Patrícia fechou a projecção dos controladores com um gesto brusco, desapertou as correias que a prendiam ao lugar e deixou-se flutuar. Os cabelos ruivos desgrenhados caíam-lhe sobre os olhos, escondendo os princípios de lágrimas que se formavam. Abriu o canal de comunicação com a sala das máquinas e disse para o microfone.

– Nada, Marco, não consigo captar nenhuma frequência de comunicação. A antena deve estar danificada. Como vão as coisas por aí?

Após alguma estática inicial, a voz ofegante do marido de Patrícia anunciou:

– Já consegui restabelecer a atmosfera nos compartimentos afectados. Perdemos três tanques de purificação de ar e o propulsor não pode ser reparado com os recursos locais.

A mulher suspirou.

– Se tivéssemos ido pela rota regulamentar, nada disto tinha acontecido.

– Não. Se a minha querida mulher não tivesse alterado à última da hora a escala de serviço, não tínhamos saído atrasados e não precisaríamos de alterar a rota – ripostou Marco, revirando os olhos.

Patrícia cruzou os braços e sentou-se no ar, comprimindo os lábios numa expressão de irritação.

– Sim, acredito que ficarias muito mais feliz com a escala de serviço anterior.

– Teria sim senhor. Sabes que elas não estão feitas ao acaso. Estou muito mais habituado a voar com a Sara do que contigo.

– Ainda estou para tentar perceber o que é que a Sara tem de melhor que eu.

– Olha…por exemplo…sei lá…Sabe fazer uma manobra de evasão. Não espatifa uma nave só porque encontrou uma nuvem de pequenos meteoritos que não estava mapeada.

– Ou talvez por ela ser dez anos mais nova e andar caidinha por ti… Estou apenas a especular – respondeu sarcástica.

Do outro lado do comunicador, silêncio. Patrícia abriu de novo o painel de controlo e um quadrado azulado surgiu a flutuar à sua frente com um desenho esquemático da nave. Introduziu as informações que o marido lhe dera nas sub-rotinas de cálculo do sistema operativo da nave. Enquanto esperava, ordenou que lhe fosse mostrado o exterior da nave. Um novo quadrado azul surgiu, emoldurando a imagem de um universo estrelado. Patrícia indicou com a mão para que lhe fosse dado outro ângulo e na imagem passou a figurar o maior planeta do sistema solar. Atrás de si a escotilha abriu-se e Marco entrou no compartimento, colocando-se ao lado da mulher a olhar para o gigante gasoso.

– Trocaste a escala de serviço porque estavas com ciúmes da Sara.

Patrícia rodou sobre si própria, oferecendo as costas ao homem.

– Marco, já há muito tempo que deixei de ter ciúmes de ti. Rita, Inês, Marcelina, Marília, Pedro, mais uma Luísa, menos uma Luísa para juntar à lista não me faz diferença.

– Patrícia, eu não tenho nada com a Luísa. Para além disso, tu eras a única pessoa que alguma vez amei na vida, já te disse mil vezes.

– E isso faz-me sentir tão melhor Marco, nem imaginas… – A sua voz era ácida como fel. – A cabeça de cima só me ama a mim, mas a de baixo ama toda a gente! – exclamou com um sorriso falso, abrindo os braços. – De qualquer maneira, isso agora não importa. Já não importa nada. Estamos à deriva no espaço.

Marco engoliu em seco, digerindo as palavras da mulher. Quebrou o silêncio, dizendo:

– Quais são os recursos que nos restam?

– Segundo a última simulação temos uma semana de oxigénio, três semanas de mantimentos e água, se aplicarmos racionamento, e três dias de energia. No entanto…hmmm… se eu desligar todos os sistemas não essenciais e restringir o suporte de vida a esta sala, devo conseguir ter energia suficiente para posicionar os painéis solares. Se tivermos sorte, deixamos de ter problemas com a electricidade. Preparado?

Marco acenou positivamente com a cabeça. A escotilha trancou-se automaticamente, as luzes desligaram-se e a temperatura começou a baixar. Em vez dos comandos digitais, Patrícia operava agora os manuais, tentando alocar a energia necessária para os painéis solares que se desdobravam no exterior da nave. No meio da escuridão, apenas as mãos de Patrícia se viam iluminadas pelas ténues luzes dos botões em que carregava.

– Não temos potência suficiente. Vou desligar o desumidificador do ar, baixar a temperatura até aos zero graus célsius e desligar a reciclagem do ar. Faz figas para que os painéis ainda funcionem.

A tiritar e às apalpadelas, Marco flutuou até à cavidade onde dormia e desprendeu o saco cama da parede para o ir enrolar sobre os ombros de Patrícia. Desligados quase todos os sistemas, não havia som nenhum dentro da cabina sem ser o da respiração do casal. As paredes vibravam à medida que os painéis ganhavam as suas posições. Fora isso, o silêncio reinou durante longos minutos.

– Patrícia?

– Sim?

– Amas-me?

– Não.

– Alguma vez me amaste?

– Sim.

– Estou uma pessoa assim tão diferente desde a altura em que me amavas? Tudo o que vivemos em conjunto, todas as nossas lutas e conquistas, não são nada agora?

Marco sentiu o corpo de Patrícia a aproximar-se do seu, a encostar-se levemente, com uma lentidão que só um volume à deriva sem gravidade poderia ter. Ela tremia. Seria de frio? De medo? De nervosismo?

– Tenho frio, Marco. Abraça-me como me abraçavas quando ainda não estavas farto de mim.

Marco envolveu a mulher por trás, apertando-a contra si. O cheiro a suor fez-lhe lembrar as noites de sexo que haviam tido em quase todos os planetas habitados. Lembrou-se da solidão do espaço, que ao início conseguia preencher com o que existia entre si e Patrícia, mas que aos poucos se foi tornando maior, afastando-os. Não, não fora a solidão do espaço. Não foram as longas missões juntos em que tinham de partilhar durante semanas uma pequena cabina. Para Marco, se havia alguém com culpa no falhanço da relação, era ela.

– Nunca me fartei de ti – disse Marco. – Tu é que estavas sempre longe de mim. Quando decidiste voltar a estudar, raras eram as vezes em que tínhamos missões juntos, raras eram as vezes em que sequer nos encontrávamos. Se soubesses o quão sozinho me sentia… O vazio que tinha dentro de mim. Tentei preencher esse vazio, mas quantas mais pessoas conhecia, mais me apercebia que era a ti que eu queria.

Patrícia desfez o abraço e empurrou Marco, que deslizou até bater na parede do compartimento

– Estás a desculpar a tua infidelidade com o facto de te sentires sozinho? Inacreditável! O que esperavas de mim, desperdiçar todo o meu potencial numa carreira de piloto base? Vê onde cheguei e onde tu estás.

Marco percorreu o espaço cego de mãos esticadas, tentando encontrar Patrícia de novo.

– Duvidei que alguma vez gostasses de mim. Não fui tido nem achado quando voltaste para a academia. Senti-me abandonado. Senti que tinhas fugido de mim. Senti que tinhas fugido de nós.

Patrícia não respondeu, porém Marco conseguia ouvi-la tremer de frio. Ela estava ali, mesmo à frente dele, parada, a pensar no que o marido lhe dizia. Sim. Tinha fugido. Tivera medo de ficar ligada para sempre a alguém. Entrara em pânico quando pagaram a primeira prestação de uma casa na Terra para passar a velhice que só viria dali a muitos anos. Perdera o controlo quando Marco apontara no calendário a melhor data para fazerem um filho. Um filho que nunca seria gerado em todos os anos de casamento.

Patrícia estendeu a mão e tocou na face do marido. Depressa a mão deslizou para o pescoço que puxou contra si para depositar um beijo naqueles lábios que há anos não sentia. Quando o beijo se desfez, disse:

– Desculpa ter fugido de nós.

– Perdoa-me não ter sido o marido que merecias.

Beijaram-se uma vez mais. A luz voltou. Um a um os sistemas foram-se ligando, aliviando a atmosfera que se havia tornado densa. Os painéis solares estavam na posição correcta e a funcionar, informou o monitor azulado que ressurgiu projectado no ar.  Um sorriso abriu-se no casal, que se precipitou ao mesmo tempo para os controlos da nave.

– Temos energia suficiente para enviar uma sonda de socorro para Ganimedes! – exclamou Marco, para logo o entusiasmo lhe morrer na voz. – No entanto, mesmo que consiga lá chegar numa semana, até o socorro chegar às nossas coordenadas, ainda vai demorar alguns dias.

– Não perdemos nada em enviar – disse, digitando a sequência de lançamento do pequeno drone. – Eu confio em ti, hás de arranjar uma solução para arranjar os tanques de purificação. Não é?

– Sim… – murmurou, perdido nos seus pensamentos. – Há de se arranjar uma solução…

– Eu sei que sim – disse, tentando conter as lágrimas que teimavam em voltar. – Mesmo que não, foi bom ter-te reencontrado antes de ir.

Num esticão, o rosto de Marco iluminou-se de entusiasmo e nervosismo.

– Sabes, há uma coisa que eu posso fazer que irá aumentar a possibilidade de sobrevivência.

– A sério?! Conta.

– Não há tempo, tem de ser agora, o mais rápido possível. Vou lá fora.

Sem mais palavras, após normalizar a atmosfera do outro lado, abriu a escotilha e percorreu o corredor até ao módulo de acesso ao exterior. Na sala de controlo, Patrícia voltou a ligar a câmara para o exterior. Que solução teria o seu marido arranjado? O quadrado azul foi aumentado para o tamanho máximo. No exterior, vestido com fato de astronauta, Marco percorria a nave agarrado às pegas dispostas para o efeito. Fez sinal de OK para a câmara e sorriu. Sobre a bochecha, uma lágrima solitária escorria. Carregou a fundo nos propulsores do fato e voou para longe. Sem atrito nem âncora, Patrícia sobre nesse momento que seria a última vez que veria o seu marido.

No computador de bordo, a actualização dos cálculos: duas semanas de oxigénio, seis semanas de mantimentos e água e energia ilimitada.

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