“– Ma… mana? – chamou, olhando em volta, como se ela pudesse ter-se escondido naquela fracção de tempo. A única resposta que obteve foi o contínuo esvoaçar das cortinas rasgadas. – Âmbar, onde estás? Isto não tem piada nenhuma.

Abeirou-se do guarda-fatos, abrindo-o, vacilante, quase esperando que ela saísse lá de dentro com um salto para o assustar. Mas estava vazio. Depois espreitou debaixo da cama, como se fosse possível a irmã ter-se escondido lá, o que não era, já que para isso ela teria de passar por si. As lágrimas de medo despontaram-lhe nos olhos e Jun recuou em direcção à porta do quarto, sem tirar os olhos do seu interior. Porém, quando deveria passar a fronteira para o corredor, as costas chocaram com um bloqueio inesperado.

Estremeceu, rodando a cabeça aos poucos e erguendo os olhos aterrorizados para a nova presença. Cruzou-os com dois orbes intensamente verdes que o miravam com alguma curiosidade. Não era um fantasma, era uma presença até bastante sólida, como aquele encontrão podia testemunhar.

– O que fazes aqui, pequeno? – perguntou, arqueando duas sobrancelhas finas. – Isto não é lugar para criancinhas. Devias…

A jovem, porque era claramente uma mulher com pouco mais de vinte e cinco anos, deu-se conta da diferença que havia no quarto: os sete novos estilhaços, os resquícios que tinham marcado a ousadia de Âmbar. Passou por ele, arrastando atrás de si um saco enorme que lhe lembrava aqueles onde a mãe punha o lixo, e o que transportava no interior ostentava uma forma peculiar. Familiar. Jun observou o cabelo negro entrançado da mulher, que lhe caía até à cintura. Por entre os fios de cabelo despontavam ramos de alecrim florido que lhe emprestavam uma aura leve. O perfume que deixara atrás de si não era, porém, de alecrim. Pairava um fedor a podridão.

Viu-a acocorar-se junto aos pedaços de espelho e tocar-lhes com as unhas compridas e pontiagudas. As mãos encarquilhadas pelo tempo reflectiam uma velhice que não estava inscrita no rosto bonito. Do saco abandonado ao seu lado espreitava um pé de pele enegrecida.

– Não estavas aqui sozinho, pois não? – quis saber, sem o olhar, enquanto reunia cada um dos vidros com ambas as mãos em concha e os levava para cima do toucador.

Não houve resposta, porque Jun sentia que a língua lhe fora roubada. Por um momento pensara que aquilo era um membro da irmã, mas não, Âmbar era bastante mais pequena. Mas o que via não deixava de ser o que revelava ser: um cadáver real.

A mulher mirou-o de soslaio, examinando-o e percebendo facilmente aquele terror mudo. Sorriu. Todavia o trejeito no rosto não era amável. Um dos cantos dos lábios erguia-se, escarnecendo da criança. Endireitou-se e ajeitou as saias do vestido comprido.

– Sabes, é feio entrar na casa dos outros sem ser convidado. Chama-se invasão de propriedade privada, e quem o faz pode ser preso – declarou, levando uma mão ao cabelo e retirando um ramo de alecrim dele, estendendo-o na sua direcção. – Toma, a tua irmã.

Jun observou a oferenda, com um misto de incredibilidade e aquele mesmo terror que não se esvanecia. Ela dissera que aquilo era a sua irmã? Aquele frágil pedaço de planta? Mentiras… mentiras e mais mentiras de uma adulta má que também o queria meter dentro do saco e, talvez, matá-lo, dando-lhe com alguma coisa na cabeça. Recuou para fora do aposento, tropeçando em algo que aparentemente não estava ali e caindo para trás desamparado. Esfolou uma das mãos na madeira áspera, mas ignorou a dor.

– O que foi, pequenino intrometido? – perguntou, simulando um tom infantil. – Estamos só a fazer uma troca. Leva-a como recordação, antes que decida comer-te. – Atirou-lhe o ramo. A reacção dele foi imediata, saltando para o lado como se o toque daquela coisa passasse peçonha. Apesar de ele nunca ter percebido o que realmente poderia ser a peçonha. Mas era algo mau que revestia a superfície de muitos animais e plantas, segundo a mãe e a avó.

– És uma bruxa… – sussurrou num gemido aflito, recuando em direcção às escadas, antes de as descer atabalhoadamente. Caiu nos últimos degraus, esfolando-se ainda mais. Os olhos cheios de lágrimas procuraram a porta fechada e aquele entrave só aumentou a maré de pânico que parecia subir e inundá-lo.

Uma súbita gargalhada malévola fez estremecer o que restava dos vidros e a criança não se demorou a abrir a porta, escapando-se para o exterior soalheiro. Precipitou-se pelo caminho, derrapando nele, e chegou à aldeia tão depressa como nunca antes. Mas ainda assim pareceu-lhe ter levado uma eternidade a alcançar a segurança. Quando passou a porta de casa e teve coragem para contar tudo o que acontecera, ninguém quis crer na sua história. Porém, logo a noite cobriu a aldeia sem Âmbar regressar a casa. Não apareceu nesse dia, nem em nenhum outro.

Quando o rapazinho se fechou no quarto para chorar livremente, um ramo de alecrim caiu imóvel junto ao soalho atapetado. Arregalou os olhos. Tinha a certeza que fugira dele quando a mulher de mãos mirradas o atirara. Com cuidado, apanhou-o do chão, relembrando as palavras que ela lhe dissera. E se fosse mesmo a irmã transformada em planta? Nunca veio a saber, mas guardou-o, incapaz de se livrar dele.

Daí em diante, aos olhos dos aldeões, Jun tornou-se um rapaz perturbado, que criara toda uma história para fantasiar o rapto da irmã. Mas só ele sabia a verdade. Só ele. Agora é somente um velhote que conta histórias às netas. No entanto, virá algum dia a saber o que realmente se passou no Outeiro dos Alecrins?”

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