Ludovic berrou até a garganta arranhada ser incapaz de se pronunciar muito mais. Só quando o silêncio em redor foi mais forte é que a escutou uma voz que lhe sussurrava, vinda da madeira da árvore, pairando junto a si.

“Nobre cavaleiro, descansai, estais seguro” dizia, num tom suave, feminino, lembrando-lhe uma fada. Ou um espírito que o quisesse enganar para depois o matar. “A criatura não te poderá alcançar aqui. Dorme nos meus braços, nada temeis da floresta. Os corações puros serão poupados”.

– Quem és? – quis saber, piscando os olhos na escuridão e tentando contorcer o corpo no pouco espaço que tinha. – O que queres de mim?

Estranhamente, sentiu um leve estremecer da madeira, como se a árvore se ressentisse com a aspereza. Como se fosse demasiado sensível, tal e qual uma flor.

“Não vos desejo mal, cavaleiro. Quero apenas auxiliar-vos na demanda que vos leva para longe da floresta, e nada peço em troca”, sussurrou.

– Quem és, então? – repetiu, franzindo as sobrancelhas.

“Ninguém. Perdi o nome há muitos anos”, respondeu apenas, deixando-se em seguida cair em silêncio.

Ludovic não fez mais questões. A parte lógica da sua mente dizia-lhe para desconfiar daquele ser. A parte emotiva queria acreditar na voz frágil da árvore. Tentou manter-se atento, de olhos abertos e ouvidos à escuta. Porém, naquele aconchego estranho, o sono chegou demasiado depressa, apanhando-o desprevenido, e tomou conta de si, embalando-o no interior do tronco.

Foi a brisa que o despertou, com um estalo gelado. Tremeu e abriu os olhos, deparando-se com o manto branco que cobria o solo da floresta, e a sua arma por ali caída. Quando se apercebeu que ainda estava encaixado na madeira, apressou-se a saltar dela. Voltou-se para trás e observou aquilo que o ajudara na noite passada. Era uma simples árvore despida, os ramos tão nus quanto um bebé recém-nascido. O vento agitava-os, dando um estranho aspecto de aceno à despedida.

– Obrigado – sussurrou. Fez uma leve vénia antes de apanhar a besta do chão e partir. O Sol nascera há pouco, pelo que ainda teria luz durante várias horas. Tinha de as aproveitar.

Caminhou incansavelmente, ignorando o estômago que o torturava. Por vezes olhava para trás, parecendo-lhe escutar algum rastejo furtivo, mas nada via.

Célere, a noite aproximou-se do viajante. Nos seus meandros vinha o predador que voltou a atacá-lo sem hesitação. Ludovic pensou que não se safaria dessa vez, todavia, novamente a Floresta ganhou vida e a árvore mais próxima incorporou-o, salvando-o. Indo contra os seus instintos de sobrevivência, impediu-se de espernear ou esbracejar, deixando-se capturar.

– Obrigado, outra vez – disse, já no interior do tronco. Pousou uma mão na madeira macia e um pouco morna, o melhor que pôde. – Continuo sem compreender porque me ajudas, mas devo-te a vida e gostaria de retribuir.

“O único contributo que desejo é que continueis a viver”, respondeu a mesma voz da noite anterior. “A vida é sagrada”.

– Na verdade não sei se duro muito mais – declarou, com uma certa ironia. – Não sobrevivo na neve. Mas agradeço o te… seu esforço.

Tentou moderar o modo de tratamento para com alguém que o salvava pela segunda vez sem pedir nada em troca.

“Posso alimentar-vos, se o permitirdes, com a minha seiva de reserva”.

– Seiva…? Como? – Mal colocou a questão, escutou a madeira mover-se e uma extensão criada pela árvore tocou-lhe os lábios. Sentiu escorrer uma gota doce, em modo de prova. Ludovic tomou-a, agradecido. Pouco depois bebia avidamente todo o espesso líquido que lhe era dado, mas depressa acabou a refeição.

– Quero agradecer-lhe. Deixai-me, por favor – implorou, fazendo uma festa na madeira, já que a árvore não tinha mãos. Já lhe dera tanta salvaguarda…

“Um beijo”, foi o que a árvore disse, ainda mais baixo, como se pudesse ser censurada e tivesse a esperança de que ele não a escutasse.

– Um beijo? – Estava pávido. – Desejais o beijo de um homem?

Não houve resposta. A árvore arrependera-se do que ousara dizer. Ludovic ponderou por uns momentos qual poderia ser o significado de tudo aquilo. A suspeita revolvia-se nele, apesar de tudo.

– Dar-vos-ei um beijo, quando sair daqui – declarou. Seria tolo se não desse ouvidos à cautela. Existiam tantas histórias que descreviam o final trágico a que um beijo poderia levar…

A árvore não voltou a falar e o ambiente no interior do tronco pareceu tornar-se algo pesado, soturno. Tentou não pensar no assunto, enquanto adormecia.

Vários dias passaram, durante os quais a dormida na árvore se tornou regular. Ela foi sempre educada e nunca mais falou do beijo. Ludovic acabou por se descobrir a falar com ela, contando-lhe a vida árdua e trabalhadora que levava na aldeia, e o espírito que habitava as árvores mostrou-se sempre um ouvinte atento.

Até ao dia em que a noite caiu e as luzes da povoação distinguiam-se por entre os troncos da floresta, agora menos densa.

A Benção da Floresta, Parte 2

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