– Mãe, não se esqueceu de nada?

– Não, filha – garantiu pacientemente a idosa, aceitando a ajuda para entrar dentro da autocaravana. A filha, na casa dos trinta, encontrava-se mais ansiosa do que ela própria.

– A medicação?

A velhota sentou-se na mesinha, virada para a frente, acomodando-se e apertando o cinto. Só então respondeu à filha, que pelo entretanto a chamara mais duas vezes, pressionando a rapidez da resposta.

– Tenho tudo, e um horário com aqueles que devo tomar, e as quantidades – assegurou. – Acalma-te, não é a primeira vez que vou acampar.

– Mas é a primeira vez que o faz comigo, e já com essa idade – retorquiu imediatamente a filha. – Não é tão jovem como era antes.

A idosa suspirou. A cada dia que passava, já não era tão jovem como antes. Nisso a filha tinha razão. Também não lhe podia criticar a preocupação excessiva, agora virada para o neto de quatro anos, visto que ela própria já se encontrava instalada. Era uma preocupação mais justificável do que a própria filha sabia – Denise já não tinha humor, suspeitava que nem saúde, para os desconfortos de um parque de campismo. Os insectos que a luz sempre chamava, os banhos públicos, a garotada mais velha a regressar da noite em risos altos, a garotada mais nova acordando-a pela matina com os gritinhos das brincadeiras, o abanar que qualquer movimento provocava dentro da caravana, a inexistência de privacidade, os caminhos de terra batida onde uma entorse espreitava… Podia ter dificuldades a lembrar-se em que dia da semana estava, mas não em enumerar as razões pelas quais acampar já não era uma actividade que lhe agradasse.

No entanto, não só não recusara como insistira na sua ida. O Gerês tinha esse efeito, esse poder. Não hesitara quando a filha lhe falara, meio a medo, da ideia. “É claro que vou!” exclamara, deixando-a pensar que a rapidez da decisão se devia a um desejo de passar mais tempo com o neto, ou a um temor de ficar sozinha na cidade. Denise nunca lhe contara, e a filha nunca soubera.

A caravana arrancou, avó e neto acomodados na mesa que servia para as refeições, frente a frente e de cintos postos, a filha e o genro na frente, discutindo como chegar, se com o mapa, se com o GPS. Tinham decorrido vinte e sete exasperantes “já chegamô?” quando o destino lhes deu o ar de sua graça.

– Viadó! – gritou o pequenino Rui, que entretanto conseguira a autorização da mãe para trepar para o beliche, espreitando pela janelinha superior. Denise sorriu para o neto.

– Não vais conseguir ver veados aqui, meu querido, eles escondem-se.

No Outro Lado a conversa era outra. No Outro Lado os veados não a temiam, não lhe fugiam e não se escondiam. Ela acabava sempre por lhes aceitar uma dança.

Mas isso foi há muitos anos atrás.

Agora nem podia ter certeza de conseguir alcançar o Outro Lado, quanto mais esperança de encontrar as criaturas de que se recordava. Elas não esqueciam e perdoavam com ainda menor facilidade.

– Quer café, D. Denise? – perguntou o genro, depois do primeiro jantar dentro do parque de campismo. Apesar de já ter caído a noite, a temperatura encontrava-se agradável o suficiente para que tanto eles quanto os vizinhos campistas tomassem a refeição ao ar livre.

– Não, obrigada, depois não durmo.

Não é que vá dormir muito já de mim, acrescentou mentalmente, recostando-se na cadeira. Com os pés, arrastou algumas das agulhas secas que caíam dos pinheiros, árvores altas e dominantes no parque, os responsáveis pela pouca privacidade que poderiam ter. O pinheiral mantinha-se como ainda se lembrava, verde e frondoso, a vegetação mais rasteira controlada devido ao uso humano, mas permitindo ainda uma variedade de azevinho, que deixara o neto delirante, ansioso por levar um bocadinho “pó Natale!”

Nada era muito diferente daquele dia há quase quarenta anos atrás, quando era uma jovem estudante de vinte anos, uma das poucas a tirar licenciatura, o orgulho dos seus pais e uma cabeça moderna. Só ela própria é que se modificara.

E a culpa fora sua.

Devia ter partilhado, reconheceu. Fui egoísta ao extremo.

Mas o que estava feito, feito estava. Não lhe restava muito mais do que tentar a sorte amanhã. Quem sabe…?

gerês

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