Esperança carpia. Um desconsolo que viera não sabia de onde e que se instalara no peito fazia com que todas as tarefas fossem banhadas em lágrimas. Todas, não. Não quando trocava o sal na face pelos respingos do mar e deixava a melodia troar. Não quando sentia o olhar fixo daquele estranho homem. Aí só chorara uma vez, há dois meses, antes de ver aquele estranho ser pela primeira vez.

Os dias, entregues às tarefas domésticas, eram um peso na sua esbelta figura. Misturando as lágrimas com a água da loiça, entoava nova música. Em breve estaria em frente ao mar, apreciada pelo que era, observada como nunca mais voltaria a ser.

A escorregadia escadaria escura recebia cada um dos seus passos como se o destino desconhecesse o abismo. Precipitou-se sobre cada degrau, sem hesitação, até sentir a brisa marítima arrefecer as lágrimas que lhe escorriam pelas faces. Estava de volta, onde não precisava escondê-las, onde podia deixá-las verter ou embalá-las com uma melodia. O ar gélido envolvia-a, forçando o tumulto que sentia a retroceder. Com o coração a galopar no peito, limpou o rosto com as palmas das mãos.

Viu-o de imediato, recostado no seu lugar habitual. De olhos fechados, com a masculinidade tapada pelas escarpas rochosas.

Esperança agarrou a frente do vestido de lã, torcendo-o entre os dedos. Inspirou fundo, e deu um passo na direcção dele. Os brilhantes olhos cinza abriram-se, imobilizando-a.

– Quem és? – ela tentou, quase num murmúrio.

– Alamar.

– O que fazes aqui?

– Oiço-te…  – Alamar retorquiu, entoando como se esperasse algo para completar a frase.

– Esperança. O meu nome é Esperança.

– Esperança… – murmurou, como se testasse cada sílaba num suave arrulho. – Porque voltas aqui, Esperança?

– Aqui? Pela solidão. – murmurou, desviando os olhos para o mar revolto.

– Encontras perigo, não solidão.

– E tu és o perigo?

– Posso ser – Alamar respondeu com um sorriso nos lábios. – Mas, para já, não serei eu o perigo…

– Não entendo.

– Eu sei. Não fiques em silêncio, isso seria ainda mais terrível. – declarou, atirando-se sobre a água.

Esperança cantou as mesmas melodias, todos os dias. Ele conseguia ouvia-la a milhas do sítio de onde estava, como se o som se propagasse por magia em vez de ondas. De pé, em frente ao mar, competindo com os sons da natureza, invadindo o oceano e cativando-o como nenhuma outra.

Alamar permaneceu ao largo. A sua audição apurada absorta no timbre angelical daquela esbelta humana. Qualquer outro selkie que se prezasse já teria investido há muito. Afinal, era da sua natureza. Mas Esperança fazia jus ao seu nome. Ela dava-lhe a esperança que pudesse ser diferente. Que o destino fosse alterado, determinado pelas escolhas e não estar escrito na rocha.

conto_selkies

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