As ondas embatiam nas rochas, quebravam em cristas espumosas e morriam ao tocar-lhe nos dedos dos pés. Esperança enchia os pulmões com a maresia gelada, deixava a melodia vibrar e sair pelos lábios. Os respingos assentavam-lhe no corpo, humedecendo o casaco de lã e o vestido castanho que usava. Nem o frio ou o vento a arrastavam dali, daquilo que sentia e que espalhava pelo ar.

Em soprano, ela enchia a praia de outros sons, misturados com o ritmo do mar e os gritos dos animais marinhos. A melodia arrastava-a para fora daquela praia como se cruzasse oceanos e ecoasse pelo mundo fora. Era ali que ela se sentia em pleno, junto ao mar, voz solta ao vento e música no corpo.

Abriu os olhos ao contraste de azuis à sua frente ao terminar a melodia. Convicta que ele estava ali… de novo. Observou as ondas. Esperou. Não procurou quem sabia não ir encontrar. Não procurou porque ele não se iria mostrar. Não agora. Cerrou as pálpebras e deu vida a uma nova melodia, mais doce, mais triste. Ele gostava daquela.

Fazia-se tarde. Os seus dois rapazes estavam a chegar da escola e o marido ainda recolhia o gado da pastagem para lá do moinho. A sua vida esperava por ela. Voltou as costas ao Mar do Norte. Devagar, tão devagar que um vislumbre seria possível.

Os olhos quase redondos tomavam-na. Uns revoltos caracóis dois tons de cinza mais escuros que os olhos emolduravam a face masculina que ela conhecia, de longe, mas tão bem. Nu, sentado no topo de um rochedo, o homem que há muito a ouvia. Nunca falava, nunca se aproximava, apenas escutava, e se ela tentasse um passo na sua direcção, mergulhava nas águas revoltas do mar e desapareceria.

Esperança vira-o, pela primeira vez, há dois meses, quando o início do mês de Junho pedia-lhe que procurasse um recanto na natureza e deixasse a ânsia de música vibrar. O que ele era, ela não sabia, não com certeza. Mas o seu aspecto, e a distância que mantinha de todos os que deambulavam por ali, faziam-na crer nas lendas da ilha.

Um chamamento animal troou pela costa, um grito grave, que fez o seu observador desviar os olhos e mergulhar atrás da enorme rocha.

 

Alamar emergiu ao largo, observando-a a trepar os rochedos e desaparecer no início das escadas de pedra. Nunca uma humana o havia feito perder o rumo, mas a voz daquela mulher ecoava-lhe dentro do peito. Ouvira-a a milhas, e a sua voz arrancara-o dos confins do Oceano. Se as sereias a ouvissem, recearia os portentos da inveja. Aquela melodia fazia-o desejar andar para sempre sobre duas pernas e ficar em terra enquanto a harmonia troasse.

Um novo chamamento ecoou pelo Oceano arrancando Alamar à contemplação costeira. Cessou o movimento das pernas e deixou o corpo submergir, os fios de pele cosendo entre si, unindo os membros humanos num só. Como uma camada de pele que deslizava pelo físico acima, substituindo castanho por cinzento, seco por húmido, e transformando-o naquilo que era, um selkie.

conto_selkies

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