1875, Irlanda.

               Nas últimas horas da noite, um inglês atraente e alto apertava os botões do colete e prendia os longos cabelos negros encaracolados num rabo-de-cavalo.

Na soleira da porta a amante, com o vestido castanho ainda desalinhado, não era capaz tirar-lhe as mãos de cima ou o sorriso da cara. Fizeram amor durante toda a noite, mesmo assim ela mal conseguia conter-se de puxá-lo de volta para o casebre.

               A luz pelas costas fazia os caracóis ruivos brilharem como fogo enquanto se despedia com um beijo voraz. Uma última e ardente lembrança para a ajudar a suportar as noites cinzentas com o marido.

               Roy McAllister adorava irlandesas. Debaixo da capa de inocente modéstia católica eram todas fogo e paixão. As casadas, então, eram capazes de esgotar até um filho da noite como ele.

               Resistindo a mergulhar mais uma vez nos voluptuosos seios da mortal, lançou-lhe um último sorriso e escapou pela escuridão. A alvorada não espera por ninguém e por maior que fosse o desejo, não podia correr o risco de desafiá-la.

               Entre suspiros e uma expressão travessa, a ruiva fechou a porta, encarcerando a luz no interior. A meia-dúzia de casas de distância, no mais escuro dos becos, um homem moreno de disposição sombria observava.

               – Bastardo!

               – Calma, meu filho – apelou uma voz tranquilizadora e autoritária, pousando-lhe a mão no ombro. – Não deixe o Mal desviá-lo do caminho do Senhor. Lembre-se que estamos aqui em Seu nome. Senhor O’Donnel, é ele?

               – Sim, Padre – respondeu um ruivo de braços fortes e farto bigode, aproximando-se. – É o homem que vive no velho casebre dos Finnegan, do outro lado do cemitério. Nunca sai de dia.

               – Aquilo não é um homem, é um enviado do Tinhoso. Esta noite mostrar-lhe-emos a luz do Bom Jesus, meus filhos – garantiu o padre, olhos negros a brilharem em êxtase perante a missão sagrada. – Senhor Kelly, a sua mulher não é uma Jezebel, apenas uma vítima dos terríveis poderes ímpios da prole do Maligno. Assim que purificarmos esta terra da sua nefasta presença, ela e todos por ele tocados poderão começar o longo e penitente caminho para a salvação.

               Desejando ardentemente fulminar o enviado das Trevas, Sr. Kelly aceitou as palavras de Padre Ford. Sempre era mais fáceis do que admitir a verdade. Tendo a vingança em mente e o orgulho ferido seguiu os restantes para as sombras.

               Roy deambulava pelo cemitério a caminho do esconderijo, assobiando alegremente por ter uma noite cheia de memórias para o ajudar a passar o longo e entediante dia. Fossem todas as suas recordações tão agradáveis como a imagem dos alvos e cheios seios da Sra. Kelly e poderia sofrer a derradeira morte sem arrependimentos. Adorava aquela ilha.

               Contornava uma grande cruz céltica de pedra quando os sentiu aproximar, vindos de todas as direcções. Os corações rebombavam e o sangue nas veias dos mortais brilhava aos olhos do morto-vivo. Mary Shelley ficaria desiludida e Roy sentia-se embaraçado. A nível de multidões de aldeões furiosos exterminadores de monstros, não era das mais impressionantes. Foices, uma gadanha, mas nem um único archote, pois a lua estava cheia e a alvorada aproximava-se. A singela turba de cinco exalava mais medo que fúria.

               – Só? – perguntou, encostando-se ao anel da cruz, de mãos nos bolsos, rasgando um sorriso entre o bigode e a pêra negra. – Sei que a congregação é pequena mas…

               – Silêncio, vil criatura! – exigiu o padre, aproximando-se com passadas fortes e decididas, espetando a cruz de madeira qual escudo. – Não tentes enfraquecer a nossa fé com a tua língua insidiosa. Sabemos o que és! Vampiro! Escória dos testículos do próprio Tinhoso, bebes sangue dos puros e cospes teias de mentiras, conspurcando tudo o que tocas. As trevas que lanças sobre esta terra morrem aqui, não perante os purificantes raios do Sol, mas pela luminosidade da nossa fé.

               Inicialmente hesitante perante o primeiro confronto com um ser das trevas, nos quase 20 anos de sacerdócio, o padre de meia-idade cresceu em força e confiança ao ver o vampiro encolher-se e recuar, gemendo de dor. Aquele era o poder da fé da sua congregação. Os olhos brilhavam de orgulho ao ver os bons homens que juntara rodearem a criatura, cruzes e espíritos erguidos altos.

               – Sente o poder do Bom Deus, verme dos Infernos. Regressa para o Abismo de onde rastejaste e diz ao teu mestre que homens bons, de coração consagrado ao único e verdadeiro Deus, protegem esta nobre terra. Agora, Sr. Kelly, enquanto o ímpio está fraco! No coração, com propósito e fé!

               Enquanto os braços robustos de O’Donnel e dos outros dois companheiros seguravam o vampiro, Kelly martelou-lhe a estaca com força no peito, fazendo ossos estalar e sangue deslizar pela madeira. O sorriso maníaco brilhou-lhe ao ouvir o desesperado clamor do monstro. Luz que se extinguiu quando o horripilante berro de sofrimento se transformou numa gargalhada avassaladora. Assustados e confusos, os mortais afastaram-se de imediato, quase tropeçando nos próprios pés.

               – AH!AH!AH!AH!AH! Cambada de amadores! Primeiro, isto é o meu pulmão, não o coração. Segundo, estacas para matar vampiros é treta, corno.

               Kelly ergueu a marreta, mas Roy foi mais rápido, arrancando a estaca do peito e acertando-lhe na cana do nariz com a ponta romba, fazendo-o cair de costas, rosto lavado em sangue e dor.

               – Decapitação, por outro lado, é muito eficaz – sugeriu o filho da noite.

               O’Donnel, à esquerda do vampiro, foi o primeiro a reagir, lançando-lhe a lâmina da gadanha ao pescoço, que o monstro bloqueou agarrando o cabo. Sacando com a outra mão a Colt Peacemaker que tinha debaixo do longo casaco preto, disparou-a atrás das costas para o pé esquerdo do agressor. Outro dos mortais, armado com uma foice recebeu o mesmo tratamento, sem que o vampiro se desse a trabalho de olhar por cima do ombro, caindo de costas numa laje. O quarto humano largou a foice e fugiu, deixando os três amigos a gemerem no chão, agarrados aos ferimentos.

               – Claro que decapitar um de nós não é fácil – comentou, sorrindo para o clérigo enquanto dava um tiro na nádega direita do mortal que fugira, fazendo-o cair a uivar de dor. – Como está essa fé agora, padre?

               – Não te temo, criatura ímpia! – garantiu com voz firme, embora a cruz de madeira que empunhava tremesse como varas verdes. – Podes destruir o meu corpo, mas a minha alma…

               – Tenha calma – pediu Roy, guardando a arma e avançando para o padre, pisando Kelly como se nem o tivesse visto.

               – Para trás, prole de Satanás!

               – Oh, por favor, poupe-me – disse, agarrando com indiferença a cruz que lhe era estendida e arremessando-a.

               Encolhendo-se de medo, com fé e coragem destroçadas, Padre Ford estava prestes a borrar-se perante um vampiro que ainda nem sequer mostrara os caninos.

               – Um conselho, padreco – afirmou, rodeando-lhe o pescoço e puxando-o para si, ombro a ombro, como dois velhos amigos – deixe isso de caçar bicheza sobrenatural para os profissionais. Entretenha-se antes com o seu rebanho. Vá por mim, isso já lhe dará água pela barba.

               – Os seus feitiços…

               – Quais feitiços, homem? Olhe para esta cara. Acha que preciso de mais para seduzir as senhoras? – inquiriu, piscando o olho antes de o largar. – Sei que querem acreditar que somos a raiz de todos os males, mas têm de começar a aceitar alguma da responsabilidade. Olhe com atenção para os seus “bons homens” e verá pecados muito mais graves que fornicar mulheres casadas.

               – P-porquê? – quis saber, caindo de joelho, aliviado e ao mesmo tempo vergonhado.

               – Matar cobardes não dá gozo nenhum – respondeu, parando e olhando por cima do ombro, sorrindo. – As vossas mulheres têm muito mais genica. Não se preocupe, parto amanhã. Já não há nada de interesse nesta aldeola. Agora, se isso não for suficiente, venha visitar-me e traga uns amigos. Podemos rematar as festividades com uns funerais, não acha? Se sobrar alguma coisa para enterrar, claro…

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photo by: Carina Portugal

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