidamente.

– Não te preocupes. O bicho deve ter mais medo de ti do que tu dele – declarou Rafael, tentando confortar o amigo.

Assim que acabaram de comer, apagaram a pequena fogueira e pegaram em lanternas. Os uivos tinham cessado, mas mesmo assim o grupo iniciou a sua caminhada nocturna rumo às ruínas. O mais certo era o animal já ter fugido, porém a caminhada valia a pena só para ver o rosto do Miguel em terror.

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