Sempre que olho pela minha janela fico desgostoso. O planeta que um dia teve paisagens luxuriantes e estava repleto de florestas, rios e mares, agora é uma paisagem desértica de terra queimada e vermelha. Sinto um aperto no coração sempre que vejo as antigas fotografias daquelas paisagens ricas. Agora, estamos confinados às velhas redomas de vidro que nos protegem das alterações climatéricas causadas pela passagem da nossa estrela para gigante vermelha. Ela continua a crescer e, em breve, consumirá o planeta e nós deixaremos de existir, sem deixar qualquer vestígio.

O meu mundo estava moribundo e nós, confinados às cidades redoma, onde tudo era controlado por máquinas e geringonças velhas. Estas necessitam de imensa manutenção para manterem a cidade a funcionar minimamente.

Já tínhamos perdido qualquer esperança de encontrar alguma solução. Quando os nossos cientistas se aperceberam da rápida alteração na composição da nossa estrela, enviámos naves para outras com sistemas planetários conhecidos, mas não tínhamos recebido qualquer resposta. Ao final de duzentos anos sem qualquer sinal no nosso Comunicador Óptico, que permitia receber e descodificar mensagens transmitidas à velocidade da luz, a nossa esperança tinha morrido.

Quando os meus pais pereceram no último grande êxodo, decidi que iria mudar o nosso fatídico destino.

Enchi os meus pulmões com o ar filtrado e pestilento da redoma. Os filtros precisavam de ser limpos. Aquele era o dia da verdade, tudo iria mudar nesse dia para bem ou para o mal.

A minha cave tornou-se no local mais importante para toda a minha civilização, apesar de mais ninguém saber o que eu estava a planear. Quem lá entrasse pensaria que estava num dos inúmeros túneis que se estendiam por baixo da cidade e que eram o coração que a mantinha viva.

As luzes tremeram quando acendi os vários equipamentos devido à sobrecarga causada pela energia que estes consumiam. O meu coração acelerou. Era o momento da verdade. Inspirei uma última vez e sustive a respiração. Todo o aparato montado era resultado de anos de pesquisa e de sacrifício. Quando falei inicialmente da minha ideia, fui ridicularizado e chamado de louco. Mas, agora, ia ficar provado que tinha razão. Toquei e pressionei a sequência de botões que tinham resultado dos meus anos de pesquisa.

O laser disparou e aos poucos uma fenda no espaço-tempo começou a surgir e a alargar-se. O meu coração parecia saltar-me do peito. As luzes começaram a falhar enquanto a fenda crescia e se alargava.

Eu sabia que ia dar certo, mas nada me preparou para isso. Uma janela abriu-se como se alguém estivesse a rasgar o ar com uma faca. Os meus ímanes gigantes estabilizavam o campo enquanto os limotes da fenda brilhavam como uma estela.

Sei que tenho de atravessar o limiar que nos separa da salvação, e ver com os meus próprios olhos o que nos espera do outro lado. Pego no meu controlo remoto que monitorizava a porta interdimensional para o meu regresso, caso não haja problemas e funcione.

Avanço a medo. Não sei o que me espera. Nem sequer sei se o meu mecanismo de segurança funciona e se conseguirei voltar para junto dos meus amigos, o meu estilo de ermita deixou-me poucos, mas ainda tenho quem se preocupe comigo.

Era hora de começar uma aventura. Pensei que fosse sentir alguma coisa quando atravessasse o limiar que separava as duas realidades, mas não senti nada. Foi como se estivesse a atravessar a porta da minha casa. Desta vez aguardava-me um mundo completamente novo.

Via-me no meio de uma floresta. Os meus olhos deliciavam-se com as paisagens verdejantes, tão diferentes das do meu planeta. Nunca tinha visto um verde assim, tão vivo. E, o céu, ai o céu. Este era de um azul que me feria os olhos, principalmente a quem apenas conhecia o vermelho. Inspirei o ar mais puro que alguma vez tinha entrado nos meus pulmões. Tossi compulsivamente, não estava preparado para tanta pureza.

Tudo o que via deixava-me extasiado, tudo era novidade. Os pássaros eram maravilhosos, tinha-os apenas visto em fotografias, há muito que se tinham extinguido no meu planeta. Caminhava por aquele lugar como um bebé que aprende a andar pela primeira vez. Entro num pátio. Devia estar a passear no jardim de alguém. Um palácio imponente erguia-se ao longe, e por trás dele dois sóis. Aí tive a certeza que não me encontrava noutra versão do meu planeta, mas sim num completamente diferente.

Assim que comecei a avançar um enorme cão apareceu à minha frente, mais semelhante com um enorme lobo negro. Ele era mais alto do que eu e no seu dorso estava montado um homem armado. Não conseguia distinguir as suas feições nem se se parecia connosco porque estava com a cara tapada por uma máscara. Apenas via os seus olhos azuis. Olhava-me furiosamente, como se eu tivesse cometido um pecado. O meu coração disparou ao vê-lo, instintivamente soube que tinha feito algo de errado. Eu não deveria estar ali e ele deixou isso bem claro com aquele olhar frio e cheio de ódio. Eu sabia que tinha cometido um pecado.

Ao longe consegui ver que mais se aproximavam, e, em breve, estava rodeado destes guerreiros temerários. Pensei que esse seria o meu fim.

Continua…

Red_Giants_and_Lumps_of_Rock

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