Sentado na minha cela, saboreava aquela que sabia ser a minha última refeição. Apesar de sentir o estômago às voltas, dei mais uma dentada no naco de carne que tinha no prato. Continuo sem saber como dei por mim naquela situação. Parece que ainda ontem estava em casa, relaxado no meu sofá, a ver um programa qualquer na televisão. Se soubesse o que sei hoje, talvez tivesse perdido menos tempo agarrado ao ecrã e mais a aproveitar a vida.

Terminei a refeição e empurrei o tabuleiro para o canto da diminuta mesa. Levantei-me e sentei-me na pequena cama da cela, cujo colchão mal de me deixava dormir de tão duro que era.

Ao longo dos últimos meses perdi tudo. Família, amigos, emprego… Tudo me foi tirado naquela tarde em que a polícia entrou na minha casa, apanhando-me de surpresa. Ainda me lembro das palavras do agente que me algemou: “John Harris, está preso pelo homicídio de Emily Heart.” O meu choque foi tal que na altura nem tive reacção. Homicídio? Quem era Emily Heart? O que se passava ali?

Sentado na cama, inclinei-me para a frente e escondi o rosto entre as mãos. Mais uma vez tentei perceber como tinha sido envolvido em toda aquela situação.

Se ser preso por um crime que não se cometeu é mau, pior é quando se descobre que não era acusado de apenas um, mas de uma série de homicídios ao longo dos últimos dez anos. O perfil das vítimas era sempre o mesmo, raparigas na casa dos 20 anos, acabadas de chegar à grande cidade, à procura de emprego ou estudantes. Para a polícia eu não era mais do que um assassino em série, e por mais que eu tentasse explicar que tudo era um equívoco, que eu não conhecia nenhuma daquelas jovens, ninguém me ouvia.

Confiante de que os investigadores iam perceber a barbaridade que estavam a cometer assim que recolhessem mais provas, aguardei. Passaram-se semanas e eu fechado numa cela, em completo isolamento. Tirando o meu advogado, não tinha autorização para receber visitas.

No entanto, o dia em que percebi que estava realmente tudo perdido, foi no dia do meu julgamento. De alguma forma que não consigo explicar, vestígios do meu ADN foram recolhidos dos corpos das vítimas e dos locais do crime. Para piorar, a arma do crime estava escondida na cave de minha casa; como lá foi parar, nunca saberei. Foi nessa altura que o verdadeiro desespero tomou conta de mim. Perante tais provas, nada do que eu pudesse dizer iria mudar o meu destino.

Agora ali estava eu, sentado na minha cela a aguardar que alguém me viesse buscar. Tanto quando sabia, estava já tudo pronto para a minha execução. Dentro de uma hora, tudo iria terminar…

Ouvi passos ao longo do corredor. Vinham-me buscar. Um guarda aproximou-se das grades da cela. Para meu espanto, vinha acompanhado por um homem calvo que vestia fato e gravata.

– Tem uma visita – declarou o guarda.

– Uma visita? – olhei para o homem de fato e tentei recordar se o conhecia de algum lado. – Quem é este homem?

Sem me responder, o guarda abriu a cela e deixou-o entrar, voltando a fechá-la e seguida. Sem dizer uma palavra, afastou-se pelo mesmo caminho por onde viera, deixando-me a sós com o desconhecido.

– Senhor John Harris, tenho uma proposta a fazer-lhe.

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