Dia após dia a voz de Esperança ecoava pelo mar. Entranhava-se nas ondas, submergia e agarrava-o pelo pescoço. Forçava-o a prender-se, para não nadar até ela. O timbre agudo da sua voz penetrava-lhe os tímpanos e disparava direito ao coração. Fustigava-o como nunca, nada jamais havia tido esse poder. Alamar não iria até ela.

Determinado a esquecer, tombou sobre outras rochas, noutras praias, do outro lado do Oceano Atlântico, apenas para retornar quando a sua força de vontade estava presa por finos fios e o seu intento pouco mais era que uma pálida recordação do selkie que fora.

Esperança cantava à beira dos rochedos, indiferente às ondas que fustigavam a costa e ameaçavam colhê-la a qualquer instante. Observou-a por um momento, aquele que demorou até os olhos dela se abrirem e o verem no mar. Um momento em que uma onda recolhia força e descia, arrastando-a para dentro de água.

Ele mergulhou capturando Esperança nos seus braços e trazendo-a à superfície.

– Alamar? – ela perguntou, com sofreguidão.

– Estou aqui. – murmurou, beijando-lhe a testa.

– Onde estiveste?

– Longe.

– Porquê?

– O perigo, Esperança…

– Não me largues… – ela murmurou, colocando os braços à volta do seu pescoço.

Alamar nadou para terra, com Esperança envolta num abraço apertado. Impulsionado pelas ondas, saiu do mar e depositou-a numa das rochas mais longe da água. Tentou afastar-se mas Esperança cravou os dedos nos seus antebraços puxando-o para si.

– Não vás… – suplicou.

– Como posso?

Ceder a tamanho portento foi mais fácil do que qualquer um deles julgara possível. Esperança entregou-se, de corpo e alma, a Alamar. O instinto insurgindo-se acima de tudo, arrastando-os para o prazer e a exaustão. Com uma sensação de perfeita reunião permaneceram nos braços um do outro até o dia clarear.

– Tenho de ir e tu deves ficar.

– Não! Prometeste.

– Esperança… não sabes.

Alamar desembrulhou-se do abraço e aproximou-se do mar, mergulhando sem olhar para trás.

– Espera! – Esperança gemeu, correndo atrás dele e precipitando-se sobre a orla.

A água envolveu-a, aceitando-a nas suas profundezas. Acolheu-a como um ser perdido que regressa a casa. Alamar nadou para ela, lutando contra a maré que antes o favorecera e que agora nada mais era que uma barreira entre ele e a humana que o cativara.

Esperança tremeu, esperneou enquanto os pulmões se enchiam de água salgada e, por fim, flutuou de olhos prostrados em Alamar que combatia furiosamente a parede invisível formada pelo mar. Os longos cabelos claros boiavam em seu redor, os olhos abertos fixavam-no, a boca aberta soltava minúsculas bolhas de ar.

Alamar, vencendo por fim a distância que os separava, agarrou-a pela cintura e tentou puxá-la para a superfície. Mas o leito do mar clamava pela sua vítima, invocando a sua presença na escuridão salgada.

Despediu-se dela com um beijo nos lábios e deixou-a ir. Observou-a, enquanto se afundava, até desaparecer no recanto onde a luz nunca penetra e a magia dos selkies a protegeria para sempre. Afinal, Esperança sempre seria a sua primeira.

conto_selkies

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