Tudo começou com o Harry Potter e a Câmara dos Segredos que surgiu misteriosamente na manhã do décimo segundo aniversário, sobre mesinha de cabeceira da menina que não lia. A menina arregalou os grandes olhos castanhos, pegou no estranho objecto e abriu-o.

Fora a imagem da capa, não havia mais desenhos, era tudo letras e mais letras, como os livros da mãe. Decidiu classificar aquele tipo de objecto como “um livro a sério”, em oposição a todos os outros livros com imagens que a partir daquele momento passou a chamar de “livros para crianças”. Mas isso pouco importa para a nossa história, que é sobre os problemas digestivos desta menina. Onde íamos nós? Ah! A menina começou a ler a primeira página do livro, juntando as letrinhas como a professora Marília lhe ensinara, até que bateu no fundo da página. Não havia mais letrinhas para juntar e claramente que aquela frase não acabava ali. Talvez houvesse mais coisas escritas na parte de trás. Como aprendera nos filmes, molhou a pontinha do dedo na pontinha da língua, espetou-a no canto da página e arrastou com força, fazendo-a deslizar. O rufe do papel a arranhar sobre papel, o som seco e melodioso da página a virar, o cheiro a tinta fresca, a expectativa de não saber o que ia encontrar misturou-se tudo numa só sensação que se traduziu num vibrante roncar do estômago. Rapidamente, passou os olhos pelas palavras das duas páginas à sua frente e voltou a folhear o livro. Quando levou o dedo de novo à boca…Oh deuses! O sabor! Um leve travo baunilhado e químico, que transformava toda a experiência numa orgia para os sentidos. Sem dar por isso, arrancou a primeira página e mansinho e engoliu-a num só trago, mal dando tempo para ler o que lá estava escrito. NHAC! NHAC! NHOM!

Uma lágrima redondinha formou-se no canto do olho da mãe, assim que a menina a informou que já tinha devorado o livro    que ela lhe dera e que agora queria o resto da colecção. Foi num ápice que foram à livraria, não fosse o brilhante futuro literário da menina estar em risco. Nem chegar a casa foi preciso para que a menina que devorava livros começasse a consumir as compras feitas. Desde aí, foi um descalabro. Um após outro, os livros foram devorados num só trago, perdendo-se as entrelinhas no fundo das goelas abertas da menina que só via quantos livros queria ainda devorar, numa corrida desenfreada para se ultrapassar. Pouco importava a temática. O que o livreiro lhe metia debaixo do nariz era o que ela comia. Rapidamente começou a ficar famosa pelo estranho apetite, fazendo soltar O’s de assombro aos colegas assim que lhes mostrava os livros que já tinha devorado e, verdade fosse dita, quanto mais espantados ficavam os colegas, mais o apetite crescia.

Quando as editoras de todo o país descobriram que as opções gastronómicas da menina se reflectiam no volume de vendas, os livros começaram a chover na caixa do correio da devoradora. Em troca só pediam que, entre sorvos e trincas, arrotasse uma opiniãozinha que fosse. Claro que a menina disse que sim, mesmo sabendo que as suas opiniões só se podiam ficar pelas primeiras impressões fugazes das papilas gustativas que tinham a sorte de saborear alguma coisa nos escassos segundos em que os livros passavam pela boca. E claro que gostava de tudo! Tudo, desde que lhes seja posto debaixo do nariz. Mesmo que esteja podre, a deglutição é tão assaz que nem dá tempo para se aperceber da real condição da refeição.

Outras meninas seguiram-lhe o exemplo, tornando-se também devoradoras de livros, lutando pela atenção dos editores e dos fãs de gastronomia, que esperavam sofregamente pelo próximo arroto literário. Foi uma moda de tal ordem que se criaram restaurantes literários, onde cada devoradora luta pela atenção daqueles que as visitam. Não é bonita de se ver. Guinchinhos e birras, estaladas com mãozinhas sapudas, puxões de cabelos. Tudo vale quando está em jogo o saciar do apetite voraz. Nem imaginam o curioso que é vê-las a coinchar cada uma por si, afirmando com certeza que elas sim, é que são as autênticas, as únicas, as originais e as outras é que lhes roubam as ideias para as provas gastronómicas.

É quase tão curioso como o restaurante do outro lado da rua, onde críticos gastronómicos cobertos de pó, no alto de escadotes, usando garfos compridos, provam os cantinhos das páginas dos livros para logo os cuspir para o chão e dizer que não presta.

Mas isso…isso é outra história.

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