Ao longe, o som do mar irado embatia na costa, abafando o soluçar compulsivo de Esperança. A noite iluminada pela lua cheia, que enfeitiçava o ar, impelia-a como apenas o que é livre é capaz de fazer.

Deixou-se cair sobre os joelhos, cobriu o rosto com as palmas das mãos e abandonou ao vento tudo o que guardava no peito. Encurralada entre o mar e a falésia, entre o que desejava e o que tinha, Esperança não conseguia ver para lá da sua prisão.

Uma mão quente pousou-lhe no ombro fazendo-a saltar.

– Porque choras? – Alamar murmurou, de rosto banhado pela luz acinzentada do luar.

– Porque sim.

Alamar sentou-se ao seu lado na rocha, passando o braço por cima dos ombros dela.

– Esperança…

Limpando as lágrimas do rosto, olhou-o de perto, pela primeira vez. Alamar observava-a como se nada mais houvesse naquele mundo. Tal como na primeira vez. Tal como em todas as outras.

– Cantas para mim?

Esperança inspirou fundo, clareou a garganta do resto das lágrimas contidas, e soltou a sua dor naquela doce e habitual melodia.

– Porque choras? – ele insistiu, no fim da primeira harmonia.

– Isto… – clamou, agarrando o tecido do casaco no sítio do coração. – Recusa-se a ser amordaçado.

– Tens família?

– Marido e dois filhos. – Esperança murmurou, largando o tecido.

– Vens comigo? – Alamar perguntou, levantando-se e estendendo-lhe a mão.

Assentindo com a cabeça, ela levantou-se, os cabelos claros soltos e os olhos brilhantes. Guiando-a até ao mar, largou-lhe a mão e mergulhou, reaparecendo a curta distância da costa.

– Vem – insistiu.

Esquecendo o frio, ela despiu o casaco de lã e saltou sobre as vagas que banhavam as rochas e ficou, de imediato, aconchegada nos braços de Alamar.

– O que és tu? – Ela murmurou, passando as mãos por cima dos ombros dele e entrelaçando-as.

– Não importa. Não vais ficar. – Alamar retorquiu, afastando-os da costa.

– Ficar?

Com as mãos na cintura dela, Alamar apertou-a contra si. Ela não ia ficar, ele não podia. Mas o desejo de a ter e o calor daquele corpo encostado ao seu apagaram tudo o que a razão contém. Procurou-lhe os lábios com os seus e deixou-se ir.

Deixou-a na costa, observando cada um dos seus movimentos, como se fosse uma miragem prestes a desaparecer. Balouçando ao ritmo da maré, permaneceu até não mais ouvir os seus passos nos degraus escorregadios, como pedra que permanentemente chora.

Esperança não seria a sua primeira. Aquele não seria o seu fim. Contudo, não fora capaz de amordaçar as palavras que proferira. “Entregas-te a mim e eu levo-te daqui”. “Para onde?”, ela murmurara, de lábios inchados com os beijos trocados. Incapaz de continuar, Alamar derramou uma lágrima, e submergiu, transformando-se à medida que o oceano o engolia de volta a casa. Não voltaria a vê-la.

conto_selkies

Anúncios