– Tens a certeza? – Sónia perguntou, com óbvia urgência.

– Sim. Desapareceu! Tudo. – confirmou Miguel, continuando a teclar num ritmo frenético.

– A cura…

– A cura, os dados, as simulações. Tudo!

– Como?

– Não sei! – gritou Miguel.

– E agora? – ela murmurou.

– Estou a tentar recuperar os ficheiros. Se não funcionar… começar de novo.

– Não acredito nisto! – bramiu, com lágrimas a escorrer pelo rosto.

– Não foi um erro.

Como geneticista, Miguel procurara saber tudo sobre a doença, a obstrução sistemática das veias dos membros inferiores, a atrofia muscular, os intestinos que começaram a rebentar nas dobras, a infertilidade. A mutação do genoma, que se espalhou como só o pior vírus que assolara a humanidade havia conseguido. Sabia tudo, com excepção da cura. E quando isso estava prestes a mudar, alguém decidira que a espécie não merece a salvação.

Introduziu o comando que o levaria de volta à realidade virtual da frame. Os impulsos eléctricos sugando-o de volta ao sítio onde a vida quase parecia normal e não aquela existência de dor deficiente que os corroía.

Abriu as pálpebras para a luz florescente do seu gabinete laboratorial, acomodado na macia cadeira de pele preta, frente ao monitor de transição entre realidades. Correu para o seu posto no laboratório de análises, entrou no sistema e começou a procurar. O som dos dedos nas teclas de plástico ressoava pelo espaço, enquanto inseria comandos de recuperação de ficheiros.

Uma mensagem piscou no canto do ecrã “Miguel, venha até ao meu gabinete.”

Dias de trabalho perdido colocavam-no num humor perigoso. Se os seus instintos estavam certos, havia ali dedo do Presidente. As constantes perturbações, desde que comunicara o que pretendia fazer, nada mais eram que provas circunstanciais de que ele não estava interessado na cura. E porque seria?

Irrompeu pelo gabinete do Presidente e forçou o rosto a assumir a serenidade que não sentia.

– Miguel, como vão os testes? – perguntou Fraga, assim que cortou a comunicação telefónica em que se encontrava.

– Muito bem. Aliás, diria que estamos prontos a avançar para os testes em humanos.

– Como!? – os olhos de Fraga saltavam das órbitas.

– Mais umas horas e estamos prontos para os testes reais.

– Não! – berrou, levantando-se de rompante da cadeira de executivo na sua sala decorada a vidro e couro preto. As raias de sangue expostas nos olhos muito abertos.

– Porquê? – Miguel cuspiu a pergunta, observando o Presidente com indivisa atenção.

– Não é uma solução viável! – berrou, o seu corpo percorrido por visíveis tremores.

– De certeza? – insistiu, o nojo escrito nas linhas do rosto.

– O Miguel é um cientista, como eu. Como pode perseguir essas tolices?

– Não compreendo.

– Óbvio. – Fraga admitiu, com um murro na mesa.

– Tenho cópias de segurança.

– Miguel! Chega! Já chega…

Miguel avançou pela sala, contornou a secretária de vidro e agarrou Fraga pelos colarinhos engomados da camisa lilás.

– Você destruiu a cura! – ele vociferou, apertando o Presidente contra a parede.

– Não há cura. – murmurou Fraga, com uma profusão de tonalidades rosadas no rosto e um tremor na voz.

– Há uma esperança.

– Olhe para nós. A viver uma mentira enquanto o corpo apodrece. Não há cura! Não há esperança. Admita-o! Seja corajoso. – Fraga declarou, arquejando com dificuldade sob as palmas de Miguel.

Com um último encontrão na parede, largou o colarinho do Presidente que deslizou para o chão, cobriu o rosto com as mãos, e começou a soluçar.

– Não há cura. Não há esperança. – repetia Fraga, cravando os dedos no rosto.

Como aquilo lhes escapara? Para o Presidente já não havia esperança. Para ele, começara a mais perigosa degenerescência de todas… a mente desfazia-se, tal como o corpo.

– Volto a tentar… Enquanto tiver forças, volto a tentar. – declarou Miguel, agarrando o telefone e chamando a equipa médica.

Abandonou a sala ao primeiro sinal de assistência. De volta ao laboratório virtual, à vida na frame, ao sítio onde a mente não se conformava, onde a Ciência e a Fé se uniam, onde havia esperança nos ciclos da vida e num futuro.

De volta à realidade onde podia lutar… antes que a loucura o viesse buscar.

pão para a alma_Rui Alex

Imagem: Rui Alex

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