As mentes mais pragmáticas desviaram os olhos dos ecrãs, fingindo-se ocupadas. Alguns quiseram vaguear. Rui descobriu com eles os vários níveis e corredores, onde se podia comer, dormir, fazer desporto e até ler ou ver um filme.

Escolheu um quarto simples quase na extremidade do dormitório. Depois de anos a dormir ao lado do engenheiro naval, o Guilherme, estar sozinho era o melhor que lhe poderia acontecer. Odiava aquele gordo ressonava que nem um motor.

Largou a carteira, o porta-chaves, um bloco de notas e telemóvel sobre a cama. Observou os documentos com desdém. Sabia que se haviam tornado inúteis, tal como a posição de certas linhas imaginárias. Por fim, atirou tudo para uma gaveta, conservando só o bloco, onde mantinha registos ligados ao seu trabalho. Tinha consciência que até isso se tornara obsoleto, contudo, sem ele sentia-se nu.

O cansaço levou a melhor e adormeceu sem dar conta.

Foi acordado por um bater insistente na porta. Abriu os olhos, atordoado por uma súbita dor de cabeça. Pela fresta de luz surgiu a cabeça de Nuno, o analista de dados.

– Ei, tens de vir até à sala de controlo!

– O que é que se passa? – devolveu, esfregando os olhos.

– Temos um problema grave e precisamos de tomar uma decisão em conjunto – explicou, desaparecendo de seguida.

Suspirou, puxando os lençóis com violência. Chegou à sala pouco depois, encontrando já meia dúzia de pessoas. O olhar prendeu-se em Rita, que se encontrava de frente para um ecrã com uma imagem de satélite.

– O que é que se passa?

– Rui, estás a ver isto? – disse-lhe, apontando com o dedo para várias manchas cinzentas espalhadas pelo mundo, sem desviar os olhos da imagem. – Isto é fumo libertado pelas cidades em chamas. Milhões de toneladas de dióxido de carbono estão a ser lançadas para a atmosfera.

– Tens uma ideia da quantidade?

Ela olhou-o nos olhos com uma expressão triste.

– Podes confirmar as contas se quiseres mas, na minha estimativa, quando isto terminar a temperatura média vai aquecer cerca de doze graus.

– Isso é… – ensaiou, numa tentativa fútil de quantificar a dimensão da tragédia.

Ficaram os dois em silêncio.

Meteorologia era a sua especialidade. Tinha consciência que não era só a temperatura que iria mudar. O degelo será brutal e o nível do mar iria subir uns bons metros. Ventos fortes, tornados, furacões, inundações. As correntes marítimas e os ventos dominantes iriam inverter-se. As áreas secas iriam tornar-se um deserto. Até as próprias estações iriam mudar.

– Bolas! Finalmente funciona!

Todos se viraram para Tiago, o engenheiro de telecomunicações, que estava à frente de um pequeno terminal, onde corriam várias colunas de números.

– Estive a tentar captar as ondas rádio – explicou, ao ver as atenções sobre si. – As principais emissoras não dão sinal. Quando digo que não há sinal, quero dizer nem sequer sinal fraco derivado da falta da rede de retransmissão. É que nem sequer encontro o contínuo da emissão interrompida. Varri toda a largura de banda e nada! Contudo, se falarmos de sinais rádio, as coisas são muito diferentes, há inúmeras mensagens a circular em tempo real. Há mais sobreviventes como nós!

– É muito difícil comunicar com eles?

– Amigo, isso é canja – revelou com um sorriso. – Mesmo que não estivéssemos equipados com transmissores, até um adolescente podia montar um.

Rui ignorou os restantes comentários, desejando um terminal onde pudesse correr algumas simulações com a nova concentração de dióxido de carbono.

Alguns minutos depois, encontravam-se todos reunidos, incluindo os soldados, armados com as metralhadores de assalto.

– Não precisam de vir para aqui com essas coisas – queixou-se um cientista franzino, notoriamente intimidado.

– Peço desculpa por ter trazido os homens armados, mas a situação exige-o. Temos de tomar uma decisão e é necessário que seja vinculativa – afirmou o tenente.

– Já agora, qual é o problema tão grave que exige a nossa presença?

O tenente fez sinal ao engenheiro informático, que ligou um dos ecrãs. Uma câmara exterior captara uma pequena multidão que esperava em frente ao portão do abrigo.

– O que é que fazemos? O protocolo diz que uma vez selados, os portões não devem ser abertos até que se prove que o perigo passou. Eu posso decidir isto sozinho, mas gostava de ter a vossa opinião.

– Eu acho que devemos abrir – opinou o especialista em electrónica. – Este abrigo é sustentado por um gerador nuclear, desculpem a ironia, e há mantimentos e espaço para 200 pessoas durante cinco anos. Somos de momento 51, não vejo por que não haveremos de acolher os trinta que estão lá fora.

– Eu concordo – aventurou-se Rui. – As condições climatéricas lá fora vão ser extremas nos próximos meses e são uma ameaça à população.

Levantaram-se diversas vozes de apoio.

– Alguém está contra? – interrompeu o comandante do destacamento.

Rita levantou-se e olhou-os. De imediato fez-se silêncio na sala.

– Para que isto fique claro, eu escrevi parte desse protocolo. Há uma razão para as portas não poderem ser abertas. A radiação exterior é de 4 sievert por dia e irá demorar pelo menos dois anos a descer para metade. O abrigo filtra o ar para essa poeira não entrar, mas se abrirmos as portas e deixarmos entrar aquela gente ficaremos contaminados. Eles estão condenados, temos de entender isso! Em seis horas já todos receberam doses que os vão impedir de ter filhos saudáveis. Para além disso, a maioria morrerá nos próximos meses.

– Podíamos só abrir o portão exterior e deixá-los entrar no compartimento exterior…

– Quem é que se voluntaria para o fazer? Quem o fizer terá de ficar lá com eles. E já agora, sem comida, de que lhes serve o compartimento exterior. Não os podemos ajudar e tentar é suicídio.

– O argumento parece-me bom – decidiu o militar. – As portas irão permanecer fechadas e guardas armados ficaram nesta sala e à entrada.

Rui deitou um último olhar às famílias de olhar suplicante. O sol ia alto. Eles iriam esperar dias, até se aperceberem que as portas não se iriam abrir. Aquele era o preço da sobrevivência. A maioria decidiu dedicar-se ao que sabia fazer melhor para evitar pensar demais.

***

Abriram a porta de rompante, interrompendo o seu sono. Era Débora e vinha coberta em lágrimas. Rui tomou nota mental para começar a trancar a porta.

– Aconteceu uma coisa horrível – anunciou, abraçando-o sem lhe dar tempo de se levantar.

– O que foi? – perguntou, devolvendo o abraço e passando-lhe a mão pelo cabelo, mesmo sabendo que isso lhe poderia dar falsas esperanças.

Ela preferiu chorar e soluçar durante uns momentos. Finalmente levantou a cabeça, fixando-o com um olhar sério por entre os cabelos desgrenhados.

– Mataram a dona Margarida!

parte2

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