O grupo ficou mudo e pálido. A garganta do condutor fora aberta num golpe oblíquo. Pegado ao corpo, ao lençol e à maca, o tom vermelho escuro do sangue coagulado agredia-lhe os olhos.

– Alguém tem algo a dizer? – inquiriu o tenente.

Ao contrário da dona Margarida, a catedrática decrépita da qual ninguém realmente gostava, o condutor era o fiel companheiro das visitas à cidade. Nunca falhara a tarefa de encontrar um bar aberto onde pudessem beber uns copos. A pedido arranjava mulheres e homens para fazer companhia àquelas almas solitárias.

– Revistem os quartos todos até encontrarem as armas do crime! – sugeriu uma mulher de meia idade.

– Isso está a ser feito neste preciso momento – assegurou o militar.

– O que é que nos garante que não foram vocês a orquestrar isto? – acusou um dos mais velhos.

– Nós sempre tivemos as armas, se quiséssemos dar cabo de vocês, já o teríamos feito. Nós estamos aqui para vos proteger!

O olhar de dúvida percorreu as faces de todos, mas sem que ninguém se atrevesse a contestar.

– E se não encontrarem a arma do crime? Como é que pensam apanhar o assassino? – perguntou Débora.

– Se não o encontramos, teremos de tomar medidas extremas.

– E que medidas são essas?

– Ainda não lhe posso dizer – afirmou, voltando-se de seguida para os restantes – Se estivesse no vosso lugar, iria comer alguma coisa, a busca ainda vai demorar um pouco.

Passaram três horas até os dois cabos entrarem no refeitório. Uma troca de olhares foi suficiente para o tenente perceber a mensagem.

– Portanto, nenhuma das armas do crime foi encontrada. O que é que estão dispostos a fazer para apanhar o culpado?

– Como assim? – exaltou-se Nuno. – Não é óbvio que estamos dispostos a tudo? Isto é uma questão de sobrevivência!

– Alguém se opõe a que fiquemos aqui fechados?

– Em que é que isso nos vai ajudar?

– Muito simples, nesta sala ninguém tem possibilidade de cometer um crime e escapar impune.

– E se o assassino não for um de nós?

– Lembrem-se que acabamos de revistar o abrigo e não encontrámos ninguém. De qualquer modo, estaremos mais seguros todos juntos.

– E onde é que vamos dormir?

– Cada um será autorizado a ir buscar o que considerar necessário, mas apenas sairá uma pessoa de cada vez. Alguém se opõe?

Os olhares deram-lhe a resposta.

***

Nos dois dias que se seguiram, a cantina foi transformada num acampamento. A pedido das senhoras, uma cortina de lençóis foi erguida para separar as duas metades. Parte das mesas foram encostadas a um canto e vários colchões cobriam o chão.

O tenente acabou por autorizar que saíssem duas pessoas de cada vez, de forma a poderem carregar objectos mais pesados. Houve quem reclamasse que a solução encontrada tinha sido demasiado severa. As discussões entre os membros do grupo tornaram-se mais frequentes, levando algumas pessoas a serem expulsas para mudarem de ares.

Na manhã do terceiro dia, quando Débora o abordou durante o pequeno-almoço, Rui sabia ter umas olheiras enormes. Ela vinha vestida com umas calças justas, um top e trocara os óculos pelas lentes. Deduziu que ela o queria reconquistar, mas decidiu fazer-se desentendido.

– Pareces cansado!

– Não consigo dormir com esta gente toda à minha volta. É pior do que quando partilhava o quarto com o Guilherme.

– Tens de ter calma, isto vai-se resolver…

– Queres saber o que eu acho? Quem quer que seja o assassino, vai ficar quietinho e vamos passar uns bons meses aqui trancados.

– Saíste-me cá um pessimista!

– Estou a ser realista, já agora, porque é que vieste falar comigo?

– Preciso de saber os resultados da tua simulação – pediu, com um tom que despertou a Rui instintos primários.

– Qual simulação? – perguntou, distraído com os movimentos dela.

– Ouvi dizer que meteste um programa a correr para prever os efeitos deste holocausto nuclear.

– Quem te disse isso? – inquiriu, franzido o sobrolho.

– Ouvi dizer! Quais foram os resultados?

– Para que queres saber?

– Pela mesma razão que tu – explicou, de súbito com um ar profissional. – Quero saber que espécies vão sobreviver a isto. Vais partilhar os resultados comigo ou estás com medo que os publique primeiro?

Rui sorriu com a piada, ao aperceber-se que algumas das suas preocupações quotidianas haviam deixado de fazer sentido.

– Eu corri o programa, mas os resultados foram um autêntico lixo numérico. Meti o programa a correr de novo, mas ainda não fui ver.

– Ok, quando fores, avisas?

Rui acenou com a cabeça, com um sorriso de orelha a orelha. Fora preciso um apocalipse para se cobiçado por duas mulheres.

A oportunidade para ver os resultados, chegou durante a tarde, quando a Rita quis sair. Rui deu um salto e juntou-se a ela.

– Olha, aproveito vou contigo e vejo os resultados da simulação.

– Anda, eu também meti uma simulação a correr com os níveis de radioactividade – aceitou com um piscar de olho.

O soldado não apresentou qualquer entrave e quando o par anterior voltou foram autorizados a sair.

Quase correram até à sala de controlo. Ao chegar, Rui atirou-se para a cadeira e desbloqueou o terminal. A simulação havia terminado, percorreu as colunas de números com os olhos, sem acreditar no resultado.

– Rita, anda ver isto! – pediu, sem despregar os olhos do monitor.

Ouviu passos atrás de si.

– O que foi?

– Estás a ver?

– Sim, o que é que tem de estranho?

– Não estás a ver? – exaltou-se ligeiramente, apontando para a última coluna.

– Se calhar enganaste-te…

– Não! Já verifiquei o input umas vinte vezes…

Ela pegou-lhe na mão e fê-lo levantar.

– Eu acho que precisas de uma pausa, esta situação está a dar-te cabo dos nervos… – sugeriu, aproximando-se dele.

Rui deixou-se levar, beijando-a. As mãos de ambos acariciaram as costas. Ele quis fazê-lo mesmo ali. Afinal estavam sozinhos. Sentiu as mãos dela na barriga, descendo lentamente.

Nesse momento, ouviram um barulho ensurdecedor. Foram atingidos por uma onda de pressão tão intensa que perderam os dois o equilíbrio, estatelando-se no chão.

parte4

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