Rui chapinhava nas águas da cascata Tahiti, barafustando para se libertar do colo da mãe. A filha insistia em ser ela a levá-lo para as águas mais fundas, apesar de Denise se ter certificado que o neto sabia nadar desde os dois anos de idade. O genro deitava os olhos pelo Público, sentado na toalha que tinham estendido numa das rochas mais afastadas e relativamente lisa. Àquela hora da manhã, ainda poucos disturbavam o ambiente de plenitude do local, preenchido pelo burburinho da cascata embatendo na água da lagoa, cercada de pedras e verdura. Não admira que se tenha aberto aqui uma passagem, pensou melancolicamente, afastando-se devagarinho e com cautela. Noutros tempos, saltara de pedra em pedra, mas naqueles teria de arcar com mais de uma esfoladela caso perdesse o pé e batesse de joelho no chão.

De súbito, estacou. Um “Ah!” meio gemido, meio sufocado, rolou-lhe pela garganta fora. Sentou-se ao lado da rocha de recordações, baixando-se com cuidado, os dedos enrugados passando levemente pela mancha que, sem saber, apenas ela via. Um tom irregular de vermelho, vermelho vivo, vermelho culpado, vermelho MacBeth. Teria chorado se ainda tivesse disponibilidade para tal. Mas não tinha. Sentir-se-ia como uma hipócrita.

Arrependi-me do que fiz, mas não o suficiente para o admitir àqueles que não o sabem.

A filha, o neto, o genro… Nenhum deles saberia. O marido não soubera, e deixara-a viúva sem o saber. Os amigos muito menos, e as autoridades… Denise não sabia bem dos assuntos legais, mas duvidava que tudo ficasse como estava.

E como explicá-lo? Jamais a acreditariam. Tomá-la-iam como uma louca, uma louca perigosa que desde a juventude se mantivera nas sombras de uma sanidade fingida, ou uma louca inofensiva que na velhice inventava histórias que não eram as suas.

Mas eram. Eram e são!

O furor da cascata pareceu recuar. Recuava no tempo, nos anos, nas rugas. Denise já não era uma velha de sessenta anos, obrigada a avançar lenta e inquieta sobre as pedras, aproveitando uma desatenção da filha, mas uma jovem de vinte a quem fora permitido acampar com as amigas, um voto de confiança e desafio sem iguais. Os cabelos negros balançavam no aprisionamento da trança, comprida e húmida pelos saltos prévios na água. Os olhos azuis fugiam uma e outra vez para o grupo de holandeses que levavam tanto a atenção quanto os risinhos das raparigas, sentadas nas pedras à beira-água num semicírculo, secando os fatos-de-banho recatados. Judite, a mais arisca, passava o óleo sobre as pernas, fingindo que não notava a atenção que os holandeses lhe retribuíam em especial. Sorria-lhes com condescendência em momentos calculados, baixando de seguida o olhar para a tarefa em mãos, como se o bronzeado tivesse incontestada primazia.

– Eles vêm para aqui – garantiu às outras. – Não aguentam ficar só a olhar.

– Vê lá o que fazes – advertiu outra, apesar do semblante risonho contrariar o aviso. – O teu noivo não ia achar piada.

– O meu noivo não tem com que se preocupar.

– Se o dizes… – provocou Denise. Ainda arreliavam Judite quando os holandeses se lhes juntaram, num golpe de coragem, trazendo consigo um Francês arranhado com que iam mantendo a conversa, sustentada a muitos gestos, risos, e palavras mal ditas.

Denise aborreceu-se ao cabo de hora e meia.

– Vou nadar – anunciou. Ninguém a ouviu, a concentração presa num jogo de cartas. Judite ainda lhe acenou, sem olhar, não assimilando inteiramente as intenções da amiga. De outro modo, nunca teria ido sozinha. Nunca a passagem se teria aberto.

A água arrepiou-a quando mergulhou, passando-lhe límpida pela pele. As bolhas de ar provocadas pelo embate envolveram-na, com cócegas ligeiras, infelizmente mais breves do que ela gostaria. Quando regressou à tona para respirar, o desafio cruzou-lhe a mente: tentaria chegar ao outro lado sem levantar a cabeça fora de água.

 Não julgara realmente que o conseguiria. Não era a melhor nadadora do grupo, nem aquela que mais tempo aguentava sem respirar. Os pulmões começaram a reclamar por oxigénio, os braços apressavam-se, as pernas batiam com maior rapidez. Denise obrigou-se a negar os instintos que a queriam levar para cima. Ainda não, ainda não precisava, conseguia aguentar mais um pouco, não necessitava do ar que lhe fugia em grandes bolhas… Não foi propriamente com elegância que saiu de água na outra margem, aspirando um golfada de ar com o ruído agudo dos desesperados. Arfando, deixou-se encostar na rocha, os braços cruzados debaixo da cabeça, o peito ligeiramente dorido, a cintura ainda dentro de água.

– Precisa de alguma coisa, menina?

Não voltaria a esquecer aquela primeira frase. Singela, límpida e prestável.

– N-não, obrigada – arquejou, a cabeça ainda apoiada nos braços. – Já está a normalizar.

Apenas passados alguns segundos é que levantou a cabeça, emudecendo ante a visão. A voz tinha-lhe dado a entender tratar-se de um homem, mas pouco a criatura tinha de humanidade.

Era um veado. Um veado de pêlo dourado e hastes avermelhadas.

gerês

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