Os guardas levaram-me da cela, conduzindo-me pelo emaranhado de corredores da prisão até chegarmos a uma sala de paredes forradas a azulejo branco, exceptuando uma, envidraçada, de onde observavam familiares e amigos das vítimas que supostamente matei. Na minha inocência, esperei ver algum rosto conhecido, um amigo ou familiar que me tivesse vindo apoiar. Porém, depressa percebi que estava realmente sozinho. Fora abandonado por todos.

Levaram-me para o centro da sala e sentaram-me num cadeirão. Tiraram-me as algemas e prenderam-me os pulsos e tornozelos com as fivelas provenientes dos braços e pernas da cadeira da morte.

Um homem de bata branca entrou na sala e começou a inspeccionar os utensílios. De seguida espetou-me uma agulha no braço.

O pânico começou a apoderar-se de mim. E se o homem me tivesse mentido? E se tudo acabasse ali, naquele momento? Ia morrer por um crime que não cometi…

– Deseja dizer algumas palavras? –  perguntaram-me.

Abanei a cabeça em negação e fechei os olhos. Já nada podia fazer para evitar aquele cruel destino.

Senti a mistura letal a ser injectada no meu organismo. O meu corpo ficou dormente. Mantive os olhos fechados durante todo o tempo, incapaz de confrontar os rotos que observavam a minha execução, como se de um espectáculo se tratasse. De súbito, a dormência que sentia parou.

– Acabou… – alguém disse.

Acabou? Estranhei a proximidade da voz e abri os olhos. Para minha surpresa, vi-me do outro lado do vidro. O meu corpo jazia sem vida preso no cadeirão, e os guardas começavam agora a desapertar as fivelas.

Aturdido olhei em redor. Estava na sala com as restantes testemunhas que vieram presenciar a sentença. O homem não me tinha mentido!

Antes que alguém desse pelo sucedido, abandonei a sala o mais rápido que pude sem dar nas vistas. Dirigi-me para as casas de banho ao fundo do corredor. Ao entrar, deparei-me com o espelho. O rosto que agora via não era o meu, mas um de feições bem mais jovens. Aquele seria o meu novo corpo, pelo menos durante os próximos dez anos. Quando o contrato cessasse, o misterioso homem viria ter comigo para ceifar a minha alma, era esse o acordo. A verdade é que não me podia queixar, tinha conseguido mais dez anos de vida, bem mais do que ia ter se não tivesse aceitado.

A passo acelerado abandonei o recinto prisional. Aquele lugar dava-me arrepios.

Ao chegar à rua deparei-me com uma estrada movimentada: dezenas de carros circulavam a grande velocidade em ambos os sentidos. Do outro lado da via havia uma paragem de autocarros. O meu instinto dizia-me para me afastar daquele lugar o mais depressa que podia, por isso, assim que houve uma brecha no trânsito, atravessei.

Ia já a meio da estrada quando o vi. Do outro lado da rua, junto à paragem, o sinistro homem calvo sorria para mim. Foi a última coisa que vi antes de ser esmagado por um camião desgovernado.

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