Quando a história terminou, o silêncio vagueou pela sala, enquanto as labaredas dançavam na lareira, emitindo estranhas sombras que se estendiam nas paredes.

– É verdade, avô Jun? Isso aconteceu mesmo? – perguntou uma pequena de olhos grandes e cor de safira, num sussurro.

– Quem sabe? – O avô sorriu-lhe de forma amável, passando-lhe as mãos pelo cabelo. – Agora é hora de se irem deitar.

Quando as aconchegou na cama, ofereceu um beijo na fronte de cada uma, antes de apagar a luz fraca do candeeiro. Depois, dirigiu-se para o próprio quarto, rodando a chave e certificando-se que a janela estava bem fechada. Fazia-o sempre, desde aquilo que lhe acontecera em criança. Aproximou-se com passos hesitantes de uma estante onde guardava alguns dos seus livros favoritos. Escolheu um, de entre todos, de capa já antiga. O título era Viagem ao Centro da Terra. Âmbar adorara lê-lo. Encostou-o ao peito e dirigiu-se até à cama, cujo velho colchão chiou de queixume quando se sentou. Ficou naquela posição durante longos segundos, como quem tenta angariar a pouca coragem que se escondia nos recantos mais obscuros do espírito.

Por fim, apartou-o de si e abriu-o, sem precisar de procurar uma página em particular. Os folíolos secos e as pétalas murchas que tinham já perdido um pouco da cor observavam-no, sem olhos.

– Âmbar, prometi-te que um dia tentaria descobrir o que te aconteceu. Depois de ter contado a tua história às miúdas, sinto que esse dia chegou.

Tirou o ramo de alecrim do interior do livro e colocou-o no bolso do casaco de lã. Esperou até toda a casa cair em silêncio, e só aí se ergueu da cama. Desceu até à cave onde guardava a caçadeira e carregou-a.

Pouco depois saiu de casa, de lanterna na mão, e encaminhou-se para o Outeiro dos Alecrins, ao mesmo tempo que se protegia da brisa fria. Por aqueles lados não existia qualquer candeeiro eléctrico, era um local desabitado que nunca tivera tal privilégio e fora abandonado à escuridão.

A luz da lanterna varreu mais do que uma vez o interior do edifício, quando o velho Jun voltou a entrar nele ao fim de tantos anos. Nada se movia. O silêncio que habitava o solar revelava-se mais grave que o do exterior. Mais pesado, tal como se lembrava dele. Não se deteve então naquele piso, dirigindo-se para o superior com passos lentos e pensados. Pesava três vezes mais do que quando era criança, por isso temia que toda a antiguidade e podridão da casa ruísse.

Apesar do medo que lhe palpitava no peito, deixou a audácia tomar palavra e entrou no quarto onde Âmbar desaparecera. Como da primeira vez, encontrava-se vazio. Os braços das cortinas não se moviam como os vira outrora fazer, o que contrariava o vento da noite.

Esperou minuto a minuto, até que estes se tornaram horas. Contudo ninguém apareceu. A voz que lhe murmurava ao ouvido, dia após dia, e da qual nunca falara a ninguém, permanecia com ele, sussurrando-lhe ameaças, desejando amedrontá-lo com os males que poderiam ser causados aos que lhe eram queridos, se não saísse de imediato do solar abandonado aos ratos e às aranhas que dele tinham feito o seu próprio palacete. Porém agora não havia voz que lhe incutisse mais medo do que aquele que lhe palpitava nas veias. Se durante todos aqueles anos o quisera impedir de ir até ali, deveria existir uma razão importante. Talvez a própria voz temesse o que um velho louco poderia fazer, porque o tom aumentava dentro da sua cabeça, um aviso que desejava roubar-lhe a sanidade.

– Cala-te, não te quero ouvir – rosnou e, por impulso, a caçadeira disparou-se. O projéctil atravessou a janela e perdeu-se na noite, o seu voo fazendo companhia aos morcegos e às corujas.

O estouro sobrepôs-se por um momento aos gritos que lhe vibravam na cabeça, no entanto foi um instante fugaz.

– Onde estás? – exigiu saber, avançando até ao toucador que apresentava uma camada de pó ainda maior. Contudo, ali estavam os estilhaços, sete ao todo, e sem um grão de pó. Talvez houvesse quem os limpasse, e no entanto pareciam intocados. Mas deveriam ser mais. Âmbar quebrara um deles em pedaços mais pequenos. Parecia que esses pedaços se tinham reconstituído e voltado a ser um estilhaço uno. Não havia marcas de dedos, confirmou com a luz da lanterna. Ali, o pó desaparecia, tal como Âmbar desaparecera. Talvez…

Esticou a mão para os estilhaços e parou a poucos milímetros deles, hesitando. Se lhes tocasse, era provável que também ele desaparecesse. Mas não era aquela a única forma de saber o que acontecera à irmã? Não desejava levar aquela dúvida para o caixão, nem a cobardia, no entanto um só gesto poderia ser suicídio.

“Afasta-te, idiota!”, guinchou a voz dentro dos seus ouvidos, fazendo-o estremecer. “Volta para o calor da tua lareira, desaparece daqui!”

Apesar do aviso que as ordens poderiam conter, estas serviram apenas como incitação. Se a voz não queria, ele deveria fazê-lo. Sem esperar, Jun pousou a mão livre sobre os sete estilhaços de espelho, e desapareceu.

No exterior do solar, entre as ervas daninhas que minavam os canteiros, despontaram sete ramos de alecrim que agraciaram a noite com o perfume tão característico. Junto deles ajoelhava-se uma jovem mulher em cujo rosto não havia uma só ruga. No entanto as mãos trémulas que estendeu para as plantas tinham um número indefinido delas. Se a visse, Jun não a identificaria como sendo a bruxa que vira muitos anos atrás, transportando um cadáver ensacado. Mas esta também transportava um, que abandonara para poder contemplar as flores, de olhos inundados em lágrimas.

– Avisei-te para que não viesses, persegui-te os sonhos e o consciente – soluçou, quase se engasgando com as palavras. – Mas tocaste-lhe, e aquele maldito espelho estilhaçou-te a alma em sete partes para… para… melhor as devorar. Porque não só um estilhaço? – Afagou cada planta, ludibriando-se com a ideia de que ele poderia sentir o carinho que transmitia. – Só toquei num estilhaço e fui feita escrava do desejo por cadáveres de que ele sofre.

O vento soprou e com ele o canto de uma coruja encheu a noite. Os ramos de alecrim dançaram com aquele balanço, lembrando o quão efémeros eram.

– Quis-te são e salvo, longe do perigo, como um dia… como um dia… também me quiseste – confessou, não se importando que as criaturas da noite a escutassem. Seria castigada quando o ser do espelho soubesse o que fizera durante tantos anos. – E como nesse dia não te quis ouvir, também tu não me quiseste ouvir hoje, meu irmão.

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