Olhou em volta, incapaz de distinguir um trilho ou um marco que o guiasse. Ludovic estava completamente perdido numa floresta pintada de branco que daí a menos de uma hora seria negra como breu. Quase conseguia ouvir os uivos do anoitecer, cujo dono lhe farejaria o rasto, esfomeado, sedento da sua carne. Não podia parar.

A cada passo, as botas enterravam-se na neve gélida, dificultando-lhe a jornada como se também ela lhe conjurasse um destino fúnebre. O ar que expirava condensava mal entrava em contacto com a temperatura exterior, e a mão que segurava a besta já mal conseguia mover os dedos, deixando que Ludovic pusesse em causa a utilidade que teria no caso de um ataque surpresa. Matá-lo-iam e o cadáver, devorado até aos ossos, seria encoberto pela neve.

Como se as nuvens lhe perscrutassem a mente, a neve começou a cair, o tom cinzento do céu agoirando uma noite árdua. Se parasse para descansar, congelaria e não voltaria a acordar.

Menos de uma hora depois de as trevas se instalarem, escutou o chamamento dos lobos em busca de alimento. Contudo existiam criaturas mais temíveis que os membros de uma alcateia, e até mesmo as próprias árvores poderiam ser um perigo inesperado. Quem nunca se aventurara por ali pensaria que eram só descrições de loucos e trapaceiros, mas Ludovic preferia não subestimar a Floresta.

Vagueou durante horas na mais densa escuridão, sem ver um único predador. Tentou que os passos fossem silenciosos, que o vento disfarçasse a sua presença e que o frio inutilizasse o faro dos inimigos, tal como lhe congelava o nariz. No entanto, numa situação de cegueira como aquela, era inegável a sensação de estar a ser observado.

De súbito, deixou de conseguir mover as pernas, como se estas se tivessem enterrado em lodo espesso. Praguejou interiormente e o coração apertou-se-lhe no peito. Não escutara sequer o rastejar traiçoeiro do Pesadelo de Sombra. A criatura feita da própria escuridão tentava engoli-lo, puxando-o para o interior do corpo, com o qual armadilhara o solo. As lendas contavam que, uma vez capturada a presa, nenhum vestígio dela era deixado pelo noctívago, que lhe desfazia o corpo em pó. E ele não desejava o mesmo destino.

Ludovic apontou a besta para baixo e pressionou o gatilho, quase não se importando que pudesse acertar nos próprios pés. Um silvo de dor destilou-se da criatura quando o virote se cravou na substância amorfa, no entanto ela não lhe libertou as pernas, insistindo em tê-lo como refeição. Voltou a carregar a besta, porém o monstro começou a absorvê-lo. Quanto mais tentava fugir, mais nele se afundava.

Por cima de si, os ramos estalaram num mau prenúncio. Sentiu um toque morno nos pulsos, como duas serpentes a envolvê-los, espicaçando ainda mais o seu estado de alerta. No entanto não foi rápido o suficiente para se afastar do novo predador. Os ramos puxaram-no para trás, devagar, e, por mais incrível que parecesse, a primeira criatura deixou-o ir, libertando-o das suas mandíbulas sem dentes e ainda assim mortais.

A besta escorregou-lhe da mão, enquanto era erguido até os pés não conseguirem tocar no solo. Pendeu no ar, sem ver nada em redor. Aquilo que o agarrara fazia-o balançar no ar como um fantoche.

– Larga-me… – rosnou, puxando os braços com força, tentando libertá-los. – Maldição… maldição! Maldita floresta do demónio!

A constrição em redor dos pulsos intensificou-se, como se o ser que o prendia não tivesse gostado da ofensa. As costas de Ludovic bateram de encontro ao tronco de uma árvore. A casca estalou, a madeira começando a ganhar uma depressão, para a qual era empurrado à força. Esperneou, gritou, rosnou ameaças. Mas antes que pudesse fugir, a concavidade acabou por se fechar, engolindo-o.

A Benção da Floresta, Parte 1

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