Um mal nasceu naquele momento.

Não precisou de muito, uns segundos, meia dúzia de palavras, Não sei se já ouviste, mas…

Era uma criatura fraca, uma sombra ainda muito esbatida. Sem que o jovem soubesse, agarrou-se-lhe à pele do peito como uma carraça ao cachaço de um cão. Ele não se encontrava presente no momento do tenebroso nascimento, mas o mal não olhava aos detalhes. Saltou directamente daquela copulação entre linguagem e audição para se lançar sobre o rapaz.

Ele também não se encontrava presente em todos os momentos do crescimento do mal – e rápido que este foi! Quem não sabia contou a outro que não sabia. Quem já sabia acrescentou pormenores que passaram todos a saber. Ao fim do dia, era uma vila inteira que sabia.

Excepto o rapaz. O rapaz não estava na vila, passava a semana fora. Estudava – Não sei se já sabes, mas não estuda. Disse aos pais…

O mal lambuzava-se. Guloso, desejoso de mais, desencantara maneira de se infiltrar pela pele do rapaz, alojando-se-lhe no interior. O rapaz julgara que estava gripado. Depois cansado. Cortou nas saídas. Deitou-se mais cedo. Aqueles apontamentos para ler poderiam ser lidos no fim-de-semana. No dia seguinte pegou-lhes. Voltou a deitar-se à hora do costume. Parecia que o peito lhe pesava. Mas não estava cansado, nem se assemelhava a gripe. Talvez se tratasse de alguma estupidez humana que poderia muito bem ignorar.

O mal ter-se-ia rido caso o pudesse fazer. Lá longe, na vila, era ainda alimentado. Ouviste sobre o filho dos Teixeira? Diz que deixou os estudos, engravidou a namorada e agora… O mal espraiava-se, tomando a pouco e pouco o rapaz. Não lentamente. Era um mal de nascimento afortunado, rápido como o estalar do som. Parece que o miúdo dos Teixeira engravidou uma rapariga que não era a namorada. Os pais dela ameaçaram-no e vai ter de deixar o curso para sustentar a criança. Consegues imaginar? A pobre rapariga…

O rapaz ouviu tudo quando regressou à casa dos pais para passar o fim-de-semana. Encontrou-os transtornados, agindo com ele quase como um par de maus actores numa peça que não tinham memorizado convenientemente. Estranhou os olhares de fugida, os sorrisos de viés e a atenção que subtilmente parecia atrair. Não se recordava de tantas amigas da mãe pararem para o cumprimentar. Não se recordava de lhe ser permitido tão largo espaço de resposta à mundana pergunta “E então os estudos?”, muito menos da decepção ou censura que o esperavam depois do igualmente esperado “Vão bem, muito bem. E o seu neto?”

Viste-o hoje? Parecia tão normal, a agir como se nada se tivesse ter passado. Não está nada arrependido, garanto-te! Imagina só o mau-carácter, nunca diria, quando o vi crescer, que daria nisto…

A mãe debulhara-se em lágrimas. O mal também se lhe pregara, a ela e ao pai, insuflando-se com os seus receios e vexames. Não, não acreditava que fosse verdade. Não, claro que não, confiava no seu menino, mas haveria alguma hipótese de…? Não, claro que não, o rapaz ter-lhe-ia contado. O filho tinha razão, não tinha razão para duvidar. Desculpou-se e ele perdoou. Julgou ignorar o assunto, desconhecendo o mal que já lhe sugava o tutano. Ela disse que não? Com certeza que o disse, que esperavas? É a mãe, pobre mulher, uma mãe vai sempre pelos seus… O peso tornara-se palpável, ganhando forma, razão e medida. Descoberto, o mal crescia no seu apogeu – juntavam-se-lhes, ao pão de cada dia, a ironia enraivecida e o desprezo irado. O jovem não reagia, afinal, com a apatia que desejava. Queria cuspir. Queria esbofetear. Queria… queria… Mas nenhum deles sabia do mal que fazia. Tomavam-lhe a vida como conversa de café. Discutiam-lha lado a lado com a Maria das Flores da novela das dez. Alheavam-se das consequências, da distinção de humanidade. Mas quem é afinal a rapariga? A namorada ou uma outra? Três? Envolveu-se com três ao mesmo tempo? Ai este rapaz, este rapaz… E o curso, que tanto custou a conseguir entrar, lá se foi, pois, lá foi…

O rapaz perdera um ano. Chumbara e teria de repetir – não abandonaria a faculdade, não recebera quaisquer ameaças, não engravidara o útero de ninguém. Perdera um ano.

O mal morreu. O alimento que lhe davam chegava, ainda, em algumas migalhas, mas o rapaz deixara de se incomodar. O hospedeiro rejeitava-o na sua totalidade – não sobreviveu. Liquidificou-se e escorreu, negro, da pele do rapaz. Evaporou. Subiu e tornou a cair. Rápido, afortunado.

Outros rumores o renasceriam.

 Cochicho

Anúncios