Os habitantes do abrigo reuniram-se à volta da vítima. Um único buraco na têmpora da sexagenária denunciava a causa da morte. Sussurravam entre eles como tal poderia ter acontecido. Sabiam que o eco se iria multiplicar num espaço fechado, não dando qualquer hipótese que um disparo ocorresse incógnito.

– Eu sugeria que se revistasse os quartos, para encontrar a arma do crime – sugeriu uma mulher.

– E se foram os soldados?

– Porque haveriam de fazer isso?

O tenente ergueu-se, enfrentando-os.

– Eu não tenho interesse nenhum em matar-vos e estou-me pouco lixando com quem toma as decisões. Se vocês são tão inteligentes como parecem, iriam perceber que as armas que temos têm um calibre superior à do homicídio. Quem matou esta senhora vai ser apanhado e castigado… – fez uma pausa, olhando-os nos olhos. – … com a pena capital.

***

Deixou-se cair na cama, estafado mas satisfeito. Passara o dia em frente a um ecrã, instalando o programa de simulação atmosférica. Confirmou os valores de Rita e aproveitou para passar tempo com ela. Introduziu dados nos servidores que integravam a base. Apesar do grupo de computadores servir para jogos de guerra, nada como uma limpeza ao disco e uma instalação fresca para os tornar numa ferramenta perfeita.

Mesmo depois das bombas terem parado de cair, o cenário era devastador. O fumo e as poeiras espalhavam-se nas imagens de satélite, sinal que as cidades continuavam a arder. Parecia impossível que alguém no exterior pudesse sobreviver.

Bateram de leve à porta.

– Entre – autorizou, esfregando os olhos.

A maçaneta rodou devagarinho, como se não quisesse chamar à atenção. Lembrou-se que estava no último quarto do corredor. Teve medo.

Rita esgueirou-se para o interior com um sorriso, fechando a porta com a mesma delicadeza com que a abrira.

– Então, já estás a dormir?

– Estou bastante cansado, foi um dia muito longo.

– Sim, sim, estás à espera que a Débora te venha aquecer a cama… – escarneceu, aproximando-se com passinhos pequenos.

– Não acho que ela esteja assim tão desesperada… – comentou, encolhendo os ombros e levantando-se.

– Como a vi sair do teu quarto hoje de manhã…

– Não fizemos nada disso.

– Não, desculpa estar a meter-me na tua vida…

– Não faz mal…

Ela lançou-se num abraço apertado, começando a soluçar no seu ombro. Agarrou-a com força, com na esperança que a ajudasse.

– Tenho medo… Estamos aqui presos com um assassino…

– Tem calma, aqui dentro não irá longe…

Ela interrompeu-o com um beijo nos lábios. Rui deixou que as mãos descessem e obedecendo ao impulso, há muito reprimido, derrubou-a sobre a cama. Viu nos olhos dela que queriam o mesmo.

***

Regou os cereais com sabor a papel com o leite em pó aguado. Agarrou na taça e procurou um lugar no refeitório. Encontrou Débora sozinha a um canto e quis juntar-se a ela.

– Bom dia – cumprimentou-a com um sorriso.

Ela levantou a cabeça e encarou-o com uma expressão triste. Percebeu que estivera a chorar.

– Posso sentar-me aqui contigo?

– Tanto me faz – respondeu-lhe, voltando os olhos para o prato.

Sentou-se em silêncio. Depois de engolir duas colheradas daquela mistura horrível, decidiu animar a amiga.

– O que se passa?

– Ainda tens a lata de me perguntar o que se passa?

– Não estou a perceber!

– Julgava que eras mais inteligente!

– Porque é que não me explicas?

– Como se tu não soubesses! Se calhar achas que eu sou parva, só pode! Gostava é que tivesses sido sincero comigo desde o início.

– Calma!

– Calma o tanas! Andas a pensar mais com a cabeça de baixo do que com a de cima, por isso é que não percebes nada!

– Estás a falar do quê?

– E continuas, pensas que eu não sei que passaste a noite com a Rita? Agora já sei porque é que te fizeste desentendido aos meus avanços, estavas de olhar fisgado na loira. É o decote dela, não é, por ser mais pequeno que o meu?

– Mas…

– Já percebi, é a sobrevivência do mais forte. Espero que os teus genes passem à geração seguinte!

Débora levantou-se e saiu da sala, sem lhe dar tempo de responder.

***

Rui fixou os resultados no monitor. Não acreditou nos valores das colunas de números brancos sobre o fundo preto. Verificou mais uma vez os parâmetros e submeteu de novo a tarefa, pedindo uma previsão para a próxima centena de anos.

Ao sair da sala de controlo, passou por ele um grupo bastante agitado.

– Anda, vai haver uma reunião no refeitório, é obrigatória a presença de todos – explicou um deles.

Seguiu-os, tentando captar os rumores e percebendo que não sabiam mais do que ele. A maioria dos residentes já estava sentada nas cadeiras. O tenente permanecia de pé e em silêncio. Assim que a última pessoa entrou, um soldado trancou a porta e ficou a guardá-la.

– O que vem a ser isto? – reclamou um dos mais velhos.

– É para vosso próprio bem – explicou fazendo sinal ao soldado que guardava a outra porta.

Pouco depois uma maca coberta com um lençol branco entrava na sala. Com um gesto vagamente teatral, puxou a cobertura, revelando o corpo do motorista.

parte3

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