Denise regressara naquela noite. Deixara que as amigas atribuíssem a culpa da sua irritação à mosquitada que a atacava sem dó ou piedade, e o estado irrequieto à necessidade de actividade constante que já lhe era comum. Nunca um grupo de pessoas lhe pareceu demorar tanto a deitar-se, e ainda mais a dormir. Resmungava entredentes quando finalmente a respiração das amigas se tornou pesada dentro da tenda, permitindo-lhe a escapadela com nada mais que uma lanterna nas mãos, única iluminação no caminho até à cascata.

Hesitou em frente às águas. Na escuridão da noite, dominada pelo ruído da queda d’água, apresentavam-se-lhe aos olhos como uma poça de negrume pronta a tragá-la.

Mas Veado está à espera, pensara, antes de pousar a lanterna no chão, apagando-a, e, num ímpeto, mergulhar. Imediatamente sentiu o corpo puxá-la para cima, almejando a margem, seca e mais quente do que o gelo que a percorria. Forçou-se a continuar, convencendo-se de que se conseguira uma vez, conseguiria segunda.

– Julguei que não virias.

O receio de Veado deu-lhe as boas-vindas.

– Tive de esperar para vir sozinha – explicou, aceitando a mão que ele lhe estendia para sair do lago. – Onde vamos?

– Para a Clareira.

– Outra vez!?

– Desta vez vai ser diferente – garantiu-lhe.

Fora diferente. Diferente como ela nunca vira, nunca veria e nunca esqueceria. O burburinho colorido da Clareira permaneceria nela nos tempos vindouros, tanto bênção como maldição. Homens com asas, grandes, pequenas, translúcidas e brilhantes, mulheres de quatro metros e mulheres de quatro centímetros, homens-animais e animais-homens, elfos e anões, duendes, diabretes, fadas e ninfas, flores com rostos de pessoas e pessoas com membros de arvoredo, peixes que voavam e pássaros que apenas andavam, um explodir de detalhes, animação e movimento que ela jamais poderia abarcar de uma só vez.

– Estão a dançar – murmurou, estupidificada, constatando o óbvio. – Mas não têm música.

– Têm, tu é que não estás a ouvir, ora presta atenção.

Denise calou-se, os olhos percorrendo o emaranhado encanto. Começou lentamente, tão delicada que não percebeu o início. Sentiu-a como se viesse de dentro de si, ressoando-lhe nas veias, envolvendo-lhe os ossos, e só depois seguindo para o exterior. Jamais aquela melodia poderia ser reproduzida.

– Estão a cantar!

Veado riu-se, pegando-lhe na mão.

– Vamos, ou pretendes ficar só a ver?

Denise rodopiou naquela noite, perdeu a conta aos parceiros, aos sorrisos, às simpatias, às vezes que regressou ao abraço de Veado. Dançou até ao raiar da madrugada, naquela noite e em três outras mais. Veado esperara-a em todas elas, guardando para si o direito da primeira dança e o dever de a devolver onde pertencia. Descobriu-se a amá-lo e descobriu-o a amá-la, sem que no entanto ele lhe desse o seu verdadeiro nome. Um dia, prometia. Um dia vais tê-lo.

Nunca o chegaria a ter. Judite prevenira-o quando a seguira, desconfiada das fugas nocturnas de que se apercebera, reticente em lhe acreditar as desculpas. Mergulhara atrás dela, seguira-a, condenara-a.

– Denise! – alarmara-se Veado, olhando-lhe por cima do ombro. Denise virara-se, vendo a amiga emergir das águas, o corpo húmido tremendo, os olhos esbugalhados de descrença e horror ao fixar as hastes do rapaz. – Quem é?

– Eu… Uma amiga… não sabia, a Judite…

Veado sentia-se traído. Via-lho no temor com que a mirava, nos passos hesitantes com que recuava, afastando-se dela. Aceitara-a quando ali chegara, mas permanecia incapaz de aceitar Judite. Denise chegara ali por um acaso, um desígnio aos seus olhos. Judite seguira outrem, não deveria ali estar.

– Veado! – gritou, estendo a mão numa tentativa infrutífera de o agarrar. Veado fugira, desaparecera no arvoredo, e com ele todas as criaturas que ainda ali deambulavam, a caminho da Clareira. A certeza dominou-a com a mortificação de uma tragédia: já não se encontrava no Outro Lado.

– O que é que fizeste? – gritou, virando-se para a amiga, ainda muda de incredulidade. – Porquê, Judite? Por que não podias ter-me deixado em paz!?

– Eu… Aquilo… Aquele rapaz tinha chifres!

– Por que vieste atrás de mim!?

– Pára de gritar – exasperou Judite, saindo do seu torpor e elevando a voz. – Ele tinha chifres!

– E que tens tu a ver com isso?

Judite agarrou-lhe o braço, enterrando-lhe as unhas com força.

– Estavas com o demónio! Não vês, Denise, agora percebo tudo! Tens estado todas estas noites a…

– Estás louca, qual demónio qual quê, larga-me!

Denise sentiu o braço a reclamar de dor à medida que Judite a apertava mais.

– Não é seguro, vai ter de ser tudo mandado abaixo, esta floresta é um ardil, um…

O medo dominou Denise, alimentando-lhe a raiva que a começava a cegar. Agarrou o pulso de Judite procurando obrigá-la a libertá-la.

– Vais largar-me, vamos voltar para a tenda, e não vamos abrir a boca sobre isto a quem quer que seja.

– Não! – Judite começou a abaná-la. – Não percebes? Ele enganou-te, deixaste que ele…

A bofetada impediu-a de terminar a frase. Num berro, Judite atirou-se a Denise, braços agarrando braços, cabelos puxados, arrancados, as unhas procurando a pele sensível da cara. A rapidez levou a que Denise nunca soubesse com certeza o que fizera para o provocar.

Mas fizera-o. Judite caíra, escorregando na rocha e perdendo o equilíbrio. O crânio cedera à aresta dura, dando-lhe a morte imediata que as autoridades atribuiriam a descuido da rapariga que decidira ir nadar sozinha nas horas da noite.

Nunca mais o voltei a ver, pensou, os anos regressando ao corpo envelhecido. Tentara. Eles bem sabiam o que tinha tentado, se a observavam como ela julgava que sim. Mas tinha as mãos manchadas, culpadas, e isso não era coisa de que eles gostassem.

E no entanto… No entanto talvez lhe permitissem aquela última vontade. Estou velha demais… Sinto-me velha demais.

A água pareceu-lhe mais quente do que se recordava. Talvez as intenções com que a encarava lhe alterassem os sentidos. Molhou os braços quando a borda de água lhe chegou à cintura, tirando prazer da sensação que lhe causava. Ninguém pareceu notar a cansada senhora de sessenta anos que caminhou pela lagoa até perder o pé, deixando-se afundar até sentir o contacto com o lodo depositado no fundo. Ninguém notou as bolhas que se lhe escaparam dos lábios ou a perseverança com que se agarrou às pedras, numa rebeldia que controlava o desespero instintivo de bater as pernas em buscar de ar.

Só ele. Ele notara, vira-a e procurara-a. Denise viu-o aproximar-se, os caracóis dourados flutuando em torno do rosto que não envelhecera um dia, as hastes avermelhadas esbatidas pela cor acinzentada que aquela profundida lhe conferia. Deixou que ele a agarrasse, segurando-lhe as mãos, os instintos de sobrevivência tão mortos como ela em breve estaria. Os lábios pousaram-se nos seus, o primeiro e o último beijo, seguindo-lhe a linha do queixo até à orelha.

E ali, na quietude das águas e no silêncio da morte, Veado pronunciou-lhe o nome.

gerês

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