Miguel forçou as pernas a endireitarem-se, o peso a assentar nas plantas dos pés, e as costas a suportar a cabeça. Os músculos dos braços ardiam em esforço ao agarrar-se aos suportes de metal que decoravam toda a divisão. Dependentes como recém-nascidos. Mais malcheirosos e cínicos, mas eram como os bebés que já não conseguiam gerar.

Movido por pura força de vontade, passou o traseiro para a cadeira suspensa. Arquejava com violência ao aterrar no assento. Parou, procurando forças para colocar os pés nos suportes. Esperou uns minutos, recuperou o fôlego, e ajeitou-os nos encaixes. Os pequenos movimentos exauriam-no. Os grandes iriam matá-lo.

Prendeu-se à cadeira, passou o cinto à volta da cintura e pelo meio das pernas, e agarrou o comando. Carregou no botão, ordenando as roldanas a girar devagar. Submergiu o corpo, dentro da profunda cuba do banho, só sentindo a água quente ao tocar-lhe nos testículos.

Um apito troou pela divisão, arrancando-lhe uma imprecação. Desligou o feed de imagem e atendeu a chamada do Dr. João Fraga, Presidente do Gabinete de Investigação de Genética Avançada de Prevenção à Extinção Humana.

– Bom dia, Doutor.

– Apanhei-o em má altura?

– Não. Diga. – pediu Miguel.

– Estive a analisar o ficheiro que enviou. É uma premissa interessante.

– Concorda comigo, então?

– É interessante, mas algo inconsistente, Miguel. Não me parece que tenha os resultados pretendidos.

– Vou compilar um relatório, fazer mais umas experiências…

– Miguel, os recursos do GIGAPEH devem ser usados de forma criteriosa. Ponha a premissa à votação do conselho de investigação. Mas não me parece que seja aprovado. Falamos melhor assim que se ligar à frame.

Miguel cortou a comunicação, espetando o dedo com violência no pequeno ecrã do controlo remoto. “Ignorantes!”, cuspiu. Inspirou fundo, acalmando a vontade de atirar o aparelho contra a parede.

João Fraga, o Presidente do conselho de investigação, devia ter o poder de decidir. Talvez pudessem alterar a designação para GIGAFEH, em Favorecimento à Extinção Humana. Com uma gargalhada que lhe trouxe o gosto a bílis à boca, ordenou ao aparelho que o erguesse para fora de água.

 

Miguel observava o sorriso passivo do Presidente. Sentados à volta da enorme mesa oval da sala de reuniões virtual, os distintos colegas do conselho de investigação geravam um burburinho ensurdecedor.

– Doutores, façam o favor de se pronunciar…

– É uma premissa interessante. – um atirou.

– Não me parece que funcione… – outro contrapôs.

– Caros colegas, ordem! – interpôs Fraga, mantendo um sorriso ligeiro pregado nos lábios.

– Preciso de mais uns dias para fazer os testes necessários e, claro, os voluntários… – pediu Miguel.

 

Em renhida votação, Miguel obteve a aprovação do conselho. Invadido por um misto de medo e excitação, rumou ao laboratório acompanhado por dois dos colegas mais entusiastas.

– Doutor Araújo? – interrompeu o Presidente Fraga enquanto o computador preparava as novas premissas para análise.

Dispensando os outros com um gesto e um sorriso, Fraga aproximou-se do monitor de controlo das amostras sanguíneas.

– Vejo que já começou.

– Sim. – assentiu Miguel, desviando os olhos do ecrã onde trabalhava.

– Isto pode ser um falhanço épico. Mais um… – murmurou Fraga, afagando a quina da mesa com o dedo indicador.

– Tentativa e erro.

– Acha prudente ir por aqui?

– Prudente? – Miguel hesitou, continuando a teclar após um instante.

– Induzir alterações sistémicas no genoma humano é algo… precipitado.

– Não vejo outra solução. Nem tempo…

– Talvez, talvez. Prossiga, Doutor. E depois informe-me como correu. – declarou Fraga, abandonando o laboratório em passadas largas.

 

Miguel aterrou na cadeira de rodas, e na realidade, com umas pontadas nas costas e uma dor de cabeça brutal. Interrompeu o tango que se dançava no plasma da sala e inseriu o pedido no controlo do sistema de suporte vital. Esperou que os analgésicos subissem pelo tubo intravenoso, invadissem corrente sanguínea, e acalmassem as sinapses eléctricas que, nos últimos dias, lhe fustigavam o cérebro.

Reclinou-se no assento e fechou as pálpebras. Mais uns minutos, só mais uns minutos de dor e depois podia voltar ao trabalho. A urgência que sentia, desde que se propusera a tentar uma abordagem mais ousada à doença degenerativa que os devorava, aumentava a cada hora. Sentia nos ossos que, se aquilo não funcionasse, não teria muitos mais dias para voltar a tentar.

Abriu as pálpebras, uma hora depois de ter acordado fora da frame, amaldiçoando o cansaço e determinado em aproveitar os minutos. Entrou no sistema e acedeu ao ficheiro de resultados. A tela iluminou-se com o documento de compilação de dados… mas a informação não estava lá.

pão para a alma_Rui Alex

Imagem: Rui Alex

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