Ludovic olhou indeciso para as árvores em redor, perguntando-se qual delas escolher para falar. Acercou-se do tronco mais próximo.

– Árvore? – perguntou, por falta de nome mais específico. Nada aconteceu. – Preciso de falar convosco. Respondei-me, por favor.

A única resposta que obteve foi a do vento, soprando álgido. Deslocou-se então até outra árvore e tentou falar com essa também. Aconteceu o mesmo. O espírito parecia já não estar ali. Ludovic sentiu-se como que abandonado e um vazio estranho dominou-o. Era só uma árvore, não era? Porque haveria de se sentir assim? Contudo, durante aqueles últimos dias não a considerara tanto como uma planta mas como uma donzela. Aconchegara-o no seu corpo como se fosse uma, dera-lhe um carinho que há muito não sentia vindo de alguém, e de modo tão desinteressado! E agora parecia ter desaparecido. Abanou a cabeça, tão desiludido como se fosse uma verdadeira mulher a deixá-lo para trás, fugindo para os braços de outro, talvez um viajante perdido que necessitasse do seu auxílio.

– Prometi-lhe um beijo – sussurrou para si, com a mão apoiada no tronco. – Espero que o sinta.

Aproximou os lábios do tronco repleto de nós, pousando-os levemente na casca áspera por alguns segundos. Quase que esperava sentir outros lábios corresponderem àquele beijo, mas tal não aconteceu.

– Adeus – sussurrou, fazendo uma última festa no tronco, antes de voltar costas. Os passos que o levavam para longe eram lentos, em comparação com aqueles que já caminhara.

Quando abandonou a floresta, olhou para trás, como última despedida. No entanto, as sobrancelhas ergueram-se quase de modo próprio ao ver uma jovem a observá-lo da fronteira que separava a floresta das restantes terras níveas. O cabelo negro, comprido e desalinhado emoldurava-lhe o rosto claro e delicado. A cor de safira do seu olhar alcançava-o, mas não se moveu para ir ter com ele. Era uma imagem triste e solitária, de pés descalços, dentro de um vestido branco que se camuflava com a neve, lembrando um fantasma a adejar na brisa. Fora o beijo que a fizera surgir?

Ludovic hesitou por um segundo antes de dar meia volta e correr para aquela figura frágil. A donzela desconhecida piscou os olhos, sem compreender porque corria ele daquela forma, enquanto os braços fortes se abriam. Nunca ninguém lhe fizera aquilo. Todos fugiam quando a viam. Sentiu-se abraçada de um modo um pouco bruto, mas terno, e encolheu-se contra aquele corpo másculo, estremecendo de frio pela primeira vez em muito tempo.

– Vem para minha casa, estás tão gelada – notou Ludovic, sem a largar. Esquecera-se já das formalidades. – Vem comigo, quero agradecer-te por tudo.

Ela abanou a cabeça, sem dizer uma palavra. Dentro da sua mente, escutou a voz feminina com que a árvore sempre lhe falara.

“Não posso ir. O vosso beijo foi o suficiente, nobre senhor”.

– Não aceito – declarou com firmeza. – Diz-me o porquê de não poderes.

Apartou o abraço para a poder fitar nos olhos. Estes desviaram-se dos seus, sem lhe dar resposta e ficaram um pouco mais brilhantes, revelando as lágrimas que tentava conter. Ludovic agarrou-lhe o rosto com ambas as mãos.

– Fica comigo, deixa-me cuidar de ti. O que te prende a este sítio? Permite-me que quebre essas correntes – implorou. Lembrava-lhe tanto uma criança perdida. A donzela abanou simplesmente a cabeça. – Então fico contigo na floresta.

Os olhos azuis da jovem arredondaram-se, completamente estupefacta ao ouvir aquilo.

“Porque… porque faríeis isso?!”, quis saber, sem abrir os lábios sequer.

– Porque, de agora em diante, és a senhora do meu coração – respondeu, encontrando-lhe os lábios para um novo beijo apaixonado. A noite e a neve de Inverno eram testemunhas da sinceridade daquele sentimento.

Como nenhuma das suas palavras mentia, quebrou-se assim o encantamento que prendia a jovem donzela à floresta, fazendo-a vaguear de árvore em árvore, como uma guardiã e prisioneira que espera a hora de partir nos braços de quem ama. Na aldeia receberam-nos de olhares desconfiados, contudo, com o passar dos anos, a estranha jovem que não falava integrou-se, graças à sua bondade.

Não obstante, a Floresta continuou com todas as suas lendas. Aquela era só mais uma para juntar ao folclore da região: a história de amor entre um cavaleiro e uma donzela encantada sem nome.

A Bênção da Floresta, Parte 3

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