Todas as vilas têm os seus segredos. Faz parte da tradição manter um mistério em cada localidade para preservar a curiosidade dos turistas. Afinal uma vila sem um segredo, uma maldição ou um cemitério assombrado é um aborrecimento para os velhotes que precisam de contar histórias aos visitantes. Para Ricardo a história das bruxas de Miramar em Gaia era das mais espalhadas pela região. Estudantes segredavam entre si a existência de rituais satânicos e as velhas benziam-se cada vez que passavam pelo Senhor da Pedra quando viam despojos do último sacrifício.

Do alto da igreja via-se as ondas fortes a lançarem-se contras rochas, ao mesmo tempo que as velas iam sendo distribuídas para um novo ritual. Cabia a Ricardo verificar se as bruxas não utilizariam nenhuma refém para o sacrifício. Na praia, as bruxas estavam atentas à presença da gárgula do alto da capela. Os seus olhos vermelhos captavam a figura de pedra com o focinho achatado, orelhas pontiagudas e garras nas mãos e nos pés. Distribuíam o sal pelo círculo na areia e colocaram máscaras de plástico. O ritual estava prestes a começar e a primeira criatura a ser lançada para o fogo iria aparecer em breve. Os olhos de Ricardo permaneceram atentos. Quando a primeira prece começou, o seu telemóvel tocou. Que sorte a minha… As mãos começaram a clarear e alcançou o telemóvel mesmo ao seu lado. Isabel… A telefonar-lhe a meio da noite não podia ser bom sinal.

– Estou? – O tom de voz denunciava a irritação por ter sido interrompido.

– Onde é que estás?

– No Senhor da Pedra, algum motivo para me ligares a meio da noite?

– Houve outro atentado à Santa. Estou a ir para lá agora. – Ricardo saiu do seu estado e começou a massajar as têmporas.

– Outra vez? Aquela mulher não tem descanso… – A voz de Ricardo era grave, marcada pelo álcool. Pegou na garrafa de vodka que tinha ao lado e deu um gole, abando a cabeça e tossindo – Estou a vigiar as bruxas em Miramar, vá se lá saber quando decidem mesmo comer criancinhas.

– Desde que não sejam as minhas, não quero saber delas. – Isabel dentro do carro retocava a pintura dos lábios gasta pela noite. Ajustou o microfone do carro. – Vá, mete-te lá depressa, que eu também me vou despachar. Chego daqui a dez minutos. – Carregou no acelerador mais um pouco. Malditos paralelos!

Do outro lado, Isabel já tinha desligado a chamada. A vítima das bruxas naquela noite seria um bezerro. Suspirou. Menos mal… Afinal parece que hoje não haverá ninguém em perigo. Ricardo sabia bem que o mito das crianças era errado. O verdadeiro pavor das bruxas estava nos seus poderes de persuasão. Quantas jovens não foram encontradas mortas e tidas como suicídio quando na verdade tinham sido drogadas pelas bruxas. Os seus corpos eram descobertos com pouco sangue dentro delas. Esta esvaiu-se em sangue coitada. Os pulsos com cortes eram a única prova que a polícia encontrava. Quando Ricardo chegou à capela a carrinha verde da GNR já estava estacionada à porta com três agentes a anotarem a ocorrência.

– Esta gente já não tem respeito. – Observou o agente Meireles. A arma do crime: um machado, ainda cravado na testa castanha da santa. – Desta vez nem se dignaram a tirar a arma. Cabrões! É mesmo por maldade. – O agente continuou a anotar depois de analisar o corpo.

– Achas que conseguimos algumas impressões? – Não via nada que ajudasse a apanhar os criminosos para além do machado. Adivinhava-se uma noite longa…

O agente soltou uma gargalhada.

– Talvez. Dá para acreditar que eu estava a ver o CSI antes de ouvir o estrondo? Imagina se fossemos como a série, era só enviar o machado e eles lá diziam-nos tudo. Apanhávamos os tipos de certeza. – Ricardo sorriu. Como era óbvio não se apercebia que tinha como companheiro de equipa uma gárgula que poderia ser tão eficiente quanto as personagens da série. Pousou a mão no ombro do colega, quando ouviu Isabel atrás de si.

– Boa noite, cavalheiros. – Calçava luvas de borracha para retirar o machado da vítima. Hoje estava excepcionalmente bonita, notava-se que se tinha preparado para ir caçar. Cabelo preto sedoso preto, lábios cheios rubi e aqueles olhos cinzentos contornados por lápis preto. Ao menos teve a decência de se cobrir com um casacão vermelho.

– Ai Isabelinha, Isabelinha, que se eu não fosse casado, já eras minha! – Cantou Meireles enquanto arrumava o caderno. – Bem, vou preencher relatórios. Vocês ficam aqui a tomar conta? – Ricardo e Isabel acenaram. A gárgula decidiu olhar em redor para verificar se havia objectos de valor que não foram roubados. Isabel cheirou o machado.

– Blergh, isto tresanda a homem. Se bem que ao menos usa um perfume bom. – Ricardo sorriu e olhou de soslaio para as pernas e os stilletos dourados dela. Riu-se para dentro quando se lembrou da canção do Meireles de cabelo loiro e encaracolado. Ao lado dele, o bronco era Ricardo com a sua camisa branca e calças verdes. As mulheres preferem sempre os mais bonitos… Os olhos de cinzentos, mudaram para vermelhos e expandiram. Voltou a dar uma olhadela em seu redor. A caixa das esmolas continuava no sítio. Em princípio a santa fora a única vítima daquela noite. Os vitrais estavam intactos, tal como as figuras da Virgem Maria e do Sto. António. Não havia nenhuma dedada dos assaltantes, nem sequer um espirro ou uma gota de saliva. A santa continuava com a pele acastanhada, olhos fechados e nariz completamente desfeito desde a marretada nos anos 80. Isabel apareceu à sua frente. Ricardo deu um salto para trás. Os seus olhos voltaram ao normal.

– Sabes que detesto quando fazes isso! – Resmungou. Isabel não comentou, simplesmente encolheu os ombros e saiu da sua frente. Ricardo detestava que a sua companheira o visse naquela forma tão assustadora. Metia-lhe impressão como uma mulher tão bonita conseguia olhar para um monstro como ele. Calma, idiota, estás aqui por causa da santa! O cabelo cobriria a machadada na testa, mas o estado de degradação do terceiro ataque começava a notar-se. O colar de pérolas não tinha sido roubado, permanecendo no peito do santo em carne. Da primeira vez fora um assalto, da segunda fora atacada com uma marreta e a agora um machado… Os ataques estavam a ficar cada vez mais violentos e os assaltantes com menos paciência. Um homem careca de fato e gravata cinzento entrou no museu acompanhado de Isabel. Ricardo estendeu a mão.

– Lamento muito, sr. Presidente. Desta vez foi com um machado… – O homem coçou a barba por fazer.

– Que raios! Parece que mesmo com alarme novo e a polícia mesmo ao lado, estes gajos conseguem sempre chegar até ela. – Soltou um suspiro carregado e tocou no tampo de vidro quebrado. – Que acha que devemos de fazer?

As carrinhas das televisões e rádio começaram a chegar. Ricardo e Isabel encolheram os ombros.

– Temos várias soluções, uma delas é arranjar um vidro mais forte ou então substituir o tampo por um material de forma a tapar a santa.

– Não entendo… juro-vos que não entendo este tipo de vandalismo. Parece que o fazem só mesmo por maldade. Cabrões… – Ricardo permaneceu sem saber o que dizer. Não era o seu trabalho consolar os outros ou assegurar que tudo ia correr bem. Os jornalistas amarravam os cabos e preparavam as câmaras. Isabel pousou a mão no ombro do companheiro.

– Eu vou lá. Pede o inventário dos objectos à D. Gracinda. – Ricardo acenou. Engoliu em seco ao olhar para as câmaras e os holofotes. Sentia os olhos a fecharem-se e a cara a endurecer. Maldita luz. Ouvia aos poucos as perguntas que iam sendo colocadas e as respostas dadas pela súcubos. “Sim, tudo indica que foi um acto de vandalismo… não, infelizmente as câmaras foram desactivadas… tudo indica tenha sido um acto premeditado… a arma do crime foi recuperada e será enviada para o laboratório para análise… Muito boa noite, com licença.” Os jornalistas apressaram-se a colocar mais questões, mas o presidente da freguesia tomou o lugar da sua companheira.

– Está na hora de fecharmos a capela. – Isabel fitou-o. Não havia tempo a perder, se aquele objecto fora roubado, tinham de apanhar os tipos o mais rápido possível. Isabel trancou a porta. Ricardo levantou o tampo do esquife. A santa em carne piscou os olhos e levantou-se.

– Doí-me a cabeça… – As suas mãos castanhas elevaram-se até à machadada.

– Eles levaram alguma coisa, Adelaide? – Perguntou Ricardo, mas a múmia negou e de debaixo do corpo tirou um frasco com um líquido azul.

– Eles nunca procuram no sítio mais óbvio, meu querido. O elixir da juventude ainda está comigo. – Pegou numa gota e levou-a aos lábios. Depois de fechar o frasco, pegou na cara e a face castanha e torturada desapareceu dando lugar a uma cara de uma jovem de olhos pretos, boca redonda e lábios finos.

– Não sei porque te sujeitas a isto… Não dói quando eles te atacam? – A santa sorriu. A sua pele imaculada fazia corar a de Isabel.

– Alguém tem de fazer o trabalho. A população precisa de algo em que acreditar.– Arrancou a mão com os ossos cor de terra e com a nova mão branca tocou na cara de Ricardo.

– O que vai acontecer quando não tiverem mais carne para atacarem? – Isabel cruzou os braços a assistir à cena. Ridículo… Uma gárgula a confraternizar com uma morta-viva…

– As pessoas esperam sempre um milagre… Temos de dar algo à população para acreditar Nele. – Voltou a colocar a cara marcada pelos atentados e deitou-se. Isabel pegou no tampo e colocou-o no lugar. Havia sempre algo dentro de si que se tornava triste quando via a bela Adelaide a ter de usar a máscara que as gárgulas lhe tinham arranjado para evitar ataques daqueles que queriam a poção. O disfarce não estava a resultar. Uma vila precisa de uma história. Talvez nunca se viria a descobrir que ela antes de morrer, bebera a poção para ficar jovem mesmo depois de morta. Uma mulher tão bonita condenada a ficar deitada para sempre para proteger a sua poção. Isabel nascera com o preço da beleza no pescoço e sabia bem os problemas que a beleza lhe causava.

– Um dia troco de lugar com ela… – A afirmação de Ricardo foi um murro no estômago. Isabel pegou-lhe na mão.

– És um idiota. Ela está bem. Queres partir as pernas aos gajos que lhe fizeram aquilo? – Ricardo sorriu.

A viagem de carro não seria longa, passaria o tempo a imaginar como iria partir as pernas aos gajos. Pensaria também numa forma de salvar Adelaide. Como salvar a mulher mais bonita que já conhecera, a única mulher que não tinha gritado quando o vira transformado em pedra… Apesar de tudo, do seu aspecto horrível, o coração era a única parte de si que ele nunca conseguira transformar em pedra.

mascaras_pedra

Anúncios