“O segundo piso carecia em iluminação. Qualquer janela que houvesse estaria escondida dentro dos quartos, a maioria de porta fechada, ou quase.

– Mana, talvez já esteja na hora do lanche, é melhor voltarmos. – Era uma fraca forma de dissuadir Âmbar de prosseguir. – Ou a mãe vai chatear-se connosco…

– Nós acabámos de chegar, não sejas totó.

Continuou, sem esperar por ele. O rapaz, não querendo ser deixado sozinho, correu três passos rápidos, colando-se aos calcanhares da irmã que empunhava a arma de brincar, como se pudesse vir a utilizá-la a qualquer momento.

Encostaram-se à parede suja, adjacente à primeira porta entreaberta do corredor.

– Aos três, empurramos a porta para trás – avisou Âmbar, relanceando o irmão por um segundo. – Um, dois… três!

Com um golpe de pé, a rapariga abriu a porta que bateu contra alguma coisa mole. Um súbito guincho estridente recebeu-os e eles gritaram em uníssono. Instantes depois, uma ratazana saltou para fora do aposento e precipitou-se para longe dali a toda a velocidade, tão assustada ou mais que eles. Fecharam a boca, preferindo não comentar o sucedido, de rostos enrubescidos pela vergonha. Não tinham surpreendido qualquer alma penada que tivesse morrido ali e cujo cadáver pudesse ter sido escondido num guarda-fatos…

Entraram, mirando o espaço com atenção. As cortinas retalhadas das duas janelas lembravam a Jun braços inertes que algum assassino psicopata se dera ao trabalho de pendurar como um enfeite de requinte. Também lhe lembrava que não deveria ver filmes de terror às escondidas, quando o deixavam sozinho em casa. A brisa vinda do exterior agitou aqueles membros, conferindo-lhes um pouco de vida. E se tivessem a capacidade de se esticar para os estrangular? O rapaz passou uma mão pelo pescoço ao imaginá-lo.

– É um quarto – constatou Âmbar, aproximando-se da cama e espetando a espada no colchão deteriorado. – E tem um guarda-fatos!

Ela correu para o novo alvo, enquanto o irmão tentava esquecer as suas ideias, desviando o olhar das cortinas e deparando-se com os restantes pormenores. Não era um espaço muito grande, mas não faltava nele mobília velha. Aproximou-se de um toucador coberto de pó, atentando no espelho de parede partido cujos estilhaços cobriam a sua superfície. Não os contou de propósito, mas ao fazê-lo percebeu que eram sete.

– Um bocado para cada ano de azar – sussurrou para si, ficando com pele de galinha.

Âmbar olhou para trás ao escutá-lo. Entretanto já abrira o armário e confirmara a inexistência de um morto.

– O que estás para aí a magicar? – perguntou, espreitando por cima do ombro dele, em bicos de pés. – Uuuh! Um espelho partido! Pode ser a nossa resposta. O fantasma pode tê-lo quebrado quando estava vivo, e até pode ter morrido com algum pedaço mais cortante.

Jun abanou a cabeça, como se quisesse tirar as palavras da irmã de dentro dos ouvidos. Ela fizera questão de lhe pôr mais imagens sangrentas no cérebro. Quando voltasse a casa e fosse dormir, iria molhar o colchão, era certo.

Curiosa, a rapariga estendeu a mão para um dos pedaços de vidro, mas ele agarrou-lhe o braço de súbito, impedindo-a de lhe tocar.

– Ainda te podes cortar – advertiu, ainda com a imagem em mente de um espectro assassinado de cujo peito floria uma arma afiada.

– Sim, mãe, claro que posso – ironizou, livrando-se do aperto dele com uma sacudidela brusca. – Pára de ser assim. Só me corto se não tiver cuidado e eu tenho cuidado, não sou nenhuma bebé como tu.

Jun encolheu-se um pouco, sentindo aquelas palavras como ofensas. Ela que fizesse o que lhe apetecesse, porque ele ia para casa. Estava cansado daquela brincadeira, cansado de ser considerado medricas… e cansado de ter medo e de mal conseguir respirar. Voltou-lhe as costas sem mais nenhuma palavra, esperando que a irmã apanhasse um bom susto antes de regressar para casa a correr.

Dera dois passos quando a ouviu remexer nos estilhaços de vidro. E avançara somente mais um, quando um gritinho lhe chegou aos ouvidos e o pedaço de espelho caiu ao chão com espalhafato, partindo-se. Olhou para trás, abrindo a boca com intenções de lhe dizer “eu avisei-te!”, mas esta manteve-se aberta sem que nada fugisse do interior. Âmbar já não estava junto ao toucador poeirento. Não estava em lado nenhum.”

Imagem para todas as partes

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