Morri. Afinal sempre precisara de ir à tona. Mas se isto é a vida depois da morte, é muito parecida com a anterior.

Com excepção do veado falante, pelo menos.

– Onde estou? – perguntou, não se atrevendo a sair de água. O animal mantinha os olhos negros fixos nela, não dando a ideia de que se preparava para fugir, como seria esperado. De certo modo, ainda esperava ver alguém a sair de trás dele. Alguém humano.

O veado quebrou-lhe as esperanças ao responder-lhe.

– Vocês costumavam chamar-nos o Outro Lado, a acreditar nas velhas histórias. Terra das Fadas. País de Duendes. Eu chamo-lhe pátria.

Denise piscou os olhos.

– Estava no Gerês…

– Ainda estás, esse é o nome em comum.

– Ah.

Silêncio. Nenhum dos dois parecia saber lidar com a situação.

– Como é que regresso? – perguntou finalmente Denise.

– Não conheces as lendas? – retorquiu o veado, os cascos batendo impacientemente na terra coberta de galhos e folhas. – Precisas do pêlo de um unicórnio livremente oferecido, pó de fada engenhosamente roubado, e o beijo de um sapo enfeitiçado relutantemente dado.

Denise ergueu-se da lagoa, subindo para a rocha e encarando o veado de mãos nas ancas.

– Só podes estar a brincar comigo!

– Pois estou – admitiu, baixando a cabeça. – Sais como entraste, nadando até ao outro lado sem subir à superfície.

A rapariga deixou cair os braços, relaxando.

– Muito melhor.

O veado não lhe respondeu. Virando-se, começou a afastar-se, decidindo que nada mais tinha ali para ver. Denise hesitou, mordeu o lábio inferior, e seguiu-o.

– Pensei que querias ir-te embora.

– Preciso de recuperar da viagem até aqui – retorquiu Denise. Não admitiu a curiosidade que lhe começara a roer as entranhas. Quem receberia de mão beijada a entrada na Terra das Fadas e se recusava a conhecê-la? Esforçou-se por recordar as historietas das velhotas da aldeia, anos antes, quando era uma criança sentada no meio do pó em frente aos bancos de pedra. Havia regras, sabia que havia regras: não comer, não beber… Não dormir? O tempo era diferente, precisava de ter cuidado com o tempo e os divertimentos, os acordos e as propostas. Não levar nada, não desejar nada…

O grito saiu-lhe estrangulado antes que se controlasse. O veado desaparecera, dando lugar a um rapaz de farrapos castanhos. O cabelo dourado abundava em largos anéis, fugindo-lhe para a testa, quase cobrindo os olhos negros, perspicazes, selvagens… As hastes avermelhadas mantinham-se, mais pequenas, tombando-lhe ligeiramente a cabeça. Os lábios curvavam-se num sorriso irónico.

– Assustei-te?

– Sur… surpreendeste-me – corrigiu Denise, afastando a irritação por se ter deixado levar. Estava num país encantado, que esperava ela? Nada seria o que parecia.

– Pelo contrário, tudo é exactamente o que parece. Essas dissimulações são típicas do teu mundo, não do meu.

– Estás a ler-me os pensamentos!?

O seu tom pouco augurava de bom. Rapaz ou veado, Denise não deixaria tal afronta passar impune.

– Só os que estão espelhados na tua cara – garantiu o rapaz, fazendo-lhe uma careta. – Anda.

– Para onde?

– Não querias ver? Não negues – interrompeu, vendo-a abrir a boca para barafustar. – Em anos e anos, tudo o que é humano reagiu do mesmo modo. Ao início, pelo menos.

– Para onde? – repetiu.

– Vais gostar.

Anos depois, e Denise continuaria sem saber o que a levara a seguir Veado. Ele nunca lhe dissera, sequer, como se chamava, explicando-lhe o poder dos nomes, mas ainda assim desde o início ela mostrara-lhe uma confiança inusitada, inexplicável à lógica e bom senso com que nascera e crescera. Talvez por ter sido o primeiro que encontrara naquela viragem do comum, no sopro de maravilha sobre a existência de normalidade sem percalços.

Mas ainda que não o soubesse, seguiu-o: e gostou. Veado encaminhara-a até à Clareira, um espaço aberto, natural, sombreado pela enormidade dos teixos e dos carvalhos, típicos da serra. Denise ouviu os chilreios, único som sobre o silêncio, dilatando as narinas em irritação quando Veado se riu da sua suposição acerca de passarada.

– Não são como os julgas – explicara. – E uns metediços de primeira. Quando a noite cair, já tudo o que tiver ouvidos saberá da tua visita.

– Nessa altura já cá não estarei – respondera Denise, deitada de barriga para cima, os olhos deambulando nas copas das árvores. Veado, sentado de encontro a um tronco, silenciou-se.

– Podes voltar. – Parecia falar a medo. – Conheces a passagem. E ias gostar disto à noite.

Sentiu-lhe a timidez. A realização fê-la corar e num ímpeto beliscou-lhe a coxa, afastando o embaraço.

– Au! Isso foi para quê!?

– Queres-me aqui outra vez? – provocou. Não deixou fugir a oportunidade de ser ela a encará-lo com ironia.

– Por que não? Por alguma razão estás aqui.

– Enfado e um desafio estúpido.

– Deliberação da Senhora da Floresta.

Denise riu-se, até se aperceber que ele falava a sério.

– Não acredito em poderes exteriores a controlar-me a vontade, Veado.

Ele encolheu os ombros. Se planeava discutir com ela, não o faria naquele momento.

– Mas vens?

Ela acedeu, não precisando de aliciação. Ouviu Veado, os conselhos que lhe dava para que a ninguém ofendesse, as descrições dos locais que ela ainda não vira, e provavelmente não veria, o encanto que parecia sentir pela Senhora da Floresta, sempre presente e raramente visível, as contradições que se viviam na corte feérica. “É como caminhar em nevoeiro,” explicara. “Nunca vês o que vais encontrar.” Em troca, ela falava-lhe do que conhecia, do que vivia, da zanga dos pais quando recusara casar com o primo que lhe tinham destinado, do perdão que inevitavelmente se instalara enquanto o tempo decorria, das dificuldades do curso e da escassez que nele havia de mulheres, do gosto que tinha no estudo, no rebuliço que as calças para mulheres causavam agora na cidade, das amigas com que viajava…

– Meu Deus! – exclamara, alarmada. – O tempo!

Veado levara-a no dorso, galopando, de tão alarmada ela ficara. Mal se apercebeu das dificuldades da travessia, acalmando apenas quando regressou ao lado que era o dela. O Sol não se encontrava tão baixo quanto na clareira, e as amigas ainda confraternizavam com o grupo de holandeses, as cartas voando nas suas mãos. Não tinham decorrido mais do que alguns minutos.

– Foste rápida – comentara Judite, mirando-a de cima a baixo. Já na altura lhe parecera desconfiada. Mas talvez fosse o conhecimento do que se seguira que a fazia recordar-se assim da amiga.

Nenhuma das duas tinha como saber que a partir daquele momento Judite caminhava para a sua morte.

gerês

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