“Há muito tempo atrás, no Outeiro dos Alecrins, foi construído um solar que se diz assombrado. É avistado da maioria das casas da aldeia como um monumento deixado às ervas e, apesar do nome, ninguém testemunha que algum dia tenham existido alecrins nos terrenos em redor da moradia.

Âmbar é o nome de uma jovem que há muito foi dada como desaparecida. As vozes do povo dizem que foi levada num carro preto por dois senhores que a aliciaram com doces, porém esta é só uma mentira que se conta para amedrontar as crianças. A verdade é muito mais assustadora.

No dia em que Âmbar desapareceu, ela saíra com o irmão mais novo, Jun, para uma das suas tardes de brincadeira. Tinham decidido não ir atormentar os velhotes mas sim praticar um acto mais aventureiro. No mapa da aldeia improvisado com papel de cozinha, que usavam nas suas explorações, traçaram o próximo destino com uma cruz: o Outeiro. Ambos iam munidos de espadas de pau para combaterem os espíritos malignos que pudessem habitar a mansão. Correram pelo caminho estreito, encobertos pelas sombras agradáveis das árvores de fruto, e remeteram por um trilho quase invisível pela falta de uso, que rapidamente os deixou à entrada do solar.

Âmbar e Jun observaram o forte dos inimigos. O pequeno chegou mesmo a pegar numa pedra e atirou-a pela janela de vidro partido. Escutaram somente o barulho do objecto aos trambolhões pelo chão de madeira, mas nada mais.

– Acho que podemos avançar… – sussurrou Âmbar, por cima do chilrear dos pássaros. O irmão concordou com um breve aceno e expressão séria.

De costas baixas e com passos silenciosos, correram até à porta principal, cuja fechadura há muito deixara de funcionar. Abriram-na com cuidado e espreitaram através de uma fresta para o interior vazio. Entraram muito depressa e fecharam a porta atrás de si que, ao contrário do que esperavam, não os brindou com o típico chiar arrastado de casa assombrada. Um mero olhar em redor revelou o que os raios de sol iluminavam parcamente: um interior abandonado ao pó, às térmitas e às aranhas que tricotavam nos cantos teias intrincadas.

– Mantém-te atenta, eles podem estar em qualquer lugar – sussurrou Jun, crispando os dedos no punho tosco da espada.

– E podem disfarçar-se de mobília, ou esconder-se nas sombras. – Âmbar lançou um olhar desconfiado a uma cadeira à qual faltava a perna dianteira esquerda e cujo estofo estava roto. – Podem ser qualquer coisa… é melhor começarmos a procurá-los neste andar.

Vasculharam cada canto sem encontrarem nada suspeito. Talvez estivessem prestes a descobrir que os boatos para assustar crianças eram somente isso, assim como já tinham descoberto que nem o Pai Natal nem o Coelho da Páscoa existiam. E com todas essas descobertas, sabiam também que os adultos eram uns grandes mentirosos.

Deixaram a cozinha como último compartimento a investigar e, mal lá chegaram, lançaram olhares de receio a uma passagem sombria de porta escancarada. Aproximaram-se só o suficiente para mirar as escadas que desciam e se perdiam na escuridão.

– É… é melhor deixarmos a cave para um dia em que trouxermos os primos – ponderou o irmão. Ambos tinham uma inconfessada fobia ao escuro. Qualquer coisa poderia habitar aquele espaço, talvez uma criatura de garras afiadas que esperaria paciente por criancinhas aventureiras. – Vamos para o piso de cima!

Pegou na mão livre da irmã e arrastou-a dali para fora. Voltou a cabeça para trás somente uma vez, e isso só o fez acelerar o passo, ao deparar-se com dois olhos amarelos de pupilas fendidas que os espreitavam. Dois olhos sem corpo.

Quando chegaram à base das escadas, já no hall de entrada, Jun suspirou com algum alívio. No entanto a pontada de medo infiltrara-se como um espinho que se esconde na carne e se aprofunda mais de cada vez que o tentava remover. Âmbar olhou-o de soslaio.

– Já com medo, mariquinhas? – Quis saber, erguendo uma sobrancelha em modo de desdenho. – Ainda mal começámos.

Tocou com a ponta da espada nas escadas, como que testando a sua veracidade, não fosse uma ilusão criada por um espírito matreiro. Confirmou que eram sólidas, antes de dar o primeiro passo. A madeira rangeu em modo de ameaça, o que fez Jun encolher o pescoço entre os ombros. Infelizmente para ele, não era uma tartaruga com carapaça onde se esconder. Mas de que serviria tal casota contra seres do outro mundo?

Seguiu então a irmã, ponderando cada passada e olhando para trás por várias vezes, como quem espera uma perseguição iminente.”

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